Na luta pela memória dos filhos, Mães de Maio são ligadas ao crime pelo próprio Estado que os matou

Primeiro seus filhos, mortos por policiais em chacinas como a de Osasco, em 2015, acabaram relacionados com o tráfico. Agora, mães que lutam por justiça enfrentam o calvário da mesma acusação

Zilda Maria de Paula, mãe de Fernando, morto em Osasco em 2015.
Zilda Maria de Paula, mãe de Fernando, morto em Osasco em 2015.Daniel Arroyo
Arthur Stabile

Fernando Luiz de Paula levou o dia todo para terminar um bico como pintor. Chegou em casa no Munhoz Junior, bairro periférico de Osasco, exausto. A região é formada essencialmente por trabalhadores sem dinheiro para viver na metrópole de São Paulo, distante dali a menos de uma hora a carro. Depois de dar um beijo na mãe, Zilda, decidiu tomar uma cerveja para relaxar —rotina de muitos moradores dos bairros pobres, depois de um dia inteiro na labuta. Era 13 de agosto de 2015. Fernando não teve nem sequer a chance de dar o primeiro gole no copo gelado. Levou um tiro na testa, disparado por homens encapuzados de preto, junto a outras 16 pessoas em uma das maiores chacinas do Estado de São Paulo. Os algozes eram policiais, segundo a Justiça, que condenou dois deles. Sem ficha criminal, em subemprego, com todas as provas a seu favor, o homem preto foi ligado ao crime organizado mesmo morto. Passados seis anos, quem convive com a acusação —e o vazio no peito— é sua mãe.

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Ao longo de seus 67 anos, Zilda Maria de Paula enfrentou de tudo na vida. Foi abandonada pelos pais de sangue, deixou a casa do casal que a acolheu ainda na adolescência e viveu na rua. Sobrevivia limpando “casa de família”, como chama os lares de classe média em que trabalhava. Os trocados davam para o gasto. Até chegar à periferia de Osasco, ainda enfrentou cinco abortos espontâneos antes de Fernando nascer. Depois, veio o abandono do companheiro e a missão de criar uma criança preta periférica como mãe solo. Realidade no Brasil comparável a um jogo no modo extra-hard. Hoje, ela carrega com orgulho em sua vida o termo “mãe” como resistência. Na falta do abraço e do beijo de Fernando, resiste só ao sofrimento e a pecha de ser traficante.

Quem ataca é o próprio Estado que matou Fernando. Na semana seguinte ao assassinato do único filho, aquela mulher negra entrou para um coletivo, as Mães de Maio. A inspiração são as argentinas Madres de Mayo, “órfãs” de seus filhos e netos mortos ou desaparecidos forçadamente pela ditadura militar, no país vizinho.

Em plena democracia no Brasil, as Mães de Maio nasceram de outro banho de sangue, ocorrido no mês de maio de 2006, quando mais de 500 pessoas foram mortas —os Crimes de Maio. Na ocasião, profissionais de segurança saíram pelas ruas do Estado de São Paulo como resposta a ataques feitos pela principal facção criminosa brasileira, o PCC (Primeiro Comando da Capital), que mataram 50 policiais uma semana antes. O Estado que levou estas mães do luto à luta, agora, as chama de traficantes.

Se policiais os mataram, a Justiça usa suas canetas para “matar de novo”. A definição é de Debora Maria da Silva, fundadora do movimento. Seu filho, Edson Rogério Silva dos Santos, é uma daquelas 500 vítimas. Foi ela quem trouxe Zilda para o grupo. Viram uma à outra pela primeira vez na semana seguinte ao assassinato de Fernando. Debora já estava há nove anos na luta —motivo que a fez sair pela primeira vez da vida na periferia de Santos, litoral do Estado, para o enfrentamento na gigante São Paulo, no Brasil, na América Latina e “onde mais for necessário”. A partir dali, Zilda abraçou o mesmo desafio. Ambas estão calejadas das acusações. Para quem apanha da vida a ponto de ver seu maior amor brutalmente assassinado, palavras pouco machucam. Mas há quem faça questão de dispará-las como balas na direção dessas mulheres.

A promotora Ana Maria Frigério Molinari é uma delas. No mesmo ano em que o pintor Fernando morreu com o rótulo de traficante na cabeça, a representante do Ministério Público brasileiro atacou as Mães de Maio. Com as mortes dos filhos, as acusou de terem “herdado” biqueiras (nome dado a pequenos pontos para venda de droga) nos bairros pobres onde moram. Até hoje, Ana Maria não mostrou provas do que disse, o Ministério Público não questionou sua fala e ficou por isso mesmo —o EL PAÍS pediu explicações a ela, mas o órgão negou ao alegar “sigilo” no processo no qual Ana Maria fez a declaração.

Na verdade, não ficou por isso. O ataque feito lá atrás reverberou anos mais tarde em Zilda. Em um novo julgamento de dois dos quatro acusados de terem praticado a chacina de Osasco naquele dia 13 de agosto, quem virou alvo foi a mulher negra —e não os supostos assassinos. Com seus cabelos crespos e a pele escura, ela deu seu depoimento. Logo depois, sem que estivesse na sala de julgamento, o advogado do guarda e do ex-policial usou as falas da promotora Ana Maria Frigério Molinari para descredibilizá-la perante o júri popular. Ambos foram inocentados. Em análise anterior, outros dois policiais receberam penas superiores a 500 anos de prisão pela matança.

“Revolta, né? Mais pela sujeira que o advogado fez”, admite Zilda. Enquanto fala sobre o assunto, ela mesma destrincha a curva que, ao atacar as Mães de Maio, a intenção era da acusação recair nela. “Eu não queria ver o julgamento, porque de vítima você passa a ser réu”, reconhece. A frase resume os dias desde a chacina que levou de sua vida Fernando. Primeiro ele, morto e criminalizado. Agora —e para o resto da vida—, o mesmo com ela.

O advogado João Carlos Campanini, que levou o vídeo da promotora aos jurados responsáveis por julgar os possíveis assassinos de Fernando, se explica. Ao EL PAÍS, disse que usou a fala de Molinari para mostrar como os policiais são “injustamente” acusados de forma automática quando ocorre uma chacina, sem que sejam avaliadas outras possibilidades para os assassinatos. “Três dias após o crime, quando ainda sequer haviam notícias ou boatos sobre autores da chacina, uma pessoa pede no Facebook o fim da polícia militar, notadamente pré-acusando esse órgão do cometimento da chacina”, defende Campanini.

Acusar defensores dos direitos humanos de ajudar “vagabundos”, forma costumeiramente usada por boa parte da população para classificar quem comete crimes, é algo rotineiro no Brasil de Jair Bolsonaro —e antes dele também. Diversos coletivos e ONGs (Organizações Não-Governamentais) encaram este desafio. É comum promotores e agentes públicos brasileiros exacerbarem nas declarações, como define Gabriel Sampaio, advogado da Conectas Direitos Humanos. As mães são alvos desde sempre, confirma Jurema Wereck, diretora-executiva da Anistia Internacional no Brasil. “Quem luta por justiça, por segurança pública, pela vida dos seus filhos e filhas, pela sua comunidade, é criminalizado”, resume.

Pode ser rotineiro, mas não é indolor. “Eu chorei muito. Fere a dignidade, o caráter. Somos mulheres, diaristas, os nossos filhos trabalhavam. [Ana Maria] não provou o que está falando”, admite Debora Maria, sobre o ataque da promotora. Juntar várias “donas Marias de luto”, como versam os Racionais MC ‘s em suas letras, é uma forma de reunir a força e a revolta de todas numa só. “Um absurdo fazer um julgamento e a defesa ter licença para expor mulheres. Não temos o que temer, estamos nesse front e luta há 15 anos para pedir que o Estado brasileiro se responsabilize pela morte dos nossos filhos”, comenta Debora, se refazendo do impacto causado pelo ataque da promotora e tratando sobre o episódio de Zilda em que todas foram atacadas por tabela.

A maioria dos jovens mortos pelo Estado e das mães integrantes do movimento é negra, como Fernando e Zilda. A última traz consigo um vazio sem a presença de Fernando em sua casa. Segue vivendo no bairro Munhoz Júnior, periferia de Osasco, onde seu único filho morreu com um tiro na testa a passos de onde eram felizes, apesar das dificuldades da vida. “Meu filho não fazia nada de errado. Se a pessoa está fazendo, a gente espera que uma hora venha o caixão ou a cadeia. Não tinha meia hora que o moleque saiu e tomou um tiro”, relembra.

A forma de reagir à criminalização é manter a luta abraçada desde 13 de agosto de 2015. Repetidas vezes, Zilda coloca o dia do homicídio de Fernando como data da sua própria morte. Hoje, diz ser apenas um corpo vivo. “O moleque era tudo para mim. Nunca pensei tanto no meu filho quanto estou pensando agora. Esse mês mesmo, dia 16, era aniversário dele. Nem em cemitério eu vou mais”, admite. A dor próxima ao aniversário de Fernando é revivida nesta semana, quando é festejado o Dia das Mães no Brasil.

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