Em depoimento, ex-seminaristas de Belém dizem que Igreja ignorou pedido de ajuda ao relatarem abusos

Dom Alberto Taveira Corrêa é acusado de crimes sexuais por quatro ex-estudantes do Seminário São Pio X entre 2010 e 2014. Arcebispo de Belém nega acusações e diz ser vítima de um complô

Dom Alberto Taveira Côrrea durante uma missa em Belém em agosto de 2020.
Dom Alberto Taveira Côrrea durante uma missa em Belém em agosto de 2020.TARSO SARRAF (AFP)
São Paulo -
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Em depoimento à polícia e autoridades eclesiásticas que investigam as acusações de assédio e abuso sexual contra dom Alberto Taveira Corrêa, arcebispo de Belém, os ex-seminaristas que acusam o religioso dizem que procuraram ajuda dentro da Igreja Católica na capital do Pará na própria época em que os crimes aconteciam, mas que foram ignorados. Afirmam também que outros padres sabiam do que se passava com eles e alguns, que segundo os jovens chegaram a testemunhar situações suspeitas, os aconselharam a se afastarem do arcebispo, mas foram omissos em protegê-los.

Sistematicamente o arcebispo teria intimidado os jovens, na época com idades entre 15 e 20 anos. “A corda arrebenta para o lado mais fraco”, é a frase que dizem ter ouvido várias vezes do líder da Igreja Católica em Belém para que não contassem a ninguém o que acontecia nas sessões particulares de orientação espiritual. A reportagem teve acesso ao termo de declaração apresentado pelos jovens nas denúncias feitas ao Vaticano e à polícia, com o resumo do que seria tratado nos depoimentos oficiais. A Polícia Civil convocou pelo menos 18 pessoas a prestarem depoimento na investigação do caso, que corre sob segredo de Justiça. Três delegados conduzem o inquérito e os depoimentos prestados pelos quatro ex-seminaristas somam mais de dez horas.

O arcebispo de Belém é investigado pelo Ministério Público e pela Polícia Civil após ser alvo de denúncias de assédio e abuso sexual por parte de quatro ex-estudantes do Seminário São Pio X, em Ananindeua, na Grande Belém. Em dezembro o EL PAÍS entrevistou dois denunciantes e revelou detalhes do caso —exposto de maneira velada pelo próprio arcebispo no início daquele mês, quando ele se defendeu nas redes sociais—, o que motivou 37 entidades civis pedirem o afastamento do arcebispo do cargo até que as investigações sejam concluídas. No domingo passado, 2 de janeiro, o Fantástico, da Rede Globo, veiculou extensa reportagem onde também traz detalhes sobre o caso. Dom Alberto Taveira Corrêa nega todas as acusações.

“Pediu para o declarante baixar as calças e ficar nu e que endurecesse a genitália; nisso o arcebispo já estava com a camisa desabotoada, foi então que bateram na porta interrompendo a situação, onde o declarante já se encontrava em total assombro e constrangido. Era o bispo auxiliar naquela época”, diz o depoimento de um dos jovens ao qual o EL PAÍS teve acesso. “Foi então que o arcebispo pediu ao declarante que vestisse suas calças, enquanto foi ao banheiro lavar as mãos. (…) Depois do almoço, o bispo-auxiliar percebeu o constrangimento no seu rosto e disse para o declarante ir embora e não voltar mais à casa episcopal”, contou às autoridades o jovem que chamaremos de A, sobre uma possível testemunha —a reportagem omitiu o nome das pessoas indicadas como possíveis testemunhas pelos ex-seminaristas.

“(…) O declarante já muito chateado e aborrecido disse ao cônego reitor do seminário tudo o que o arcebispo fez com ele e os assédios que sofreu, ao que o senhor cônego indiferentemente insistia com o declarante em dar uma carta de recomendação para o mesmo ir para qualquer outro seminário”, diz o mesmo denunciante, segundo o documento ao qual o EL PAÍS teve acesso. “Aquelas conversas eram sigilosas, pois eram como uma confissão e nada poderia sair daquele recinto, e que se isso acontecesse a vida do declarante seria exposta”, segundo o depoimento entregue ao Ministério Público, polícia e Vaticano em outro trecho. “O arcebispo segurou com força no braço do declarante e disse que era para ele tomar cuidado com o que ia dizer, pois a corda arrebentaria para o lado mais fraco.” A declaração teria sido feita pelo arcebispo ao ex-seminarista durante uma visita do cardeal Dom Cláudio Hummes a Belém para o Círio de Nazaré, que estava hospedado na casa episcopal e conversava bastante com o então estudante por aqueles dias. Ele diz que após a ameaça, não contou nada ao cardeal.

“Os constantes encontros com o arcebispo criaram uma situação desconfortável no seminário, não com os outros estudantes, mas com o reitor, que constantemente jogava piadinhas ao declarante afirmando que era o ‘queridinho’ do arcebispo”, afirma outro dos quatro denunciantes que chamaremos de B, no depoimento. Nos outros dois depoimentos, os ex-seminaristas também afirmam que várias pessoas dentro do seminário e da Igreja Católica em Belém souberam dos abusos em momentos diferentes ao longo dos anos.

Arcebispo julga casos de abuso por outros padres

No início do ano passado, Corrêa criou uma comissão subordinada a ele mesmo para investigar denúncias de crimes sexuais contra integrantes da Igreja Católica na área da arquidiocese. Cerca de um ano antes, em 2019, o Papa Francisco publicou a Carta Apostólica Vos Estis Lux Mundi (Vós sois a luz do mundo). O documento é uma diretriz que estabelece uma espécie de lei dentro do direito canônico com mecanismos para que denúncias ou suspeitas de abuso sexual cometidas por membros da Igreja Católica sejam investigadas e compartilhadas com autoridades civis.

No caso da própria autoridade dentro da Igreja responsável por apurar os casos ser denunciada, como de fato aconteceu em Belém, a ordem papal prevê um caminho alternativo, seguido pelos quatro ex-seminaristas no início do segundo semestre de 2019. O bispo mais antigo da jurisdição eclesiástica deve receber a denúncia e encaminhá-la dentro da Igreja. A missão apostólica ouviu todos os envolvidos a mando do Vaticano, mas ainda não tornou públicas as conclusões da investigação feita pela igreja. Após o caso vir à tona, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) afirmou em nota publicada pela CNN que espera que os fatos sejam esclarecidos.

A advogada Luanna Tomaz, que acompanha o caso como representante dos quatro ex-seminaristas, pede o afastamento do arcebispo do cargo enquanto a investigação está em curso e afirma que os denunciantes tem sido vítimas de ataques e ameaças nas redes sociais e durante pregações de padres em missas na cidade, mesmo com a identidade deles mantida sob sigilo na investigação e e nas reportagens veiculadas sobre o caso na imprensa. “Faço coro às denúncias e pedidos pelo afastamento dele durante às investigações, pois ele, enquanto líder religioso, possui um alcance desproporcional, muito maior que o das vítimas”, diz ela em entrevista ao jornal paraense O Liberal.

“Eles deixaram de ir porque os padres comentam o caso nas missas, saem em defesa do arcebispo. Eles são jovens de muita fé. Isso faz parte também da nossa preocupação pois uma figura investigada não deveria influenciar as investigações e nem constranger a igreja”, avalia a advogada.



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