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A febre do ouro na Venezuela miserável encontra o drama da malária

Nas zonas mineiras de Bolívar, no sul, moradores sofrem as consequências de uma doença que se considerava já controlada. Foram de 320.000 casos em 2019

Rosa Sabina Briceno, de 22 anos, junto a seu bebê no ambulatório de Santo Domingo, após dar a luz em um táxi.
Rosa Sabina Briceno, de 22 anos, junto a seu bebê no ambulatório de Santo Domingo, após dar a luz em um táxi.Adriana Loureiro Fernández
Bolívar (Venezuela) - 17 ene 2020 - 23:02 UTC

Quando se pensa em uma nação que está passando por uma grande crise política e econômica, a primeira coisa que vem à mente provavelmente não é ouro. Mas, em Bolívar, o maior estado da Venezuela, a mineração ilegal vem se desenvolvendo há anos e o metal amarelo tornou-se uma motivação para muitos venezuelanos seguirem para o sul do país, como uma última chance de ganhar a vida antes de voltar para casa ou fugir para o Brasil. Luis Henrique Ripa, por exemplo, vem diretamente da capital venezuelana, Caracas. Ele deixou sua família para trás para trabalhar como mineiro em Las Claritas, uma pequena cidade localizada no município de Sifontes, no estado de Bolívar. "É a segunda vez que venho aqui", diz ele quando alguém pergunta se já havia visitado a região. "Para ser sincero, não gosto muito, mas a oportunidade é muito tentadora. No primeiro dia em que cheguei, encontrei ouro. Algumas pessoas procuram durante meses até achar algo. Mas levou apenas um dia e eu interpretei isso como um sinal. Estar aqui é uma aventura, e o que você ganha vale a pena."

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O fato de Luis agora estar de cama, com um grande gesso cobrindo a maior parte da perna direita, parece não ter mudado seu sentimento sobre a viagem. O homem continua sorrindo e tenta esquecer sua dor. No início da semana, ele quebrou a perna após sofrer uma queda livre de 11 metros dentro de uma mina de ouro. Luis pergunta a um médico local quando uma ambulância virá buscá-lo. Seus ferimentos são muito graves para serem tratados no ambulatório local onde ele está agora; terá que ser transferido para um hospital para receber tratamento adequado. Deitado na cama ao lado dele está outro jovem, chamado Yordan Pentoja. Yordan não caiu, mas ficou doente. O paciente de 27 anos de idade também está sendo tratado no ambulatório para um tipo grave de malária. Ele diz que foi diagnosticado com a doença uma dúzia de vezes desde que começou a trabalhar na mina, há mais de um ano e meio.

“A malária é como uma praga aqui. Tenho tantos amigos e colegas que já pegaram a doença que parei de contar”, observa. Ele fecha os olhos e acrescenta: “Vim ao ambulatório hoje de manhã porque comecei a me sentir muito mal. Minha cabeça e estômago doem como o inferno." Cinquenta anos atrás, a Venezuela foi apontada como um dos principais países da América do Sul na batalha contra a malária. E, embora a doença não tenha sido completamente erradicada, foram feitos esforços para reduzir drasticamente o número de casos no país. Mas, nos últimos anos, a malária reapareceu na Venezuela. De fato, em 2019, o país foi classificado como o mais afetado da América Latina, com mais de 320 mil casos diagnosticados. “Veja, este lugar é onde tudo começou. Ou onde tudo terminou, tudo depende de como você olha para isso”, explica Yorvis Ascanio, um inspetor de saúde pública que trabalha para o programa nacional de malária em Bolívar. Lá, no município de Sifontes, a malária agora é endêmica. “Quando a crise econômica atingiu a Venezuela, também afetou muito as pessoas em Sifontes. No princípio, começamos a ter cada vez menos medicamentos em nosso estoque. Logo tivemos que escolher a quem dar o pouco que tínhamos e focar apenas em casos graves. E foi a mesma situação em outros ambulatórios e pontos de diagnóstico. Trabalho nesta região há 12 anos. Eu vi os altos e baixos deste lugar. Mas esse período foi extremamente difícil para nós".

"Se estar doente é a maneira de continuar vivo, então vale a pena"

Yordan Pentoja

Meu nome é Yordan Pentoja. Tenho 27 anos. Trabalho na mina há alguns anos. Hoje eu vim para a clínica porque a malária me atingiu novamente. Desta vez, com muita força. O ponto de diagnóstico mais próximo fica a quatro horas de distância, então não pude fazer o teste e vim diretamente para cá. Eu sabia que estava com malária desde o momento em que comecei a me sentir mal.

Venho a esta clínica pela primeira vez para receber tratamento. Hoje cedo, minha cabeça e estômago doíam muito e o calor estava realmente me matando, tanto que eu desmaiei. Quando acordei, meus amigos decidiram me trazer. Levei cerca de três horas em duas motos diferentes para chegar aqui. Os médicos me atenderam bem e o tratamento é gratuito, o que ajuda, porque eu não posso pagar. É a oitava ou nona vez que sofro de malária desde o início do ano, faz três meses desde a última vez que tive a doença.

Na primeira vez, a doença foi "escondida" no meu corpo. Fui fazer o diagnóstico cinco vezes, mas nada apareceu. As pessoas ficavam me dizendo que eu não tinha. Eu me senti tão mal que resolvi ir a um laboratório particular para descobrir o que era. Os médicos me disseram que provavelmente era dengue. Eles me disseram que eu deveria beber leite condensado e comer sardinha, entre outras coisas, para curar a doença. Quando fiz o que me disseram, minha situação piorou. Então decidi ir com meu irmão, pela última vez, fazer o teste de malária e foi aí que deu positivo. Até então, já havia sofrido cerca de duas semanas e perdido cerca de 10 quilos. Estava muito fraco, foi a minha pior experiência com a doença, embora desta vez também seja ruim.

Acho que já tive malária muitas vezes porque é como uma praga nesta região do país. Muitos dos meus colegas da mina já tiveram, tantos que parei de contar. Todos os dias pegamos nossas pás e vamos trabalhar. Nossa vida é apenas trabalho e quando não trabalhamos, dormimos. Meus colegas e eu moramos dentro da mina, dormimos em redes porque viemos de todo o país e não temos casa aqui.

Quando comecei a trabalhar lá, comprei um mosquiteiro para me proteger. Ouvi dizer que era um risco nessa área. Mas, a menos que você durma cedo, se você fica do lado de fora jogando cartas com outras pessoas, os mosquitos te picam. E, eventualmente, você fica doente. Apesar disso, se Deus permitir, continuarei trabalhando aqui. A vida na mina é difícil, mas não me arrependo, porque é a única maneira de sobreviver. Preciso sobreviver e, além disso, nunca poderia deixar meu país. Se estar doente é a maneira de continuar vivo, então vale a pena.

Não sei quanto tempo vou ficar dentro da mina. Você sempre sabe quando chega, mas nunca quando sai. Não vejo minha família há mais de um ano porque eles estão longe, mas também faço o que faço por eles. Dentro da mina, acho que todos estamos procurando uma vida melhor, para nós mesmos e para nossas famílias. E geralmente não se sai sem conseguir ouro suficiente para abrir seu próprio negócio e retornar ao que de alguma forma é uma vida normal. Mas assim que o dinheiro acaba, você não tem escolha a não ser voltar. E contrair malária mais uma vez.

Em 2016, Médicos Sem Fronteiras (MSF) começou a intervir em Bolívar em apoio ao Programa Nacional de Malária, em colaboração com o Ministério da Saúde. Desde então, a organização apoia vários pontos de diagnóstico em Bolívar e ajuda no fornecimento de tratamento adequado para pacientes com malária. Por um ano, MSF também trabalhou com o Instituto de Malária em Carúpano, no estado de Sucre, ampliando sua capacidade de combater a doença no país. "Em Bolívar, também ajudamos no que chamamos de controle vetorial: fumigamos casas e distribuímos mosquiteiros à população, para reduzir o risco de infecção", explica Josué Nonato, promotor de saúde de MSF. "Meu trabalho é explicar às pessoas como identificar os sintomas da malária e o que fazer quando começarem a ficar doentes, para garantir que possam ser tratadas antes que a doença se torne grave demais". Em 2019, MSF sensibilizou mais de 55 mil pessoas por meio de sessões de promoção de saúde na área.

A organização também tratou mais de 85 mil pessoas contra a malária, distribuiu mais de 65 mil mosquiteiros, pulverizou 530 casas e ajudou a realizar mais de 250 mil testes de diagnóstico da malária. Desde então, o número de casos diminuiu aproximadamente 40% no município de Sifontes. Para alcançar esses objetivos, a estratégia de MSF tem sido chegar o mais próximo possível das pessoas que podem ser afetadas pela malária. É por isso que a maioria dos pontos de diagnóstico e tratamento que a organização monitora em associação com o Programa Nacional de Malária está localizada diretamente nas minas. "Às vezes, tínhamos mais de 200 pessoas na fila em frente aos pontos de diagnóstico e muitos infectados com malária tiveram que ir ao ambulatório porque não havia tratamento disponível".

"Agora a situação é um pouco mais estável", diz Monserrat Barrios, bioanalista do MSF encarregada de treinar novos técnicos em microscópios nos pontos de diagnóstico. Neste ano, o MSF também começou a apoiar um ambulatório local em Las Claritas, chamado Santo Domingo. Inicialmente construído para uma população de 20 mil pessoas, agora precisa atender às necessidades de mais de 75 mil pessoas que vieram morar na área nos últimos anos. Lá, o MSF tem apoiado a prevenção, o diagnóstico e o tratamento da malária, mas também está ampliando seu apoio para atender a outras necessidades.

Fanny A. Castro, coordenadora de atividades médicas do MSF, explica: “Sabemos que outros departamentos também precisavam de ajuda para lidar com o número de pacientes, incluindo pessoas com doenças crônicas ou caso precisassem de encaminhamento para outros hospitais. Agora estamos concentrando mais esforços em cuidados de saúde sexual e reprodutiva, com serviços como planejamento familiar e partos. Em geral, queremos fazer a diferença aqui e aumentar as chances da população de acessar serviços de saúde. Também instalamos um sistema de gestão de resíduos e pontos de água limpa em torno do ambulatório, o que melhora muito a qualidade dos cuidados prestados."

"Todo mundo teve malária por aqui"

Sulay Lozano

Meu nome é Sulay Lozano e tenho 22 anos. Minha família é originária de Bolívar, mas a cidade se tornou muito cara nos últimos anos e meus pais não conseguiam mais encontrar trabalho lá. Então, deixamos nossa casa para morar um tempo dentro da mina. Quando minha mãe engravidou, nos mudamos para Las Claritas, uma cidade nos arredores da mina.

Em geral, eu gosto de morar aqui. Nos sentimos seguros e estamos em uma situação melhor do que em Bolívar. Lá, não tínhamos dinheiro, mas aqui sempre podemos encontrar ouro, mesmo em pequenas quantidades. Provavelmente ficaremos aqui por um tempo.

Todos os dias, meu padrasto, meus primos e irmãos vão procurar ouro para nos ajudar a sobreviver. Eu fico em casa com minha mãe. Me levanto às 6 da manhã, preparo o café e espero que o resto do dia passe. Todos nós vivemos em um cômodo compartilhado feito de placas de plástico por enquanto, mas vamos construir algo com madeira, quando tivermos ouro suficiente para isso.

Aqui nós pagamos tudo em ouro. Por exemplo, o mosquiteiro que uso quando durmo na minha rede me custou 0,8 grama de ouro. Foi muito caro, mas comprei porque a malária é uma praga nesta área. Assim que você sai do seu mosquiteiro, um mosquito te pica. Todo mundo já teve malária por aqui. No entanto, não fico muito preocupada, mesmo quando um de nós fica doente. Eu tive malária 40 vezes e meu irmão mais novo cerca de 10 vezes. Minha mãe, minha filha e meu sobrinho também tiveram a doença em muitas ocasiões. Isso é normal para nós. Tentamos apenas evitar quando podemos e tratar quando dá.

Agora eu sei como identificar os sintomas da malária e, em geral, peço um diagnóstico assim que começo a me sentir um pouco mal. Quando ainda morávamos na mina, eu tinha que pagar pelo tratamento para a malária, não havia como obtê-lo gratuitamente. Um ciclo completo de tratamento me custou cerca de 1,5 gramas de ouro na época. Era caro, mas teria me custado ainda mais chegar ao ambulatório na cidade onde é fornecido gratuitamente. Conheço pessoas que morreram de malária, então sei o quão importante é o tratamento.

Hoje fui ao ambulatório de Santo Domingo para receber tratamento gratuito para meu irmão mais novo, Edgar. Ontem ele recebeu um diagnóstico positivo de malária e se sentiu fraco demais para vir comigo. Toda vez que vou à clínica, tento obter uma consulta. O fato de agora morarmos perto do ambulatório e de não termos de pagar pelo tratamento é útil, porque não podíamos pagar.

Todos os dias, tento ajudar minha família o máximo que posso com os poucos meios que tenho. Minha mãe está prestes a dar à luz, então ela precisa que eu esteja lá para ela e para minha família. Outra razão pela qual saímos das minas foi para facilitar o parto. De Las Claritas, teremos de pegar um táxi por apenas uma ou duas horas para chegar a um dos hospitais estaduais. Tudo deve ficar bem. Eu só espero que eles tenham os suprimentos para cuidar dela. Nem sempre é o caso.

Quando penso em seu futuro bebê, também penso em minha própria filha. Ela tem três anos. Espero que ela possa estudar um dia. Espero poder voltar para a escola também. Parei de frequentar na quinta série, quando engravidei. Mas os estudos são importantes se você quiser trabalhar. E terei que trabalhar se quiser pagar por minha própria casa. Esse é o meu único sonho.

No entanto, as necessidades vão muito além de Las Claritas e do município de Sifontes. A crise econômica da Venezuela impactou profundamente o sistema de saúde em geral e é sentida em quase todo o país. MSF tenta responder às necessidades mais latentes de diferentes estados da Venezuela. A organização está presente no país desde 2015 e, além de Bolívar, suas equipes trabalham atualmente na capital, Caracas, e nos Estados de Sucre, Amazonas, Anzoátegui e Delta Amacuro. Além disso, prestam assistência médica e psicológica aos refugiados e solicitantes de asilo venezuelanos que cruzaram a frontera com o Brasil e a Colômbia.

Jean Hereu é coordenador-geral de Médicos Sem Fronteiras na Venezuela.

A seção Em Primeira Linha é um espaço no Planeta Futuro para que membros de ONGs ou instituições que trabalham no terreno narram suas experiências pessoais e profissionais com relação ao impacto de sua atividade. Sempre são escritos em primeira pessoa e a responsabilidade do conteúdo é dos autores.

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