Tensão volta a Hong Kong com confronto em grande marcha de Ano Novo

Mais de um milhão de pessoas participaram da manifestação, segundo os organizadores

Policiais prendem um manifestante nesta quarta-feira em Hong Kong.
Policiais prendem um manifestante nesta quarta-feira em Hong Kong.Anthony Kwan / Getty Images

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O ano de 2020 começou em Hong Kong da mesma forma que 2019 terminou: com mais um episódio dos protestos antigovernamentais que há quase oito meses mantêm o território mergulhado em uma profunda crise social. A marcha desta quarta-feira, que fazia o trajeto entre a área comercial de Causeway Bay e Charter Road, no centro, foi desautorizada pelas forças de segurança três horas depois de ter começado e acabou em confrontos entre policiais e manifestantes radicais.

Mais de um milhão de pessoas — segundo os organizadores — se concentraram no início da tarde no Parque Vitória, ponto de partida das maiores mobilizações da história de Hong Kong. Ao longo do caminho, os participantes reiteraram suas cinco exigências, já transformadas em credo popular: a retirada da lei de extradição (a única concessão obtida do Executivo local até agora), a abertura de uma investigação independente sobre a atuação da polícia, a retirada do termo “distúrbios” em referência aos protestos — uma acusação que pode dar dez anos de prisão —, anistia para os quase 6.000 detidos, e adoção do sufrágio universal, como prevê a Lei Básica que rege o território.

Embora a organizadora, a Frente Civil de Direitos Humanos, tenha obtido autorização das autoridades para a marcha, as forças de segurança ordenaram o fim da manifestação três horas depois que ela havia começado, alegando que um grupo de manifestantes radicais tinha atacado vários estabelecimentos comerciais durante o percurso. Quando um grupo de mascarados atacou uma agência bancária, a polícia recorreu a gases lacrimogêneos e jatos d’água e foi alvo de tijolos e coquetéis molotov. Apesar de condenarem a decisão oficial, os líderes da Frente a acataram e pediram que os manifestantes se retirassem. A maioria abandonou a área, mas alguns ficaram e formaram uma corrente humana na linha de frente. Os confrontos, durante os quais dezenas de pessoas foram detidas, continuaram noite adentro.

Apesar das imagens de violência, o Executivo local afirmou, em um comunicado, que a marcha transcorreu “de maneira tranquila e ordenada”, e que a Região Administrativa Especial “respeita os direitos e liberdades dos cidadãos para participar de manifestações pacíficas”. “O Governo não medirá esforços para enfrentar os problemas decorrentes dessa questão. No entanto, a prioridade agora é acabar com a violência e restaurar a ordem social o mais rápido possível. [...] O Governo continuará ouvindo com humildade a sociedade e fortalecendo a comunicação com os cidadãos”, acrescentou.

Por sua vez, o ativista Jimmy Sham, um dos líderes da Frente Civil de Direitos Humanos e recém-eleito vereador nas eleições municipais de novembro, confessou estar “triste” por não ter conseguido que as autoridades atendessem as demandas populares em 2019, e proclamou que a luta “continuará” este ano.

A origem do conflito remonta a junho, quando a população de Hong Kong se levantou contra uma proposta de lei de extradição que vincularia o regime jurídico local ao do continente, uma medida que amplos setores da sociedade consideraram uma redução significativa dos direitos e liberdades de que goza a ex-colônia britânica, reconhecidos pelo princípio de “um país, dois sistemas”. Ao longo dos meses, os manifestantes passaram a exigir uma melhoria nos mecanismos democráticos de Hong Kong.

As recorrentes mobilizações também afetaram a economia do território, que no terceiro trimestre entrou em recessão pela primeira vez em 10 anos. O PIB caiu 2,9%, em consequência de uma redução significativa do turismo, das exportações e das vendas no varejo, e se prevê que a situação piore este ano. Em Hong Kong, o novo ano traz, por enquanto, velhos problemas.

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