Eleições Brasil 2020

João Campos derrota Marília Arraes na batalha dos primos do Recife e garante voz ao PSB para 2022

Na capital de Pernambuco a disputa era entre dois partidos da esquerda, deve ter reflexos no arco de alianças

João Campos, candidato pelo PSB à Prefeitura do Recife.
João Campos, candidato pelo PSB à Prefeitura do Recife.Rodolfo Loepert/Divulgação

Recife elegeu neste domingo João Campos (PSB) como prefeito. O candidato obteve 56,27% dos votos válidos contra 43,73% de sua prima Marília Arraes (PT), num dos desfechos mais esperados do segundo turno. Com a vitória, a capital do Pernambuco dá continuidade a uma dinastia dos socialistas, depois de duas gestões consecutivas de Geraldo Júlio. A legenda também governa o Estado há 14 anos. Foram dois mandatos de Eduardo Campos, o finado pai de João que morreu em um acidente aéreo em 2014, e o atual governador Paulo Câmara chega à segunda metade de seu segundo mandato. A simbólica vitória de Campos assegura o bastião puro do PSB no estratégico Estado do Nordeste, com posição reivindicar uma voz nas negociações da centro-esquerda em 2022.

“Foi a vitória das máquinas estadual e municipal que investiram de maneira expressiva na candidatura de João Campos”, disse a cientista política Priscila Lapa. Ela destacou que, na reta final da campanha, houve uma intensa participação de servidores comissionados na campanha de João Campos o que ajudou no sentimento de virada de votos, que foi confirmada neste domingo.

Com a derrota de Marília, o PT enterra suas pretensões de crescimento em cidades relevantes e reduz o seu poder de liderança entre legendas consideradas progressistas. Os petistas chegaram ao segundo turno em apenas duas capitais, Recife e Vitória (ES), nesta com João Coser. Perdeu nas duas. Nas 57 cidades em que houve segundo turno, os petistas disputaram em 15 e venceram em quatro: Contagem (MG), Juiz de Fora (MG), Diadema (SP) e Mauá (SP).

O prefeito eleito iniciou sua carreira política pelas mãos de seu pai, como líder da juventude socialista aos 19 anos de idade. Até aquele ano, os primos Marília e João eram aliados e correligionários. O rompimento ocorreu quando ela, então vereadora, foi apeada da direção da juventude do PSB em detrimento dele. A eleição recifense foi uma disputa entre duas legendas de esquerda que deve surtir reflexos no tabuleiro eleitoral de 2022 tanto no Estado quanto no país. É uma das poucas cidades de relevância em que os socialistas conseguiram resultado expressivo. Foi o município onde a legenda mais investiu seus recursos, cerca de 8,9 milhões de reais, segundo divulgação parcial do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Apoie nosso jornalismo. Assine o EL PAÍS clicando aqui

A disputa recifense foi acirrada. No início do primeiro turno, todos os indicadores apontavam que João lideraria com folga a campanha. Ele tinha um amplo leque de partidos o apoiando, 12, além de ser o nome escolhido com sucessor pelo atual prefeito, Geraldo Júlio, e pelo governador, Paulo Câmara, ambos do PSB. Não foi o que ocorreu. Na reta final da primeira etapa, Marília parou de esconder o vermelho do PT, trouxe a imagem do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para a propaganda eleitoral, elevou o tom das críticas contra seu primo e cresceu nas projeções. No dia 15, ao fim da primeira apuração, a votação acabou assim: João recebeu 29,17% (ou 233.028) dos votos e Marília, 27,95% (223.248).

Mais do que disputar os votos dos outros oito competidores derrotados, os primos tentaram reverter o alto índice de abstenção, que no primeiro turno chegou 19,89%, ou 230.157 eleitores. Quase o dobro do que a eleição de 2016. Entre cientistas políticos, há uma espécie de consenso de que o maior prejudicado com esses eleitores faltantes era João Campos. Apesar de ser jovem, seus eleitores são, em sua maioria, mais velhos e que o escolheram principalmente por acreditar que ele poderia exercer o poder como seu pai, Eduardo, exerceu. Nessa segunda etapa, João insistiu na busca pelos ausentes e no discurso antipetismo. Deu resultado.

As duas últimas semanas de campanha foram marcadas por ataques recíprocos. Na campanha, a imagem de Eduardo foi extremamente explorada por João. Dizia ainda que sua prima era arrogante e pouco produzia enquanto legisladora. Enquanto Marília dizia que seu primo era frouxo, imaturo, inexperiente e poderia ser manipulado pela mãe, Renata Campos. Os dois são jovens. Ele tem 27 anos e ela, 36. Nunca exerceram cargos eletivos no Executivo. João está em seu primeiro mandato como deputado federal. Foi eleito em 2018 com 460.387 votos.

Com o resultado deste domingo, começam as negociações para a formação de uma base sólida na Câmara Municipal. Das 39 vagas de vereadores, 24 ficaram com siglas que estão na coligação de João e apenas cinco na de Marília.