Ex-funcionárias acusam líder da maçonaria em São Paulo de assédio: “Falava que imaginava eu sem roupa”

Mulheres dizem que não denunciaram João José Xavier antes pois temiam demissão e movem ação na Justiça Trabalhista e Civil. Procurados, grão-mestre e loja maçônica ainda não se pronunciaram

Sede da Grande Loja Maçônica do Estado de São Paulo.
Sede da Grande Loja Maçônica do Estado de São Paulo.Reprodução
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O líder da Grande Loja Maçônica do Estado de São Paulo, João José Xavier, é acusado de assédio e importunação sexual por duas ex-funcionárias da instituição. O grão-mestre é alvo de três processos movidos pelas duas ex-funcionárias, dois na Justiça do Trabalho e um na Justiça Civil do Estado de São Paulo. Procurado pelo EL PAÍS na sede da maçonaria, Xavier não retornou aos telefonemas até a publicação desta reportagem. De acordo o responsável pela comunicação da instituição, o grão-mestre ainda não recebeu a citação formal nas ações e a área jurídica da Grande Loja orientou o silêncio, por enquanto. Assédio sexual é crime e, em caso de condenação, pode levar a até dois anos de prisão.

De acordo com depoimento de uma mulheres no processo civil por danos morais, iniciado nessa semana, o João José Xavier ia até a mesa dela e a chamava ao seu escritório constantemente para passar a mão em seu corpo e fazer insinuações de cunho sexual. Ela trabalhou como auxiliar administrativa na Grande Loja de 2001 a junho deste ano. A importunação teria começado em 2016, antes de Xavier ascender ao posto máximo da instituição. Ele foi eleito grão-mestre no ano passado.

“Ele pegava nas minhas costas, ele ficava massageando os meus ombros, geralmente ficava me abraçando pegando assim nos meus seios”, afirma. Segundo a mulher, o grão-mestre dizia a ela coisas do tipo “e agora loirinha, e eu te agarrasse agora, o que você ia fazer?”, e “nossa, como você está gostosa hoje hein, vem aqui!.”

A ex-funcionária diz ainda que era obrigada a fazer faxina e servir café no escritório do chefe, trabalhos que não estavam de acordo com sua função na loja maçônica. No testemunho anexado à ação, diz que queixou-se da situação a colegas e chefes, que tentavam oferecer consolo e conselhos, mas nada de concreto foi feito para interromper os assédios.

No processo três testemunhas confirmam o assédio, que diversas vezes teria sido praticado na frente de outros colegas. As testemunhas afirmam ainda que viram a colega chorar diversas vezes após os ataques.

A segunda ex-funcionária que o denunciou trabalhou na loja maçônica de 2017 a 2020 como auxiliar de limpeza. “Tocava nos meus peitos, na minha bunda, falava que imaginava eu sem roupa, me sentia muito mal por isso”, afirma na ação cível da ex-colega. Ela diz que sentia-se impotente e com muita raiva da situação que vivia.

Ambas são casadas e dizem que toleraram a situação por algum tempo pois precisavam do emprego, sentiam-se constrangidas com os assédios e nunca incentivaram o comportamento do chefe. A auxiliar administrativa afirma que foi mandada embora após recusar um convite do chefe para ficar sozinho com ela no escritório em meio ao revezamento adotado no local devido à pandemia de covid-19, doença causada pelo novo coronavírus. A auxiliar de limpeza acredita que foi demitida pois a história vazou e o ex-chefe tentou evitar um escândalo.

O advogado Cícero Barbosa dos Santos, que representa as duas ex-funcionárias da maçonaria em conjunto com outros dois colegas, afirma que o caso foi levado ao MP-SP (Ministério Público de São Paulo) nesta semana e espera que seja investigado criminalmente por lá. Ele diz que elas nunca registraram um boletim de ocorrência na delegacia e optaram por procurar o MP diretamente. Segundo o advogado, uma das mulheres apresentou um processo na Justiça civil e outro na trabalhista, no total de 239.000 reais. A segunda cliente cobra 88.000 reais na Justiça do trabalho.

Maçonaria

A Grande Loja Maçônica do Estado de São Paulo possui 23.000 integrantes espalhados em 800 lojas, como são chamadas as células locais da maçonaria. A maçonaria é uma associação de organizações privadas da sociedade civil que existe há muitos séculos em todo o mundo. As lojas maçônicas são geralmente organizadas em núcleos municipais que formam uma ou mais associações regionais, estaduais ou nacionais. Não existe uma loja internacional que coordene toda a maçonaria.

No Brasil, há relatos históricos da presença de lojas maçônicas em Pernambuco já no século XVIII. Segundo as definições mais comuns, a maçonaria dedica-se a fazer filantropia e ações de auxílio educacional, pessoal e profissional mútuo a seus integrantes.

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