Pandemia de coronavírus | O Brasil de luto
Coluna
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Contei mais de 100.000 mortos com Augusto dos Anjos

Em diálogo com os versos do poeta punk-gótico da Paraíba, relembro como a “gripezinha” de Bolsonaro lascou o Brasil

O presidente Jair Bolsonaro remove sua máscara para conversar com apoiadores
O presidente Jair Bolsonaro remove sua máscara para conversar com apoiadoresAdriano Machado (Reuters)

Caríssimo Augusto dos Anjos, com a aritmética hedionda dos coveiros, fomos ouvindo os números diários. Gripezinha, diagnosticou o presidente desta República Federativa; estatísticas forjadas, invenção de comunista, gemeu o rebanho do WhatsApp; e até os enterros nas valas comuns dos cemitérios amazônicos eram vistos como notícias falsas pelos negacionistas.

100.000 vítimas, debite-se na conta do coronavírus e acrescente a chacota oficial de um governo sem ministro da Saúde. Ah, estimado poeta punk das sombras, preciso amplificar teus versos para maldizer tais autoridades: bando de filhos do carbono e do amoníaco, monstros de escuridão e rutilância.

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Pamonhas, pamonhas, pamonhas; fake news, fake news, fake news
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Melô da quarentena: Plunct Plact Zum, não vai a lugar nenhum

Somente os vermes ― estes operários das ruínas ― seriam capazes de responder, no momento, à falta de empatia de tais autoridades de Brasília. Consciências de morcego, definirias em teus agouros ainda sob o tamarindo do Engenho Pau D´Arco, Paraíba. Presidente da febre do rato, do istampô calango, da bubônica, da moléstia dos cachorros.

De profundíssimamente hipocondríaco, passei a radicalmente indignado.

Os frios números ganharam rostos e histórias. Primeiro morreu o Zito, batismo de craque do Santos, um conhecido cearense do Parque São Rafael (SP), a minha primeira chegada nesta cidade ― da laje da casa da tia Nina e do tio Alberto, rua Martins Lumbria, antiga rua 28, lá eu botava dentro dos meus olhos as chamas de um terminal da Petrobras ao longe e uma saudade da gota serena que não cabia no álbum duplo “Physical Graffiti” do Led Zeppelin. Ave sangria, ave Maria, amém.

Depois morreria mais um conterrâneo de Sapopemba (SP), Naldo, outro amigo também da Zona Leste paulistana. No que veio o assombro, vixe, lascou geral a lira. Em tempos normais acenderíamos as fogueiras juninas e cantaríamos “olha pro céu, meu amor/ olha como ele está lindo”. Esquece o fogaréu deste ano.

Haja cerimônias sem adeus, com choro distante, velas queimando fora de hora.

Restaria chorar sozinho pelo Sérgio Sant´Anna (poxa, perder seu escritor predileto em plena forma na porrada política e na arte do conto, que sacanagem!), dias depois um morador do bloco B do condomínio, um parente distante, um primo chegado, um galho da pesada árvore genealógica em plena safra das mangas, a vó da minha mulher, a bisa da Irene (minha filha), a dona Sara que fez a ponte entre a Polônia e o Crato... Viva a Cratóvia!

E tantos lutos com retratos nas minibiografias do Santinho e dos Inumeráveis.

Quando morreu o Aldir Blanc, deveras me arrombei, que número ele seria nessas 100.000 mortes? Juro que jogaria na milhar do bicho, Aldir Blanc dá sorte. Jogaria porra nenhuma, quando ele se foi eu não acertaria o caminho da banca, nem mesmo daquela esquina da Bolívar com a Nossa Senhora de Copacabana ― lá, juro pelo Castor de Andrade, eu ganhei uma fortuna no cachorro na dezena 17, o resto da milhar não revelo, ora bolas.

Ninguém sabe o número de nenhum morrente nessa conta, que vergonha que isso não dê em impeachment ― afinal da soma o governo facilitou para que a desgraça chegasse na soma ―, que genocídio, só me resta cantar de novo aquela desconhecida que eu mais amo, do Aldir, óbvio, “Vida noturna”, sabe? Era assim que eu saía cantando e chutando tampinhas na cidade do Rio de Janeiro. Desculpa aí pelo gerúndio, caro João Antônio, sei que você não trabalha com esse tempo verbal a essa altura da sinuca brasileira.

“Acendo um cigarro molhado de chuva até os ossosE alguém me pede fogo ― é um dos nossosEu sigo na chuva de mão no bolso e sorrioEu estou de bem comigo e isto é difícil”.

Vida e morte nordestina, velho Augusto, no que te convido a uma visita à cidade do Crato, no meu Cariri de nascença, onde a enchente de março arrastou caixões e cadáveres do cemitério Nossa Senhora da Piedade ― parecia um aviso para o que viria logo depois, premonição que desembesta na ladainha futurista. Repare. Nunca se viu tanto defunto desde os tempos do cólera. Pelo menos 70 caixões enviados pela covid-19 até esta data. No mesmo campo santo, requiescat in pace, vi chegar muitos corpos, vestidos apenas em redes, a madeira funerária ainda era luxo durante brabas estiagens, era como se os corpos já nascessem vestidos de terra.

Xico Sá, escritor e jornalista, é autor de “Big Jato” (editora Companhia das Letras), entre outros livros.

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