Apoio a Bolsonaro ganha sobrevida, enquanto imagem de Moro e Guedes se desgasta

Pesquisa do Atlas Político aponta para reação do presidente durante crise política e sanitária. Fora do Governo, popularidade de ex-ministro da Justiça continua em queda

O presidente Jair Bolsonaro, colocando uma máscara de proteção durante um evento no Palácio do Planalto, em 18 de março. Aprovação do Governo se mantém estável.
O presidente Jair Bolsonaro, colocando uma máscara de proteção durante um evento no Palácio do Planalto, em 18 de março. Aprovação do Governo se mantém estável.SERGIO LIMA (AFP)
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POLITICA INTERNACIONAL
Marcos Correa/Palacio Planalto/d / DPA
Reprovação ao Governo aumenta, mas conduta pessoal de Bolsonaro conserva apoio, aponta pesquisa
BRASILIA, BRAZIL - MARCH 30: Brazilian Justice Minister Sergio Moro looks on during an interview on March 31, 2020 in Brasilia, Brazil. Sergio Moro, said today April 23, 2020, that he will leave the government if the President Jair Bolsonaro goes through with his decision to change the Federal Police Chief Mauricio Valeixo. (Photo by Andre Coelho/Getty Images)
Sergio Moro: “A popularidade é irrelevante, com o tempo a verdade prevalece”

A imagem do presidente Jair Bolsonaro se mantém praticamente ilesa, apesar das turbulências que rondam sua gestão. É o que indica a mais recente pesquisa da consultoria Atlas Político, divulgada nesta quarta-feira, que reflete sobre um mês marcado pela prisão do motorista Fabrício Queiroz, suspeito de ser o operador do esquema de rachadinhas envolvendo o senador Flávio Bolsonaro no Rio de Janeiro; batidas da Polícia Federal contra bolsonaristas e a nomeação frustrada de Carlos Alberto Decotelli, que, exposto por fraudar currículo, durou apenas cinco dias no Ministério da Educação. O levantamento ainda aponta uma consolidação na queda de popularidade de Sergio Moro e Paulo Guedes, que entraram para o Governo com status de superministros e tomaram rumos diferentes diante do agravamento da crise política em meio à pandemia de coronavírus.

De acordo com a pesquisa online, que ouviu 2.000 pessoas entre 27 e 30 de junho, com amostra que reflete a população brasileira adulta, a aprovação ao desempenho do presidente se estabilizou em 32%, após queda de 5 pontos percentuais entre abril e maio, e oscilou de 65% para 64%. A rejeição a seu Governo, ainda desaprovado pela maioria, também baixou de 58% para 56%, contra 25% de aprovação. Para o cientista político Andrei Roman, criador do Atlas Político, a pesquisa indica que Bolsonaro pode ter conseguido conter a sangria de popularidade que o abateu a partir da demissão traumática do ex-ministro da Justiça e Segurança Pública, agravada pela condução errática no controle da pandemia. “A saída do Moro foi um evento muito mais cataclísmico para a imagem do presidente que a prisão do Queiroz ou o constrangimento com o Decotelli”, afirma Roman. “Uma vez que ele consiga superar esse abalo, outras crises podem desgastá-lo, mas não na mesma magnitude do Moro.”

Rejeição a Governo caiu entre maio e junho.
Rejeição a Governo caiu entre maio e junho.

O pesquisador pondera que o cenário político no Brasil, antes polarizado entre apoiadores de Bolsonaro e a esquerda, ganhou uma terceira força relevante com a ascensão da centro-direita, encorpada por dissidentes do bolsonarismo, o que provavelmente afeta não só a avaliação do presidente, mas também de personagens que o cercam ou despontam como possíveis concorrentes na eleição de 2022. É o caso de Moro, que, depois de sua popularidade subir (de 54% para 57%) ao desembarcar do Governo, agora experimenta seguidas quedas de aprovação, atingindo o menor patamar (37%) desde o início da série. De abril a junho, o percentual dos que o avaliam de forma negativa aumentou de 31% para 50%.

“Com o eleitorado dividido em três polos, é natural que a popularidade do Sergio Moro tenha caído de forma acelerada, sobretudo pela perda de apoio entre muitos bolsonaristas”, explica Roman. Outro afetado pela cisão entre Moro e Bolsonaro é o ministro da Economia, Paulo Guedes. Desde abril, quando, ao contrário de Moro, decidiu permanecer no Governo e alcançou sua taxa de reprovação mais baixa (38%) em um ano, o índice dos que o rejeitam subiu mais de 10 pontos percentuais, de 38% para 49%. “Guedes ficou no meio dessa rixa entre moristas e bolsonaristas. Ainda assim, ele se mantém como uma âncora de popularidade para o Governo, com aprovação maior que a do presidente”, diz o diretor-executivo do Atlas Político.

Entre os líderes políticos citados na pesquisa, Paulo Guedes (38%) e Moro (37%) só perdem em aprovação para Luiz Henrique Mandetta (50%). Todavia, o ex-ministro da Saúde também viu sua popularidade, que bateu recorde em abril (63%), cair nos últimos meses. Pela primeira vez, a pesquisa aferiu a imagem do vice-presidente Hamilton Mourão. Com menos rejeição que Bolsonaro (46% x 64%), ele aparece atrás somente de Mandetta, Guedes e Moro entre os líderes mais aprovados (33%), um ponto percentual acima do próprio presidente. O líder de esquerda mais popular continua sendo o ex-presidente Lula (28%), seguido por Fernando Haddad (24%) e Ciro Gomes (23%), candidatos derrotados por Bolsonaro na última eleição.

Mandetta ainda aparece com o maior índice de aprovação entre líderes políticos.
Mandetta ainda aparece com o maior índice de aprovação entre líderes políticos.

A pesquisa avaliou ainda a opinião dos brasileiros sobre a hipótese de instauração de uma ditadura militar no país. Segundo o Atlas Político, 87% da população é contra o retorno de um regime de exceção e 7% é a favor. Em novembro de 2019, o apoio à ditadura militar era de 14%, contra 75% dos que se opunham à ideia. O apoio ao impeachment de Bolsonaro também perdeu força, mas continua sendo defendido pela maioria dos entrevistados (de 58% para 55%). Com Moro distante dos holofotes e uma postura mais moderada diante de outros poderes, o presidente ganhou fôlego ao resistir à perda de seu ministro mais popular, como observa Andrei Roman. “Parece haver uma pacificação do eleitorado bolsonarista com a questão do Moro, cada vez mais distante. O que indica que será preciso um choque muito maior que sua saída para levar à erosão da imagem do presidente.”

Sobre a pandemia de coronavírus, 77% dos entrevistados temem contrair a doença e 70% se mostram mais preocupados com as pessoas que podem morrer pela covid-19 do que com o impacto econômico da crise, enquanto 73% dizem concordar com as medidas de isolamento social impostas por prefeitos e governadores. Entretanto, 48% respondem ter saído de casa no dia anterior ao questionário.

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