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Um erro que pode custar milhões: o trailer que revelou a reviravolta final do filme mais esperado deste Natal

Nesta quinta-feira chega às telas 'Uma Segunda Chance para Amar', comédia britânica tida como o novo 'Simplesmente Amor’. O único problema é que muita gente já conhece toda a trama por causa de uma campanha de divulgação muito reveladora

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Simplesmente Amor (2003) é esse tipo de milagre que raramente se dá no cinema e que toda grande produtora quer conseguir realizar: um filme que volta a ficar na moda todos os anos. Mais especificamente, todos os Natais. É o diamante que dura para sempre. Todo mês de dezembro volta a ser exibido. Todo mês de dezembro volta a dar dinheiro e ser motivo de conversas.

Quando viram o trailer, alguns espectadores descobriram que o título do filme, em alusão à famosa cantiga de Natal do Wham! revelava toda a trama

Que Uma Segunda Chance para Amar (Paul Feig, 2019) queira jogar nessa liga e tomar o lugar de Simplesmente Amor – ou, pelo menos, pegar uma fatia do mesmo bolo – é óbvio desde que anunciou seu elenco, enredo e ambientação. É uma história de amor entre uma jovem mulher com um ar de perdedora e um atraente e misterioso estranho em uma Londres magnificamente decorada com luzes de Natal, e com um humor inglês equilibrado o bastante para ser ao mesmo tempo exótico e não muito enigmático para o espectador estrangeiro. Uma fórmula que já funcionava para o cinema britânico antes de Simplesmente Amor: O Diário de Bridget Jones tinha arrasado em 2001 valendo-se desses ingredientes.

Bem, por enquanto o plano está funcionando pela metade com Uma Segunda Chance para Amar (cujo título original é Last Christmas). A crítica não vem sendo muito amável com o filme (embora também não tenha sido com Simplesmente Amor na época de seu lançamento, e mesmo assim o público o transformou em um clássico do Natal). A bilheteria (já estreou nos Estados Unidos, no Reino Unido e no Brasil; na Espanha chega nesta sexta-feira) não começou de modo espetacular (pelo menos, cobriu seu orçamento), mas ainda não foi lançado em muitos países.

O trailer em espanhol de 'Uma Segunda Chance para Amar', que acumula 2.750.000 reproduções. Tome cuidado com as consequências de pressionar o 'play': é fácil deduzir como o filme termina.

Outra coisa que aconteceu com Uma Segunda Chance para Amar é um constrangimento curioso que vai além dos resultados das bilheterias ou da crítica: desde a estreia de seu trailer, em agosto, centenas de comentários feitos na Internet, por exemplo, no próprio vídeo do trailer na versão original no YouTube (que acumula 12 milhões de visualizações), apontam que ele já antecipa a reviravolta final do filme.

Os trailers são uma arma infalível para vender um filme, mas com frequência se tornam uma dor de cabeça. Há exemplos históricos em que a trama era quase totalmente contada

Não, é ainda pior: quando veem o trailer, os espectadores descobrem que o título do filme, em alusão à famosa cantiga de Natal do Wham! (a banda de George Michael e Andrew Ridgeley), revela toda a trama. Não vamos aqui relembrar a letra da canção, para o caso de algum jovem espectador querer ficar sem saber de nada, mas poucas pessoas com mais de 30 anos ignoram o que George Michael cantava logo depois de "Last Christmas ...".

Não, você não lerá aqui detalhes sobre o enredo, mas é muito tentador propor ao leitor que, se quiser, verifique por si mesmo se ao assistir ao trailer é capaz de adivinhar não só a reviravolta final do filme, como também a natureza real da relação entre os dois personagens principais e qual fato do passado os uniu. Recomendamos não olhar os comentários sobre o trailer na versão original se não quiser saber detalhes da trama: há alguns em que os usuários do YouTube comemoram ter descoberto o que acontece e como o filme termina, e compartilham isso com o mundo.

O trailer original de 'Femme fatale', de Brian de Palma.

Isso não passaria de uma história engraçada se o diretor do filme, Paul Feig, não tivesse falado do assunto no site digital de entretenimento Digital Spy. “Eu não era a favor de incluir a parte médica [em referência a alguns flashbacks da protagonista em um hospital], porque imaginei que seria muito revelador. Mas quando testaram os trailers, descobriram que essa parte atraía o público. [...] É duro dizer isso, mas eu gostaria que não tivessem colocado isso. Vender um filme é tão complicado.” Em declaração ao site Vulture, Feig lamentou amargamente que as pessoas não parem de revelar o suposto final do filme na Internet: "É como se tivéssemos feito Matrix, ou algo assim! Ainda não entendo por que todo mundo decidiu que queria averiguar o final e estragá-lo. Por favor, parem! Vivam uma experiência pura! Divirtam-se!”

Os trailers são uma arma infalível para vender um filme, mas com frequência se tornam uma dor de cabeça. Há exemplos históricos em que a trama era quase totalmente contada. E em alguns casos isso não minimizou em nada seu impacto cultural ou nas bilheterias: alguns foram sucessos igualmente autênticos. Por exemplo, o de Superman 3 ("Este é o trailer? E hoje as pessoas se queixam de que os de agora revelam demais a história", diz um usuário do YouTube). Ou o de Náufrago, um filme com Tom Hanks abandonado em uma ilha após um acidente de avião, no qual o mostram voltando para casa. Ou o de Codinome Cassius 7, em que Richard Gere procura desesperadamente por um homem ... cuja identidade é revelada no minuto 2,03 do trailer. Ou o de Revelação, o suspense com Harrison Ford e Michelle Pfeiffer, um sucesso de bilheteria em que o trailer revela toda a trama, como também na frase promocional do pôster em espanhol ("Parecia o marido perfeito ...").

Aqui vem bem a calhar um dos trailers mais originais e refrescantes do século XXI: o de Femme Fatale (2002), uma joia esquecida de Brian de Palma, cujo anúncio mostrou quase todo o filme, desde os créditos iniciais aos finais, passados em câmera super-rápida. É uma paródia de todos os grandes trailers de Hollywood que arruinaram uma história. No final, um cartaz se dirige ao espectador com um aceno: "Você acabou de ver o novo filme de Brian de Palma. Não entendeu? Tente outra vez."