Vitória moral dos ‘coletes amarelos’

Um ano após explodir a mobilização na França, o impacto é permanente apesar de sua minguada capacidade de convocação e uma imagem ofuscada pela violência

Os 'coletes amarelos' bloqueiam o acesso a uma refinaria de petróleo de Frontignan (França), em 3 de dezembro de 2018.
Os 'coletes amarelos' bloqueiam o acesso a uma refinaria de petróleo de Frontignan (França), em 3 de dezembro de 2018.Kiran Ridley (Getty Images)
Mais informações

Um ano após a explosão da revolta, os coletes amarelos mal conseguem reunir poucos milhares de pessoas a cada final de semana e suas lideranças visíveis caíram em descrédito com declarações conspiracionistas e extemporâneas. Suas candidaturas fracassaram nas eleições europeias, e a violência ofuscou sua imagem entre uma parte da população. Suas reivindicações mais ambiciosas estão longe de se realizar.

Hoje pode parecer que o que começou em 17 de novembro de 2018 com bloqueios de estradas nos subúrbios e manifestações nas cidades é história, que a França virou a página. E, entretanto, os coletes amarelos – a França das classes médias empobrecidas e das cidades e povoados de províncias afastados e desprezados pelas metrópoles globalizadas – podem surgir como os vencedores morais de uma batalha que não acabou.

Não só conseguiram, nas primeiras semanas de suas reivindicações, que o presidente Emmanuel Macron voltasse atrás na medida que havia acendido o pavio: o aumento do preço do diesel. Seu sucesso vai além até dos 17 bilhões de euros (78 bilhões de reais) gastos em medidas para aumentar o poder aquisitivo dos franceses, e da comemoração de um “grande debate nacional” destinado a escutar as reclamações da população. E é um sucesso de maior magnitude do que o que significa ver como seu principal adversário se desmancha em demonstrações de empatia e humildade diante dos que querem derrubá-lo de qualquer maneira. “De certa forma, os coletes amarelos foram muito bons para mim, porque me lembraram do que eu deveria ser”, Macron declarou em setembro à revista Time.

O sucesso dos coletes amarelos é tornar visível um país pouco visível: sintetizando muito, porque é um movimento complexo e heterogêneo, o da classe trabalhadora branca, os perdedores da globalização. E é ter transformado algumas estruturas da sociedade e da política francesas.

Dominique Reynié, diretor do laboratório de ideias Fondapol, acha que o movimento traduz uma crise fundamental. “Ninguém consegue mais antecipar, expressar e regulamentar os conflitos sociais através das organizações clássicas como os sindicatos e os partidos”, diz. “Em uma sociedade francesa que enfrenta múltiplas questões, ligadas como em toda a Europa à demografia, à distribuição das riquezas, ao acesso aos serviços e à pressão fiscal, descontentamentos são expressados sem mediação sindical e política. Esse fenômeno produziu os coletes amarelos, e inevitavelmente se reproduzirá. Os coletes amarelos não terminaram. Podem voltar, com o nome de coletes amarelos ou de outra maneira”.

A mudança quase tectônica não esconde os avanços tangíveis ao movimento. “Sendo espontâneos, sem organização, sem programa e sem estrutura, conseguiram o que os sindicatos e os partidos não conseguem. Forçaram a agenda política e mediática”, lembra Reynié. A retificação do Governo com o aumento do combustível e a flexibilização da redução a 80 quilômetros por hora da velocidade máxima nas estradas – outra medida polêmica – “parecem um detalhe, mas não o são”, diz o cientista político. “Porque afetam as duas grandes modalidades de governo da França: a fiscalização e a regulamentação. É grave porque inibe o Estado francês em sua ação”, avisa.

“É importante não analisar a questão de sua vitória com indicadores tecnocráticos. Por exemplo, se obtiveram 10 a 15 bilhões de euros (46 a 70 bilhões de reais) e se aumentaram suas aposentadorias”, diz o geógrafo Christophe Guilluy, que há mais de uma década analisa o que chamou de França periférica, a dos coletes amarelos. “Essa divisão é a curto prazo e é preciso olhar a longo prazo. E a longo prazo, já não se poderá agir como se essas categorias [socioeconômicas] não existissem”, acrescenta.

A violência dos coletes amarelos e a contundência policial marcam o balanço: 3.100 manifestantes condenados em um ano, 600 deles a penas de prisão; 474 gendarmes, 1.268 policiais e 2.448 manifestantes feridos. É possível que nesse sábado, para comemorar o primeiro aniversário, milhares saiam às ruas e os confrontos se repitam. Mas, um ano depois, os protestos mudam, e o mal-estar se expressa nos hospitais e nos transportes públicos, e na recusa à reforma das aposentadorias. O Governo francês teme que as reivindicações confluam na manifestação convocada para 5 de dezembro contra essa reforma.

Guilluy não acha que o movimento possa ser dado por terminado. “Continua, sob diversos formatos, veremos qual”, responde. “É preciso vê-lo não unicamente como um movimento social, e sim cultural e existencial”. O geógrafo, autor, entre outros, de No Society. O Fim da Classe Média Ocidental, acredita que a vitória dos coletes amarelos é “cultural” em relação a “essa França de cima, burguesa, das elites”. “Surgiu um bloco que havia desaparecido”, resume. “E Macron entendeu perfeitamente o que tem diante dos olhos. Já não pode agir como se essa gente não existisse”.

Regras

Mais informações

Arquivado Em

Recomendaciones EL PAÍS
Recomendaciones EL PAÍS
Logo elpais

Você não pode ler mais textos gratuitos este mês.

Assine para continuar lendo

Aproveite o acesso ilimitado com a sua assinatura

ASSINAR

Já sou assinante

Se quiser acompanhar todas as notícias sem limite, assine o EL PAÍS por 30 dias por 1 US$
Assine agora
Siga-nos em: