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Queima de bandeiras indígenas alimenta fratura da Bolívia depois da renúncia de Evo Morales

A 'wiphala', consagrada como símbolo oficial do país durante o primeiro mandato do ex-presidente, foi queimada nas ruas por setores minoritários e radicalizados da oposição

José Pablo Criales
Imagem de Jesus Cristo pregada em uma bandeira boliviana em La Paz.
Imagem de Jesus Cristo pregada em uma bandeira boliviana em La Paz.Luisa González (Reuters)

“Fizeram-nos acreditar que havia duas Bolívias”. Na manhã de segunda-feira, no La Revista, um dos programas matinais mais assistidos da televisão boliviana, o coronel Miguel Mercado, comandante da polícia de Santa Cruz, mostrava o símbolo costurado na roupa verde-oliva da instituição policial e dizia essa frase, apontando para as duas bandeiras que o adornam: a oficial, a tricolor — adotada em 1851, 26 anos depois da declaração de independência da Bolívia —, e a wiphala, o emblema dos povos indígenas da região de Los Andes, proclamada como símbolo nacional na Constituição de 2009. “Nós sempre pensamos que a Bolívia é uma só: vermelha, amarela e verde”, disse o oficial, segurando as lágrimas diante do sorriso da apresentadora.

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A wiphala — um quadrado com sete cores que representam, por exemplo, o verde da produção agrícola, o violeta do poder comunitário ou o vermelho da terra — foi consagrada como símbolo oficial da Bolívia durante o primeiro mandato de Evo Morales, entre 2006 e 2009. Nos últimos dias, a wiphala fez parte das manifestações provocadas pela crise política que atravessa o país: enquanto setores que defendem Morales a levantavam ao tomarem as ruas da cidade de El Alto, setores minoritários e radicalizados da oposição a queimavam nas ruas de La Paz ao ouvir a renúncia gravada do agora ex-presidente. Do mesmo modo que o chefe da polícia de Santa Cruz, orgulhoso de repudiá-la, nos últimos dias muitos policiais fizeram circular fotos mostrando que a haviam arrancado de seus uniformes.

Para Mario Espinoza Osorio, jornalista e documentarista boliviano especializado em história, esses fatos são uma demonstração da “onda de revanchismo” que o país está enfrentando depois da renúncia de Morales. “O regionalismo é uma questão que nunca foi superada na Bolívia”, diz Espinoza, que afirma que esse enraizamento cultural das diferentes regiões bolivianas cresceu até adquirir “traços fascistoides nos quais o leste e o altiplano se assumem como diferentes, cada um afirmando que é culturalmente superior. Assim como os grupos que queimaram a wiphala, em La Paz vimos que muitos grupos indígenas queimaram a bandeira regional de Santa Cruz”.

Evo Morales segura uma ‘wiphala’ em uma fotografia de 2009.
Evo Morales segura uma ‘wiphala’ em uma fotografia de 2009.José Luis Quintana (Getty)

A origem da wiphala é um mistério. Na cidade de Tiwanaku, um sítio arqueológico a 70 quilômetros a oeste de La Paz, foram encontradas vasilhas talhadas com os quadrados da wiphala que datam do ano 200 antes de Cristo. No entanto, os historiadores, assim como o Governo boliviano, explicam que, embora as populações pré-colombianas do altiplano não carecessem de símbolos próprios, as bandeiras e estandartes chegaram com a conquista espanhola. A wiphala como bandeira se tornou mais conhecida na década de 1970, durante as mobilizações camponesas organizadas para recuperar a identidade política do povo aimará. O historiador boliviano Germán Choquehuanca redesenhou o emblema como a bandeira atual em 1979. Como explicou ao Periódico Digital de Investigación sobre Bolivia, a bandeira já havia sido agitada pelo líder indígena Zárate Willca depois da resistência colonial.

Hoje, um grande setor que se opõe a Evo Morales a toma como símbolo de seu Governo que deve ser erradicado. No domingo, enquanto o líder dos comitês cívicos de Santa Cruz, Luis Fernando Camacho, estendia uma Bíblia e uma bandeira tricolor nos corredores do palácio do Governo, um de seus seguidores exclamava à imprensa no lado de fora: “A Bíblia voltou a entrar no palácio. A Pachamama [a Mãe Terra, adorada como divindade nos Andes e outra reivindicação do Governo de Morales] não voltará jamais”. Nesta segunda-feira, Rafael Quispe, deputado e líder indígena contrário a Morales, a reivindicava: “A wiphala não é um partido, a wiphala é dos povos”. Mario Espinoza suspira e resume a situação em uma frase: “Seja como for, estamos divididos. É preciso aprender a viver novamente, não temos alternativa”.

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