Coluna
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Nós, nordestinos, fomos esquecidos

Governo e imprensa nacional demoraram a reagir, enquanto voluntários limpavam e fotógrafos nordestinos mostravam a realidade

Na Pedra de Xaréu, Cabo de Santo Agostinho, Pernambuco, uma multidão de voluntários se organiza como pode para retirar o óleo da praia
Na Pedra de Xaréu, Cabo de Santo Agostinho, Pernambuco, uma multidão de voluntários se organiza como pode para retirar o óleo da praiaAnderson Stevens

“O restante do Brasil não está percebendo a dimensão do problema. Nós, nordestinos, fomos esquecidos”. Foi com esse grito de socorro que uma procuradora da República, que está atuando em uma força tarefa do caso do vazamento de óleo na costa do Nordeste, chamou atenção para mais novo desastre ambiental de 2019.

O Nordeste é uma região fascinante. E às portas do verão, diversos brasileiros e estrangeiros planejam expedições pelas suas belas praias. Os turistas enchem as redes sociais com fotografias de selfies, passeios de jangada, mergulhos em piscinas naturais, brindes com champanhe na areia da praia, pôr do sol. Compartilham as fotos e saboreiam a deliciosa culinária ricamente baseada em frutos do mar. Camarões, lagostas, caranguejos, polvos, ostras, pescados e sururu. A vida perfeita que todos nós merecemos, mas que apenas alguns podem ter.

Para tanta ostentação, há por trás uma enorme indústria voltada ao turismo e que gera milhões de empregos. Pessoas que sustentam suas famílias dependendo de algo que lhes foi dado, mas que não possuem controle: os recursos naturais. Então, o que eles podem fazer é preservar o meio ambiente para que as belezas naturais sigam atraindo os turistas – e que tragam mais amigos no próximo verão para garantir o seu ganha pão.

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Quando o imenso vazamento de óleo, de origem ainda não confirmada, surgiu no Atlântico e começou a chegar no litoral do Nordeste há quase dois meses, os brasileiros ainda estavam sedados tentando se recuperar dos incêndios na Amazônia, que expôs o novo governo a um vexame internacional. Uma nova tragédia ambiental em um intervalo de poucos dias parecia seguir um roteiro de ficção apocalíptico.

Mas no mundo real, bem longe do virtual, à medida em que os dias foram passando, a crise se agravou. Em resposta à paralisia do governo que estava mais interessado em fomentar batalhas ideológicas, a população decidiu tomar a frente e mitigar, ela mesma, os danos causados pelo óleo. Ainda que isso implicasse em riscos direto à sua própria saúde. O governo, enquanto isso, preferiu seguir a fórmula de apontar inimigos imaginários e criar teorias conspiratórias contra ONGs – o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, insinuou, sem qualquer prova, que a organização Greenpeace teria derramado o óleo na costa brasileira, o que mais parece uma cortina de fumaça para acobertar o verdadeiro problema. Ele próprio desmontou a estrutura para ações previstas no Plano Nacional de Contingência. Só reagiu mais de 40 dias depois após o início da tragédia e ainda parece não saber o que fazer.

E sim, a imprensa nacional também demorou a reagir. Entradas rápidas nos telejornais, breves notas na imprensa escrita e fotos de tartaruguinhas manchadas de óleo mostravam muito pouco. Precisava-se do olhar de quem vivia o trauma de perto. Fotógrafos nordestinos, profissionais e amadores, se uniram para mostrar a tragédia.