Eleições em Israel

Netanyahu renuncia a formar Governo após uma década no poder em Israel

Presidente israelense vai encarregar o centrista Gantz de estabelecer um Governo

Netanyahu (esquerda) e Rivlin, em setembro em Jerusalém.
Netanyahu (esquerda) e Rivlin, em setembro em Jerusalém.Sebastian Scheiner (AP)

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Em um reconhecimento explícito de impotência, o líder que comanda o timão de Israel há mais de uma década jogou a toalha. O primeiro-ministro israelense em exercício, Benjamin Netanyahu, renunciou nesta segunda-feira a formar um Governo, três dias antes do término do mandato concedido pelo presidente israelense, Reuven Rivlin. Os resultados inconclusivos das eleições legislativas de 17 de setembro se traduziram em um novo quadro político que ameaça desembocar em nova repetição eleitoral. Se o líder centrista Benny Gantz, a quem Rivlin se prepara para transferir o encargo nas próximas horas, não conseguir formar um Gabinete de coalizão em quatro semanas, os israelenses poderão ser obrigados a votar pela terceira vez no prazo de um ano para eleger seus deputados.

"Trabalhei sem descanso para estabelecer um Governo de unidade com uma ampla coalizão, como o povo queria". Um Netanyahu pesaroso reconheceu desse modo seu fracasso em um vídeo publicado nas redes sociais, logo que se encerraram as festividades judaicas desta época do ano, que semiparalisaram a atividade política por três semanas. O primeiro-ministro interino culpou o líder da oposição de centro-esquerda por "rejeitar repetidas vezes as tentativas de abrir uma mesa de negociações e evitar novas eleições".

Um dos principais obstáculos para alcançar um acordo de unidade entre o partido Likud e a coligação Azul e Branco foi determinar qual dos dois líderes — Natanyahu ou Gantz — deveria ocupar o chefia do Governo de forma rotativa. Os advogados de Netanyahu compareceram no início do mês perante o procurador-geral de Israel em resposta a uma intimação antes de uma possível acusação por três casos de fraude e suborno nos quais a polícia investigou o primeiro-ministro. O ex-general Gantz afirmou reiteradamente que não aceitaria uma coalizão com "um primeiro ministro que pode ser indiciado”.

Yair Lapid, ex-ministro das Finanças e principal parceiro político de Gantz, investiu nesta segunda-feira contra Netanyahu por "ter falhado mais uma vez com os cidadãos", em declarações citadas pelo jornal Haaretz. "A Azul y Blanco está determinada a formar um Governo de coalizão de base progressista", anunciou o cofundador dessa aliança centrista. Outros membros dessa formação garantiram que Netanyahu está tentando forçar uma nova repetição das eleições com suas manobras políticas. Nem o bloco da direita, encabeçado pelo Likud de Netanyahu, nem o da centro-esquerda, liderado pela coligação Azul e Branco, de Gantz, conseguiram alcançar a maioria das cadeiras — fixada em 61, em uma Knesset (Parlamento), de 120 cadeiras) — nas últimas legislativas, convocadas pela segunda vez este ano (a primeira foi em abril).

Os 55 deputados resultantes da soma do Likud (32 assentos na contagem final), do primeiro ministro Netanyahu, e seus dois parceiros ultraortodoxos (16) e o da extrema direita (7) superam os 54 acumulados pela Azul e Branco (33 parlamentares), mais o apoio do Partido Trabalhista (6), da esquerda pacifista (5) e de 10 dos 13 membros da Lista Conjunta Árabe. A reviravolta inesperada do partido islâmico Balad, que voltou atrás no apoio expressado ao ex-general Gantz por lesa coalizão, limitou o peso da terceira força na Knesset, que aspira a representar a minoria árabe (um quinto da população).

A governabilidade continua dependendo dos oito deputados do Israel Nossa Casa, um movimento conservador laico, liderado pelo ex-ministro da Defesa Avigdor Lieberman. Defende um "Governo de unidade nacional liberal", mas não se inclinou por nenhum dos dois blocos, pois se recusa a pactuar tanto com os ultraortodoxos como com os árabes.

Netanyahu, o primeiro-ministro que por mais tempo governou Israel — 13 anos, sendo os últimos 10 consecutivos — não conseguiu revalidar em setembro nas pesquisas a maioria parlamentar com a qual comandou a última legislatura (2015-2019), o Governo mais conservador na história do Estado judeu. A coalizão da grande direita se rompeu no final do ano passado, após a saída de Lieberman, contrário à estratégia de contenção do primeiro-ministro na Faixa de Gaza e em confronto com os ultrarreligiosos por seus privilégios sobre a maioria secular de Israel.