O discurso dos pequenos ‘Bolsonaros bolivianos’

Dois candidatos menores são comparados ao presidente brasileiro, com quem têm em comum algumas propostas radicais e o apoio de igrejas evangélicas

O candidato Chi Hyun Chung.
O candidato Chi Hyun Chung.DAVID MERCADO (REUTERS)

A vitória de Jair Bolsonaro no Brasil no ano passado foi aplaudida por um setor da população boliviana, em especial em Santa Cruz, a região mais próspera da Bolívia, onde a oposição ao presidente Evo Morales é mais forte. Agora, dois candidatos menores às eleições deste domingo são comparados ao capitão da reserva e presidente brasileiro, com o qual têm em comum algumas propostas e também a articulação de seus partidos com as igrejas evangélicas, muito ativas e populares no país.

Um dos candidatos considerados pela imprensa “um Bolsonaro boliviano” é Víctor Hugo Cárdenas, o primeiro indígena a ocupar o cargo de vice-presidente do país, entre 1993 e 1997. Assim como muitos outros indígenas originários da área do lago Titicaca, no norte do país, Cárdenas foi criado como protestante. Depois de uma longa trajetória no indigenismo, primeiro, e posteriormente como opositor moderado ao presidente Morales, entrou nesta campanha como candidato de um partido tradicional, a União Cívica Solidariedade, acompanhado por Humberto Peinado, pastor evangélico e líder de um movimento contra a descriminalização do aborto. Cárdenas logo mostrou que tinha como principal inimigo a chamada “ideologia de gênero”, ou seja, o feminismo e o avanço das sexualidades alternativas. Entre outras ideias relacionadas às de Bolsonaro, propôs combater a violência contra as mulheres entregando a elas armas de fogo.

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As pesquisa atribuíam a Cárdenas 3% das intenções de voto, por isso não parecia que sua candidatura expressasse uma tendência social importante, mas no meio da campanha surgiu outro aspirante religioso, um médico chamado Chi Hyun Chung, que mudou essa impressão ao aparecer nas pesquisa com 7% (e subindo).

O “Dr. Chi”, como dizem os bolivianos para não ter de pronunciar seu nome completo, é um candidato atípico por várias razões. Em primeiro lugar, porque é o primeiro candidato a presidente que se beneficia da mudança constitucional de 2009, que eliminou a exigência de que os presidentes fossem originários do país. Chung nasceu na Coreia do Sul e se mudou para a Bolívia aos 12 anos, quando a Igreja Presbiteriana da Coreia encarregou seus pais de criar uma missão religiosa no país andino. A missão foi muito bem-sucedida, já que conta com 70 igrejas, uma clínica, uma universidade e outros negócios. Depois de fazer uma controvertida carreira como empresário e pastor, o “Dr. Chi”, que aparentemente estava esperando uma oportunidade de entrar na política, encontrou-a na crise do antigo Partido Democrata Cristão, que foi fundado e dirigido por várias gerações de católicos, mas não duvidou em usá-lo para substituir seu candidato original, que renunciou no meio da campanha.

Chung chamou a atenção, desde o começo, com seu lema “Chi puede”, uma aliteração de “sí, se puede”, versão em espanhol do famoso slogan de campanha do ex-presidente americano Barack Obama “yes, we can” (“sim, podemos”). E seu protagonismo não parou de aumentar, impulsionado por declarações surpreendentes, como a de que os incêndios florestais ocorridos no país seriam um “castigo de Deus” pela existência de homossexuais na Bolívia. O “Dr. Chi” atrai principalmente eleitores inexperientes, que consideram atraentes slogans como “transformar a Bolívia em uma Coreia” e “salário mínimo para os parlamentares”. Segundo os analistas, votar nele é uma forma de protestar contra os candidatos principais, que são políticos de longa data e “já não falam a linguagem do povo”.

O sociólogo especializado em temas religiosos Julio Córdova acredita que “à medida que avança a agenda de direitos para as mulheres e diversidades sexuais, a reação conservadora religiosa fica mais visível e com potencial de influir nas eleições do futuro”. Isso ocorre porque “se perdeu quase totalmente a típica postura protestante de separação entre Igreja e Estado”. Os dois candidatos citados fizeram uso intenso —segundo Córdova, “descarado”— de templos e redes evangélicas. “Com o beneplácito de líderes evangélicos conservadores que veem na instrumentalização política de sua fé uma oportunidade de influir no Estado”, conclui o especialista, houve “uma ‘Santa aliança’ entre política partidária e religião”.