Ofensivas militares

Turquia lança ofensiva contra as forças curdas no norte da Síria

Civis fogem das cidades fronteiriças atacadas pela aviação turca. Ataque ocorre dias depois que as tropas dos EUA se retiraram da região

Comboio militar turco perto da fronteira turco-síria, nesta quarta-feira.
Comboio militar turco perto da fronteira turco-síria, nesta quarta-feira. (REUTERS)

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A Turquia lançou nesta quarta-feira uma ofensiva militar contra as milícias curdas no norte da Síria — dias depois que as tropas dos Estados Unidos se retiraram da região — com ataques aéreos apoiados por artilharia contra posições ao longo de toda a fronteira e o início de uma invasão por terra.

Às quatro horas da tarde, horário turco (10h em Brasília), o Exército da Turquia recebeu a ordem de ataque e seus aviões começaram a bombardear objetivos das milícias curdas. “As Forças Armadas Turcas, juntamente com o Exército Nacional Sírio [rebeldes anteriormente vinculados ao Exército Livre Sírio] lançaram a Operação Primavera de Paz contra os terroristas do PKK-YPG e do Daesh [Estado Islâmico] no norte da Síria”, anunciou o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, em uma mensagem no Twitter. Na noite de quarta-feira, o Ministério da Defesa turco anunciou o início da incursão terrestre.

Os caças turcos bombardearam cidades fronteiriças, entre elas Ras al Ain, Tel Abyad e Qamishli, localizadas diante da fronteira turco-síria, e as televisões turcas mostraram imagens de colunas de fumaça subindo acima delas e vários incêndios. Os ataques aéreos foram apoiados por bombardeios de artilharia. Segundo a Turquia, os objetivos são bases militares, posições de artilharia e depósitos de armas das Unidades de Proteção Popular (YPG) e das Forças Democráticas da Síria (FDS), as forças militares dos curdos da Síria que Ancara acusa de terroristas por seus estreitos laços com o PKK, grupo armado que faz atentados na Turquia desde 1983.

O Ministério da Defesa turco garantiu que seu “único objetivo” são “os terroristas” e que toma o máximo cuidado para não causar danos aos civis e nem às infraestruturas da região. Mas em muitos casos esses objetivos das FDS estão no meio de cidades. Segundo afirmou uma fonte humanitária curda ao EL PAÍS, na aldeia de Hoshan 7 civis foram mortos e outros 16 ficaram feridos e foram evacuados para o hospital de Ain Issa. Outra fonte sanitária, por outro lado, reduziu o número de vítimas civis para 5 em vários locais das áreas atacadas e a 7 o número de feridos. Por outro lado, pelo menos meia dúzia de projéteis lançados da Síria caíram nas cidades turcas de Nusaybin e Ceylanpinar e, embora tenham danificado várias casas, não houve vítimas.

“Estão bombardeando os civis, estão fugindo de Ras al Ain”, confirmou pelo WhatsApp o espanhol Arnau Pagès, atualmente voluntário no Centro de Informação de Rojava (Curdistão sírio). Pouco antes, cerca de mil pessoas se reuniram na cidade para acampar e formar um “escudo humano” para protestar contra a ofensiva turca, de acordo com este espanhol oriundo de Barcelona.

Os bombardeios causaram pânico entre os civis e os moradores de cidades fronteiriças estão fugindo “para o interior ou para Hasaka, porque lá há tropas do Exército regular sírio”, explicou por telefone um funcionário da ONU que pediu anonimato. Esta fonte também apontou que a organização internacional alertou-lhes que o pessoal das Nações Unidas será retirado em caso de ataque aéreo e, portanto, “a distribuição da ajuda não poderá ser mantida”. Quase seis milhões de civis vivem nesta região, dos quais mais de 1,6 milhão necessita de assistência humanitária e 650.000 são deslocados de outras regiões da Síria, segundo informações da ONG Save the Children.

O professor de Relações Internacionais e especialista em táticas de aviação militar Ragip Kutay Karaca explicou em declarações à rede CNN-Türk que esta primeira fase de ataques aéreos e de artilharia visa a “amolecer” a eventual resistência das milícias curdas, antes de uma invasão terrestre. Na noite de quarta-feira, o Ministério da Defesa turco também anunciou o início da incursão terrestre. Centenas de tanques e blindados do Exército turco aguardavam ao longo da fronteira a ordem de penetrar em território sírio. As forças de infantaria serão fornecidas pelo chamado Exército Nacional Sírio, nova sigla sob a qual se agruparam várias facções de rebeldes sírios alinhados a Ancara. Precisamente combatentes dessas facções, acompanhados por membros das forças especiais do Exército turco, penetraram em três pontos do território sírio a leste do rio Eufrates, informou a rede Habertürk.

Surpresa pela retirada dos EUA

Um membro do Crescente Vermelho Curdo da Síria explicou a este jornal que sua organização fez os preparativos necessários para atender os feridos civis e militares e dispõe de ambulâncias que estão sendo enviadas para a zona de conflito. “O estado de ânimo das pessoas ainda é de surpresa pela decisão dos Estados Unidos de se retirar. Mas as pessoas confiam nas FDS”, explicou, embora tenha reconhecido que “se a Turquia usar ataques aéreos será muito difícil resistir mesmo usando os túneis” que as milícias curdas cavaram nos últimos meses.

Na segunda-feira, a coalizão internacional de combate ao Estado Islâmico anunciou que a Turquia havia sido expulsa do mecanismo pelo qual informações aéreas são compartilhadas. Depois dos primeiros atentados, as FDS chamaram, através de sua conta oficial de Twitter, a coalizão e a comunidade internacional a implementar “uma zona de exclusão aérea para proteger o povo do norte e do leste da Síria de uma iminente crise humanitária, como foi feito no passado com o Iraque”.

Uma das primeiras consequências da operação turca é que as FDS decidiram suspender as operações antiterroristas que estavam realizando com os EUA contra as células adormecidas do Estado Islâmico, apesar de que, nos últimos dias, militantes da organização jihadista fizeram vários ataques com vítimas mortais na cidade de Raqqa. “É impossível realizar operações [antiterroristas] quando você é ameaçado por um exército maior que o seu na fronteira norte”, disse uma fonte curda à agência Reuters.

“Nossa missão é impedir a criação de um corredor terrorista ao longo da nossa fronteira sul e levar a paz à região”, disse Erdogan em seu tuíte: “A Operação Primavera de Paz neutralizará as ameaças terroristas contra a Turquia e levará ao estabelecimento. de uma zona segura, o que facilitará o retorno dos refugiados sírios a suas casas. Preservaremos a integridade territorial da Síria e libertaremos as comunidades locais dos terroristas”.

Na madrugada de segunda para terça-feira a Turquia já havia bombardeado a parte mais setentrional da fronteira sírio-iraquiana para “romper as linhas de abastecimento, inclusive as de armamento” das milícias curdas entre Iraque e Síria, como explicaram duas fontes de segurança à agência Reuters.

A Turquia convocou o embaixador dos EUA em Ancara ao Ministério das Relações Exteriores para informá-lo da operação, depois que na segunda-feira Washington ordenou retirar da zona de fronteira os militares que havia mobilizado para evitar confrontos entre as forças turcas e curdas. Posteriormente, a Casa Branca e o Pentágono nuançaram que a medida se destinava unicamente a evitar que os militares norte-americanos se vissem no meio do fogo cruzado e que, de maneira alguma, significa uma luz verde para a Turquia atacar as milícias curdas, que foram o principal aliado dos Estados Unidos na luta contra o Estado Islâmico.

Ancara afirmou que explicará aos seus aliados e aos países da região os motivos e planos da operação, convocando seus representantes diplomáticos, inclusive os de Damasco, com os quais não mantém relações. A Rússia não se envolverá no conflito depois do lançamento da operação, afirmou Vladimir Dzhabarov, vice-presidente da comissão parlamentar de Relações Exteriores, citada pela agência RIA.

Ao sul da região atacada pela Turquia, o Governo de Bashar al-Assad toma posições à espera de ver como se desenvolverão os acontecimentos. “Centenas de soldados foram enviados à margem ocidental do Eufrates para reforçar as posições do Exército sírio na província de Deir Ezzor”, disse uma fonte militar de Damasco.

União Europeia exige Turquia interrompe a ofensiva

A União Europeia e vários de seus Estados-membros –como França, Alemanha, Reino Unido, Itália e Holanda– exigiram que a Turquia interrompa a operação militar contra as milícias curdas da Síria, pois consideram que isso prejudicará os civis, desestabilizará a região e será um golpe na luta contra o Estado Islâmico. "Se o plano [da Turquia] incluir uma zona segura, não esperem que a UE coloque dinheiro para isso", disse o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, referindo-se à intenção de Erdogan de enviar à região ao menos um milhão dos 3,6 milhões de refugiados sírios acolhidos na Turquia.

Mais suave foi a OTAN, cujo secretário-geral, Jens Stoltenberg, simplesmente pediu "moderação" à ofensiva turca. Os membros europeus do Conselho de Segurança da ONU solicitaram uma reunião urgente para discutir o assunto nesta quinta-feira.

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