O que cabe ao gênero é coisa de todos

Me pergunto por que só nós mulheres somos consultadas sobre coisas que cabem a todos

Nicolás Aznárez

Nos últimos meses fui a vários eventos literários em diversos países. Participei de mesas redondas sobre diversos assuntos, fui entrevistada. Antes e depois, tantos os colegas que me entrevistaram como pessoas do público me fizeram perguntas sobre as leis de cotas, o movimento feminista, a igualdade entre homens e mulheres. Respondi com gosto: são coisas que me interessam. Mas notei que nas entrevistas feitas aos colegas homens que passaram pelos mesmos eventos raras vezes ocorriam consultas sobre essas questões. E que nunca, em nenhuma das mesas redondas das quais participei, o público dirigiu essas perguntas aos homens com os quais dividi espaço. Me pergunto por que somente as jornalistas e escritoras – e as mulheres em geral – são consultadas sobre coisas que cabem a todos. Até onde sei, as cotas, a igualdade etc., são assuntos que importam aos que produziram um sistema de coisas (homens e mulheres), e aos que lidam com suas consequências (homens e mulheres). Os colegas homens, entretanto, com algumas exceções, são consultados por seus contos, romances, ensaios, crônicas (como foi que construiu tal personagem, como pesquisou esse assunto?). Nós mulheres somos consultadas por todas essas coisas, mas, em algum momento, chega a pergunta: o que diz sobre as leis de cotas, o movimento feminista, o espaço ocupado pelas mulheres em locais de poder, as denúncias por abuso. O que cabe ao gênero é coisa de todos. E suspeito que enquanto tantos continuarem acreditando que é somente coisa de mulheres continuaremos estando como estamos. Não adiantará muito, mas na próxima vez que me perguntarem algo assim não seria ruim apontar simpaticamente meus sempre simpáticos colegas homens e responder: “Fale com eles”. Imagino que também terão muito a dizer.

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