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COLUNA i

Picos

Procurei algo de épico na imagem, por mais frouxo que fosse, mas só encontrei gente patética humilhando uma montanha

Alpinistas esperam sua vez para chegar ao cume do Everest, no dia 22 de maio.
Alpinistas esperam sua vez para chegar ao cume do Everest, no dia 22 de maio.

Serão os nascidos no século XX os últimos humanos capazes de distinguir uma experiência de um simulacro? Meu pai quer ir a um povoado aonde só se pode chegar de jipe ou de mula. Pergunto-lhe: “Vai de jipe?”. Ele me diz: “De mula! É preciso viver a aventura”. “Aventura” foi a palavra que mais escutei na infância. “Aventura!”, dizia meu pai em 1981, e subíamos — ele, minha mãe, meu irmão e eu — numa caminhonete e cruzávamos os Andes por um passo a 4.736 metros de altitude, reservado só a caminhões de mineradoras. Tomávamos precauções, mas uma vez lá em cima éramos nós e a falta de oxigênio e uma paisagem que parecia o olho de uma sereia demente e encalhada. Várias vezes nos perdemos, e em todas elas meu pai revisava o mapa de um guia local e dizia: “Aventura!”. Quando esperamos dias para cruzar de balsa para o Paraguai, porque o rio tinha levado uma ponte embora, e precisamos racionar alimentos e água; quando descemos à noite da Quebrada de Humahuaca em meio a um dilúvio, com o para-brisa aos pedaços: meu pai gritava “Aventura!”, e nós, mortos de medo, gritávamos com ele, exercendo uma respeitosa forma de coragem. Em agosto, completam-se 39 anos do dia em que Reinhold Messner alcançou sozinho e sem oxigênio o topo do Everest. Hoje quase ninguém sobe sem seu tanque, sem seu sherpa. Dias atrás, 200 pessoas faziam fila a 8.884 metros de altura para chegar ao pico, e o congestionamento provocou seis mortos. A foto era patética: apinhados no lombo do que alguma vez foi um monstro e hoje é um parque temático, centenas se aferravam a uma corda servil. Procurei na imagem algo de épico, por mais frouxo que fosse, mas só encontrei gente patética humilhando uma montanha. Penso no meu pai, que procurou batalhas modestas para nós, humildes resplendores que nos permitiram ser, por alguns segundos, a apoteose de nós mesmos, e que ainda habitam em mim.

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