As lobas de Wall Street: como quatro ‘strippers’ conseguiram extorquir os homens mais poderosos de Manhattan

Sucesso do filme ‘As Golpistas’, protagonizado por Jennifer Lopez, trouxe novamente ao noticiário a incrível história real das dançarinas que espoliaram milhares de dólares em poucos meses

Roselyn Keo, vestindo Alexander Wang, posa na estreia de 'As Golpistas'.
Roselyn Keo, vestindo Alexander Wang, posa na estreia de 'As Golpistas'. (Getty)

Poucos podem se gabar de um setembro melhor que o de Roselyn Keo. Sem ter jamais ficado na frente ou atrás de uma câmera, teve a oportunidade de posar no tapete vermelho de uma pré-estreia internacional, monopolizou capas de revistas e sites de meio mundo e acaba de lançar seu primeiro livro, The Sophisticated Hustler (“a golpista sofisticada”). Seu talento? Cometer um crime midiático e, sobretudo, querer contá-lo até o último detalhe. A ascensão e posterior queda do grupo de strippers que fraudaram alguns dos homens mais ricos e poderosos do setor financeiro norte-americano chega agora às telas como um dos filmes que mais expectativa despertaram nos últimos tempos. Jennifer Lopez e Constance Wu encabeçam o elenco de As Golpistas (Hustlers), que estreia em 5 de dezembro no Brasil com rumores de Oscar para a artista latina e uma crítica deslumbrada. Uma história tão real como inverossímil, que veio à luz graças às confissões de Keo (interpretada por Wu) reunidas pela jornalista Jessica Pressler na New York Magazine. Qualificadas como umas Robin Hood contemporâneas, foi assim que estas mulheres conseguiram pôr em xeque os peixes mais gordos do lago de Wall Street.

Rosie, como prefere ser chamada Roselyn Keo, é filha de refugiados cambojanos que chegaram aos Estados Unidos em busca do sonho americano e que, como a maioria, fracassaram. Com 17 anos, a jovem já tinha largado o colégio depois que seus pais partiram do lar familiar e deixaram a menina e seu irmão sob os cuidados dos avós. Vivia em Nanuet, um povoado que fica quarenta minutos de carro ao norte de Nova York, e trabalhava como garçonete em uma lanchonete situada junto a um clube de strip-tease. Animada pelas propostas dos funcionários do local, a quem servia café toda madrugada, Rosie decidiu atravessar a rua, mentir a respeito da idade e começar a dançar sobre um tablado faturando, só de gorjetas, mais de mil dólares por noite.

Keo não demorou em subir à primeira divisão e se tornou uma atração habitual nas casas noturnas mais exclusivas de Manhattan, frequentadas por executivos “infelizes” do setor financeiro, dispostos “se embebedarem e se divertirem com as garotas”. Em uma dessas casas conheceu Samantha Barbash (interpretada por Jennifer Lopez no filme), uma das strippers mais veteranas e procuradas da cena nova-iorquina. A julgar pelas descrições feitas por sua pupila, ela (que já tinha passado dos 30 anos) conjugava um cérebro digno de Wall Street com um corpo digno de Jessica Rabbit. Todas queriam trabalhar com ela para poder se beneficiar de seu poder de atração de clientes, tendo em conta que, ao contrário da maioria dos clubes do mundo, aqui eram as próprias garotas que pagavam para trabalhar neles.

“As mulheres são valorizadas, acima de tudo, por sua beleza, e os homens por seu dinheiro, seu sucesso e seu poder. As normas que regem um clube são as mesmas normas que regem o mundo”. Lorene Scafaria, diretora de As Golpistas, resumia assim na revista Time o músculo argumental de um filme que consegue fazer os espectadores se identificarem com personagens que encarnam aquilo de “ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão”. Quando Keo voltou a trabalhar após seu afastamento por maternidade, a crise financeira de 2008 deixava notar seus devastadores efeitos também nos palcos das boates. Nem a lotação nem as gorjetas eram comparáveis às de meses antes. Por isso era tão importante o trabalho de atração de clientes feito por Barbash (também conhecida como Foxx), que àquela altura já havia deixado o pole dance para se dedicar por completo às relações públicas. Seu nível de vida, sem a necessidade de dançar ou manter relações sexuais com os clientes, era um enigma para Rosie, que não hesitou quando teve a chance de entrar para o exclusivo círculo de confiança da bailarina.

O sistema delitivo era sempre o mesmo: uma das garotas marcava um jantar para a vítima/cliente, no qual o seduzia e embebedava. O resto do grupo se juntava ao encontro mais tarde, levando a presa ao clube e lhe oferecendo drogas, para depois espremer seu cartão de crédito. Se algum se mostrava reticente em se deixar levar e participar dessa segunda fase, Barbash se encarregava de drogá-lo contra sua vontade, oferecendo-lhe o que ela denominava de bebida especial, e que na verdade era uma mistura de cocaína, ketamina e MDMA. Se queriam sexo, a própria Rosie contava com uma lista de prostitutas que ela mesma tinha formado, para garantir que cumpririam o plano estabelecido. As faturas de alguns clientes podiam chegar a cifras próximas dos 300.000 dólares semanais. “Realmente era tão terrível que uns sujeitos de Wall Street despertassem com dívidas enquanto algumas mulheres podiam pagar seu aluguel, pagar à babá e comprar uns Louboutin?”, pergunta-se hoje Keo, que agia como cérebro administrativo e contabilista da fraude.

A stripper conta que as próprias vítimas, drogadas, lhe ofereciam os dados de suas contas bancárias, da previdência social e até “o sobrenome de solteira de suas mães”. Alguns clientes contestavam as cobranças feitas em seus cartões, mas depois discretamente retiravam as queixas, por medo de que suas famílias ficassem sabendo de suas escapadas recreativas, ou que a atenção da imprensa pusesse em perigo os seus privilegiados empregos. Durante anos, a polícia fez vista grossa às dezenas de telefonemas de vítimas que, sem provas reais, pareciam ser apenas homens arrependidos da farra luxuriosa da noite anterior. Os agentes antidroga que pouco depois desmantelariam a fraude contaram que tiveram problemas para encontrar denunciantes, já que alguns “se sentiam envergonhados por terem sido fraudados por mulheres”.

Em 2014, um homem apresentado como Fred no artigo de Pressler se atreveu a ir à polícia após encontrar na sua conta uma cobrança de aproximadamente 15.000 dólares. Grampearam seu telefone, ela ligou para a jovem com quem tinha passado aquela noite e conseguiu que esta admitisse que o tinham drogado. Depois de chegar a um acordo com a polícia, foi a mesma jovem quem revelou todo o esquema criminal. A essa denúncia se somariam outras três durante as semanas posteriores. No mês de junho, as quatro strippers e um cúmplice, o gerente de um de seus clubes habituais, foram detidos e acusados de terem roubado cerca de 180.000 dólares em apenas quatro meses.

Nem Barbash nem Keo jamais foram para a cadeia. Não tiveram a mesma sorte outras duas jovens bailarinas que participavam da quadrilha, condenadas a passar apenas os fins de semana na prisão durante quatro meses. Graças ao sucesso da reportagem de Pressler e sua posterior adaptação triunfal para as telas, essa filha de refugiados cambojanos condenada por conspiração, furto qualificado e lesão corporal sorri no tapete vermelho junto com uma estrela do porte de Jennifer Lopez. Nas entrevistas mais recentes, já deixa entrever seu potencial futuro profissional como criminosa redimida e ícone da autoajuda. “Estou pensando em que Jordan Belfort e eu façamos palestras motivacionais juntos… Vendo O Lobo de Wall Street eu me dizia, ‘Eu sou a loba de Wall Street’”. Seu uivo agora está sendo ouvido nas salas do mundo todo.

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