Arrocho retira apoio para ida de realizadores brasileiros a festivais internacionais

Agência suspendeu programa que oferece ajuda de custos para que realizadores apresentem seus filmes em outros países. Decisão atinge produtores que já haviam sido aprovados para 11 eventos

Filme 'Entre' é o único brasileiro na mostra competitiva do BFI London Film Festival.
Filme 'Entre' é o único brasileiro na mostra competitiva do BFI London Film Festival.Cris Lyra (Divulgação)

MAIS INFORMAÇÕES

Em meio à onda de cortes orçamentários que têm atingido bolsas de pesquisas e ações culturais no Brasil, a Ancine anunciou a suspensão de incentivo financeiro para a participação de realizadores brasileiros em eventos internacionais. O órgão, que já estava na esteira de arrocho orçamentário, não realizará o pagamento a proponentes que já haviam sido aprovados no programa de Apoio à Participação Brasileira em Festivais, Laboratórios e Workshops Internacionais 2019. O programa, que inclui uma ajuda de custo de 4.600 reais para que realizadores viagem e representem seus filmes em festivais internacionais, está suspenso. Ao todo, a agência cortou o incentivo para 11 festivais, mas não informou a economia com estes cortes. O critério para a suspensão, informa a Ancine, foi temporal. Somente foram mantidos os apoios aos festivais já realizados ou já em curso. A notícia surpreendeu produtores que já haviam sido aprovados para receber o benefício.

A produtora Anna Zepa conta que, sem o benefício, terá dificuldade para participar da exibição do filme 'Entre' (Between, em inglês) no BFI London Film Festival, que acontece a partir do dia 2 de outubro. O curta dela, que narra um flerte lésbico na periferia de São Paulo, é a única produção brasileira entre os 12 curtas da mostra competitiva. O filme ainda será exibido no festival, mas agora Anna Zepa precisa buscar outras formas de viabilizar financeiramente o pagamento da viagem. Como havia recebido a aprovação pela Ancine por e-mail, a produtora já havia comprado as passagens. O recurso, porém, só é transferido pelo poder público após o retorno da viagem. “Acho que atos como este refletem uma atitude de Governo que não quer que a gente pense e reflita sobre esses temas”, afirma.

Agora, a produtora diz que quer entender o que está acontecendo com a Ancine. Embora a suspensão tenha atingido filmes com outras temáticas, a produtora diz que a posição dura do Governo com respeito às questões de gênero em diferentes frentes repercute em outros espaços. “Esse tipo de ação dificulta a circulação de filmes que falam sobre um país que não se quer neste Governo”, considera Zepa.

O documentário da produtora Amanda Bortolo ainda está em produção e foi selecionado para o Fórum de co-produção de San Sebastian, na Espanha. O longa aborda as tensões de um vilarejo de Ponta Negra, em Paraty, que recebeu energia elétrica há dois anos com condomínios luxuosos no seu entorno e também seria contemplado pelo programa da Ancine. A menos de 20 dias do evento, que acontece entre 24 e 26 de setembro, o benefício foi suspenso. “A gente pediu um apoio ao Itamaraty porque eles poderiam apoiar longa, estamos esperando uma resposta. E também conversando com um advogado para ver se podemos entrar com algum recurso”, conta.

Juliana Antunes, diretora do curta Plano Controle, também foi surpreendida com a suspensão do incentivo para participar do New York Film Festival, que começa no próximo dia 27. O filme dela, o único que será exibido no festival além do longa Bacurau, é uma ficção sobre uma mulher que compra um pacote de teletransporte para Nova Iorque e vai parar no bairro homônimo da periferia de Belo Horizonte. “É uma decisão que me prejudica pessoalmente, porque não tenho como arcar com essa viagem, e como realizadora”, lamenta Juliana.

Ela argumenta que não estar presente na exibição do filme prejudica a carreira dela e do filme. “O fim do processo de internacionalização é de um prejuízo imenso para o país e para os trabalhadores do cinema nacional. O não cumprimento do pagamento é, sobretudo, de um dano moral e financeiro para quem o sofre”, afirma Juliana, que tentava o financiamento para dois outros filmes, porém estes ainda não haviam sido contemplados.

A Ancine afirmou em nota ao EL PAÍS que todos os apoios previstos no Programa de Apoio Internacional estão sendo reavaliados, em razão do contingenciamento orçamentário determinado pelo Governo Federal. Segundo a agência, a divulgação de projetos contemplados não representa a garantia de que eles receberão os recursos. “O próprio termo de compromisso firmando o apoio condiciona o aporte à disponibilidade orçamentária”, explica a nota. A decisão foi tomada em uma reunião da diretoria.

A Ancine complementa que, diante da realidade orçamentária e fiscal do país, resolveu priorizar o pagamento da contribuição anual do Brasil ao Programa Ibermedia, um programa de estímulo à promoção e à distribuição de filmes Ibero-americanos. “A eventual impossibilidade de pagamento da cota brasileira seria prejudicial não apenas aos proponentes brasileiros, como teria impacto sistêmico sobre todo o funcionamento do programa”, argumenta. A Ancine também diz que outra prioridade é disponibilizar recursos para que o Centro Técnico Audiovisual do Ministério da Cidadania possa continuar executando os serviços de guarda e conservação das cópias confeccionadas para o Programa de Apoio Internacional.

Arquivado Em: