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Israel proíbe a entrada de duas deputadas muçulmanas dos EUA a pedido de Trump

O presidente republicano obriga Netanyahu a vetar duas das representantes democratas mais críticas da Casa Branca

As congressistas Rashida Tlaib e Ilhan Omar, em julho.
As congressistas Rashida Tlaib e Ilhan Omar, em julho.

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Israel vetou nesta quinta-feira a entrada no país das deputadas democratas Ilhan Omar e Rashida Tlaib, as primeiras legisladoras muçulmanas na história dos Estados Unidos, ante as pressões do presidente Donald Trump. Após hesitar, o Governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu negou a elas o visto, segundo confirmou o Ministério do Interior, por causa do seu apoio declarado ao movimento Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) ao Estado judeu. Netanyahu estava contra a parede —mostrar lealdade ao seu aliado republicano na Casa Branca ou contrariar o Partido Democrata, o mais votado entre os judeus norte-americanos— ante a anunciada visita a Israel e à Palestina das representantes pelos Estados de Minnesota e Michigan, prevista para este fim de semana.

Trump, que nos últimos dias havia intensificado a pressão para que Israel vetasse a entrada das legisladoras, publicou nesta quinta-feira uma mensagem ao seu aliado através do Twitter. “Israel mostraria uma grande fraqueza se permitisse a visita das representantes Omar e Tlaib. Elas odeiam Israel e todo o povo judeu, e não há nada que se possa dizer ou fazer para que mudem de opinião”, afirmou. Por sua vez, a presidenta da Câmara dos Representantes dos EUA, a democrata Nancy Pelosi, declarou que espera que o Executivo israelense reverta a decisão, que qualificou como um “sinal de fraqueza”, em referência às declarações do presidente. As mensagens do republicano são, em sua opinião, “um sinal de ignorância e falta de respeito, e estão aquém da dignidade do cargo”.

A decisão sem precedentes de Trump de influir tão abertamente em uma nação aliada em prejuízo de membros eleitos do Legislativo de seu próprio país é de uma relevância extraordinária. Significa um desafio às normas democráticas, contra o qual se pronunciaram destacados membros de seu próprio partido e organizações judaicas no país. O Congresso Judaico Norte-Americano afirmou que, “apesar do exercício de propaganda planejado por Tlaib e Omar”, considera que “o custo nos EUA de proibir a entrada de duas integrantes do Congresso pode vir a ser ainda mais alto que o de sua alternativa.”

As duas congressistas muçulmanas pertencem à ala mais progressista do Partido Democrata e defendem o impeachment de Trump dentro da maioria que controla a Câmara Baixa. Ambas obtiveram seu assento nas eleições legislativas de novembro passado, quando a vitória democrata abriu as portas do Capitólio à geração de legisladores mais diversa da história. Tanto Omar como Tlaib foram explícitas em seu apoio à causa palestina. Tlaib, de fato, é de origem palestina (sua avó reside na Cisjordânia) e Omar é uma refugiada Somali e a primeira mulher a usar um hijab na Câmara dos Representantes.

Na quinta-feira, Netanyahu reuniu os ministros mais importantes de seu Governo para tomar a decisão de proibir a visita das legisladoras. Ambas se expressaram repetidas vezes no passado a favor da campanha do BDS, que pretende conseguir o isolamento de Israel na comunidade internacional enquanto não colocar fim à ocupação da Palestina, seguindo a estratégia aplicada há três décadas na África do Sul do apartheid.

Uma legislação aprovada há dois anos pelo Knesset, o Parlamento israelense, autoriza o Executivo a vetar a passagem na fronteira de quem tenha apoiado publicamente o BDS. Em julho, no entanto, o embaixador de Israel em Washington, Ron Dermer, anunciou que não seria negado o visto a Omar nem a Tlaib em virtude de sua condição de parlamentares dos EUA. A TV israelense antecipou nesta semana que Trump já havia transmitido a Netanyahu seu mal-estar pela decisão de autorizar, em princípio, a entrada delas no país.

“Nenhum país respeita mais os EUA e o seu Congresso que Israel, que é uma democracia aberta às críticas”, afirmou o premiê israelense após a confirmação do veto às deputadas. “Mas há uma exceção para quem tenta impor boicotes e causar prejuízos.” Netanyahu definiu a viagem das representantes democratas como “uma visita à Palestina, não a Israel”. “Seu itinerário revelava que seu único propósito era causar danos ao Estado.”

Ambas pretendiam visitar Jerusalém, Ramallah, Hebrón e Belém convidadas pela organização Miftah, liderada pela dirigente histórica da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) Hanan Ashrawi. O veto a Tlaib e Omar representa um desafio também ao Partido Democrata, cuja tradicional aliança com a comunidade judaica norte-americana sofreu com o apoio explícito ao boicote por parte das duas congressistas e com a pouca sintonia dos novos legisladores, mais esquerdistas, com Israel.

Trump e o Partido Republicano não perderam a oportunidade de colocar o dedo na ferida dos rivais. “As congressistas Omar e Tlaib são a cara do Partido Democrata e odeiam Israel!”, afirmou o presidente no Twitter, nesta quinta-feira. Diplomatas israelenses citados pelo jornal Haaretz advertiram sobre o grave dano que a decisão pode causar às relações com os democratas, “que em algum momento voltarão ao poder nos EUA”. “Será difícil que esqueçam o que aconteceu agora”, alertaram.

O Governo israelense fecha-se firmemente ante seus críticos no exterior que tomam partido pelo BDS. Os casos de ativistas das ONGs pró-palestinas rechaçados na fronteira foram até agora os mais numerosos entre os que tiveram o visto vetado. A proibição da viagem das duas deputadas norte-americanas marca um precedente nas visitas diplomáticas ao Estado judeu. Israel só deixou aberta a porta para que a congressista Tlaib possa realizar uma visita “humanitária” aos seus parentes na Cisjordânia, desde que se comprometa a não promover o boicote durante sua estada.

Tlaib nasceu em Detroit de pais palestinos. Omar chegou aos EUA proveniente da Somália como refugiada, obtendo a nacionalidade na adolescência. Ambas, junto com Alexandria Ocasio-Cortez e Ayanna Pressley, foram alvo de recentes ataques do presidente Trump. “Voltem aos seus países”, disse ele, em vez de “dizer ao país mais poderoso da Terra como deve ser governado”.