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Moro está aprendendo machismo na escola de seu chefe Bolsonaro?

Teria sido melhor que Moro tivesse aterrissado no Governo extremista de Bolsonaro para trazer novos ventos de democracia e modernidade

Sérgio Moro ao lado de Jair Bolsonaro durante transmissão ao vivo via redes sociais.
Sérgio Moro ao lado de Jair Bolsonaro durante transmissão ao vivo via redes sociais.Carolina Antunes (PR)

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Já vi publicadas, talvez mais e com maior ênfase no exterior do que no Brasil, as motivações que o ex-juiz Sérgio Moro, hoje ministro da Justiça do Governo ultradireitista de Jair Bolsonaro, apresentou para justificar o crescente número de feminicídios perpetrados no Brasil. Por ocasião, dias atrás, do décimo aniversário da lei María da Penha, de combate à violência machista, Moro afirmou: “Talvez nós, homens, nos sintamos intimidados pelo crescente papel da mulher em nossa sociedade. Por conta disso, parte de nós recorre, infelizmente, à violência física ou moral para afirmar uma pretensa superioridade que não mais existe”. Nas redes, pouco depois, escreveu: “O mundo mudou. Temos muito a aprender. Diz isso não o ministro, mas o filho, marido e pai de mulheres fortes”.

Em seguida, a antropóloga Debora Diniz, que se mudou para os Estados Unidos depois de ter recebido ameaças de morte por seu protagonismo na defesa da mulher e de seu direito a decidir sobre seu corpo e sua sexualidade, escreveu: “Ministro Moro, por favor, apague essa mensagem. É uma questão de dignidade. Os homens que ameaçam a mulher são apenas covardes”.

Há quem tenha ironizado que a ideia de Moro sobre a violência machista, segundo a qual se deveria ao fato de que a mulher adquiriu maior poder na sociedade moderna e ameaça o homem, não parece aprendida na ilustre Universidade de Harvard, onde se formou, mas na nova escola de seu chefe, o presidente Bolsonaro. Foi ele, conhecido misógino, que disse à deputada Maria do Rosário que só não a estupraria porque ela era feia e não o merecia, e que ofendeu sua filha pequena ao confessar que “deu uma fraquejada”, já que ele teria preferido mais um filho homem. Teria sido o quarto.

Parece que Moro, de repente, se esqueceu de que vive no país que aparece em quinto lugar entre os 84 países com maior taxa de feminicídios. Que de acordo com a BBC, todos os dias há uma média de 13 assassinatos de mulheres no país. Talvez Moro ignore que três quartos dos crimes cometidos por machismo são contra mulheres negras e de baixa renda. Será que também elas intimidam os homens pela consciência que de repente adquiriram sobre seu poder na sociedade?

Será que a experiência que Moro teve como filho, marido e pai o levou a ter medo das mulheres fortes como ele as qualifica? Sim, a grande maioria das mulheres que hoje são sacrificadas no altar do machismo mais primitivo são mulheres fortes, é verdade, mas com a fortaleza da dura experiência da pobreza e de serem condenadas pela cor da pele como escória da sociedade. Elas são conscientes não de seu poder, mas de terem nascido, como recitavam os velhos códigos patriarcais ainda hoje vigentes no Brasil, só para dar ao homem prazer e filhos. Essa força interior da mulher negra e pobre não é a que segundo Moro intimida hoje os homens que matam suas companheiras. Eles as matam porque, no fundo, se sentem mais fortes do que elas e protegidos pelo manto da impunidade.

Não apenas personagens de primeira ordem da Igreja, como Santo Tomás de Aquino, chegaram a duvidar de que a mulher tivesse alma e, portanto, era apenas um objeto nas mãos dos homens. Desde os tempos de Adão e Eva, no mito da criação, há mais de três mil anos, aparece claro que a culpada de todos os males sempre foi e continua sendo a mulher. No paraíso, interrogado por Deus sobre o pecado de ter comido o fruto proibido, Adão imediatamente culpou Eva: “A mulher que pusestes ao meu lado apresentou-me deste fruto, e eu comi” (Gênesis 3,11 e seguintes).

Teria sido melhor que Moro, o juiz mito, que não tremeu a mão na hora de levar à cadeia centenas de personagens do mundo político e empresarial, começando pelo carismático, amado e popular ex-presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, tivesse aterrissado no Governo extremista de Bolsonaro para trazer novos ventos de democracia e modernidade em vez de aparecer também ele hoje como discípulo aplicado na escola do obscurantismo, do machismo e do desprezo à mulher e seus melhores valores.

Se for verdade que Moro vislumbra horizontes políticos que se resolveriam nas urnas, não deveria se esquecer de que a maioria dos milhões que votam no Brasil é composta por mulheres. E não acredito que as mulheres, das menos cultas às mais modernas, tenham gostado do deslize antifeminista do ministro que minimizou a tragédia e a dor de milhares de mulheres que no Brasil são condenadas à morte por seus maridos ou ex-maridos. Não porque elas já se sintam liberadas e empoderadas e imponham intimidação e medo aos homens, mas porque continuam sendo carne de canhão fácil do poder que o homem ainda exerce sobre elas.

É muito triste.

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