Em campanha, Cristina Kirchner promete recuperar passado corrigido e melhorado para conquistar argentinos

O peronismo encerra a campanha das primárias na Argentina com um ato de reconciliação e a promessa de retorno

Cristina Fernández de Kirchner e Alberto Fernández no encerramento da campanha em Rosário.
Cristina Fernández de Kirchner e Alberto Fernández no encerramento da campanha em Rosário.AFP
Enric González
Rosário (Argentina) -

A palavra fetiche é volver (“voltar"). Como no famoso tango. "Volvé, Cristina", grita a multidão. "Quero que as pessoas voltem a ser feliz", diz ela do palanque. E a esperança da volta, da recuperação, do retorno da chefa e dos valores peronistas, alivia o frio úmido que chega do rio Paraná. O último grande ato da oposição antes das primárias, em Rosário, serve para comprovar duas coisas: que o kirchnerismo se reconciliou com vários de seus velhos inimigos, e que ela, Cristina Fernández de Kirchner, aspirante a vice-presidenta, continua gerando muito mais entusiasmo que Alberto Fernández, candidato a presidente.

Alberto Fernández teve que agradecer a Cristina por sua "confiança" ao escolhê-lo candidato (geralmente é o vice que agradece ao cabeça de chapa), e em nenhum momento arrancou tantos aplausos como quando prometeu que "nunca mais" voltaria a brigar com a chefa. O peronismo é sentimental e é feito de devoções. Cristina, odiada por metade do país, é quase objeto de culto pela outra metade. Essa segunda metade é composta por organizações como a Corrente Classista e Combativa, fundada pelo Partido Comunista Revolucionário em 1994 e muito áspera com a ex-presidenta durante seu último mandato, e a CGT-RA, dirigida pelo polêmico caudilho sindical Hugo Moyano.

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Milhares e milhares de pessoas confluem com muita antecedência ao Monumento Nacional à Bandeira, em Rosário, onde o general Belgrano ergueu pela primeira vez o pavilhão alviceleste em 27 de fevereiro de 1812. Todos se apertam em torno do palanque, junto ao Paraná, e a esta hora faz calor. A espera é longa. Entoam-se cânticos dos estádios (não há amor mais puro e gratuito que o professado a um clube de futebol) em que se substitui o nome do time pelo de Cristina. Por uma vez, os canalhas do Rosario Central e os leprosos do Newell’s, os grandes rivais locais, convivem em paz. Quando aparece um grupo denominado K-Naya, kirchneristas do Central, um grupo debate se são mais peronistas os canalhas ou os leprosos, mas a discussão é quase amistosa.

Quem vai ao encerramento de campanha dos Fernández sabe que a jornada é importante. Ninguém será eleito nas primárias de domingo, porque não há disputa em nenhum dos blocos, mas elas constituem um grande ensaio geral para a votação de outubro. E cada candidatura apresenta suas armas. A do presidente Mauricio Macri vem envolta no rechaço ao passado e hasteia a bandeira do futuro (porque o presente criado nestes quatro anos de mandato não está com essa bola toda); a de Alberto e Cristina Fernández propõe recuperar um passado corrigido e melhorado. "Que as pessoas voltem a serem felizes, a terem trabalho, que a garotada vá ao colégio para estudar, e não para comer, que os aposentados saiam da farmácia com a receita completa", propõe a ex-presidenta. "No primeiro semestre que governemos vamos mudar a Argentina", promete o candidato a presidente.

Comício de encerramento de campanha do kirchnerismo no Monumento à Bandeira, em Rosário.
Comício de encerramento de campanha do kirchnerismo no Monumento à Bandeira, em Rosário.Reuters

Antes do fim da campanha, Alberto Fernández assinou um compromisso com os governadores peronistas (os que estão e os que esperam sê-lo, como Axel Kiciloff em Buenos Aires) para desenvolver um novo federalismo. Na verdade, trata-se de exibir as forças provinciais de que o movimento desfruta. Os Fernández sabem que não ganharão em três grandes cidades, Buenos Aires, Córdoba e Mendoza, mas se sentem poderosos no resto do país.

Já escureceu e faz frio quando os numerosos protagonistas políticos sobem ao palanque. Os que sempre foram amigos e os que deixaram de sê-lo durante um tempo, mas voltaram ao lar. Alberto Fernández foi chefe de Gabinete de Cristina e depois rompeu com ela; agora encabeça a candidatura. Sergio Massa foi chefe de Gabinete de Cristina e depois rompeu com ela; agora, se o peronismo ganhar, pode ser novamente chefe de Gabinete, ou primeiro-ministro. A cerimônia da reconciliação, dentro e fora do palanque, com beijos e abraços, arranca inclusive algumas lágrimas.

"Fomos capazes de entender que era necessária a unidade de todos aqueles setores, de todos aqueles homens e mulheres que acreditam que uma Argentina diferente é possível", proclama a chefa. Nas camisetas vendidas numa feirinha improvisada, seu rosto aparece junto ao de Evita Perón, cujo status sentimental supera o de qualquer dirigente de seu campo. E mesmo com tanta influência ela deu um passo e se colocou atrás de Alberto Fernández para favorecer essa unidade. No ato final do ensaio geral, ela aparece como a atração secundária: fala antes, e insolitamente, seu discurso é breve. Mas ninguém ignora, nem em sua Frente de Todos nem no Juntos pela Mudança de Mauricio Macri, que se o peronismo ganhar quem estará de volta é ela. Alguns gostam da ideia. Outros têm pânico.

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