“Tudo o que sei é pela imprensa”, diz ‘alvo zero’ do hacker de Araraquara

Promotor Marcel Zanin Bombardi, primeiro a ter o celular invadido pelo grupo de hacker suspeito de expor mensagens da Lava Jato, conta ao EL PAÍS que ainda não foi procurado pela investigação

Promotor de Araraquara afirma que ter recebido recebido SMS suspeito do Telegram no dia 1 de junho.
Promotor de Araraquara afirma que ter recebido recebido SMS suspeito do Telegram no dia 1 de junho. Divulgação (Polícia Federal)

Se o hackeamento massivo de autoridades brasileiras no Telegram fosse uma epidemia, o promotor Marcel Zanin Bombardi seria o chamado paciente zero. Foi a partir do telefone dele que a teia de invasões a celulares começou, segundo a versão dada por Walter Delgatti Neto, um dos quatro suspeitos presos pela Polícia Federal, em seu depoimento à Justiça. Ao invadir o telefone de Bombardi, ele diz ter conseguido o contato de um procurador da República e, a partir daí, saltou de telefone em telefone, até conseguir, por um lado, acessar as mensagens de procuradores da Operação Lava Jato e, por outro, alcançar o contato do jornalista Glenn Greenwald, do site The Intercept Brasil, que publicou o conteúdo do que ele havia lido. Um caminho assustadoramente simples, segundo o relato do suspeito.

Bombardi é promotor da 3ª Vara Criminal da Araraquara, do Ministério Público do Estado de São Paulo. E processou Delgatti Neto em 2017, por tráfico de drogas e falsificação de documento. Mas foi apenas no último dia 26 de julho que ele descobriu que aquele encontro durante um processo trivial o transformara em vítima de um hackeamento em massa que escalonaria até os mais altos nomes da República —incluindo as cúpulas do Judiciário, do Congresso e os celulares do presidente Jair Bolsonaro e de dois ex-presidentes, Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff—. Soube, assim como todo o resto do Brasil, por meio da imprensa, conforme contou ao EL PAÍS nesta quarta-feira.  

Mais informações

"Tudo o que sei é pela imprensa. Me mandaram pelo WhatsApp a reportagem do Fausto Macedo, do Estadão. Fiquei surpreso, evidentemente, quando vi que meu nome consta no depoimento que ele deu à PF", relata. Nesta quarta, ele ainda não havia sido comunicado oficialmente pelas autoridades de que era uma das quase 1.000 vítimas do grupo suspeito, apesar de o ministro da Justiça Sergio Moro, também alvo do hackeamento, ter telefonado para algumas das vítimas para avisá-las, uma atitude que gerou suspeitas de possível ingerência na investigação da PF. "Até o momento não tenho nenhuma comunicação oficial de que meu celular foi invadido", completa.

Assim como Moro, o promotor também garante que não usa o Telegram "há muito tempo". Sequer tem o aplicativo instalado em seu novo celular, adquirido em fevereiro deste ano. Mas ainda assim recebeu um SMS do Telegram com um código de verificação e um link. "Achei que fosse um vírus, um golpe. Nem lembrava do Telegram e simplesmente ignorei o link. Mas tudo indicava que ele tentava buscar o código, mas não tenho a confirmação da PF com relação a isso". Ele afirma, entretanto, que o SMS foi enviado a meia-noite e 18 minutos do dia 1 de junho deste ano. Apenas alguns dias antes da série de reportagens do The Intercept ser publicada. Ele não se lembra, contudo, de ter recebido várias ligações de seu próprio número ou de um número aleatório. Era assim que, segundo a investigação, Delgatti Neto conseguia interditar o telefone da vítima e fazer com que o Telegram enviasse um código de acesso para a caixa postal, que posteriormente era acessada pelo suspeito.

Além disso, a data dificulta a compreensão da narrativa de Delgatti Neto, opina o promotor. "Se eu fui o primeiro a ser hackeado, como no dia 12 de maio [no dia das mães] ele poderia ter entrado em contato com Manuela D'Avila [conforme disse em depoimento]? Não faz sentido. Não tenho nenhum SMS antes dessa data", argumenta. Delgatti Neto também relatou que foi a partir do promotor de Araraquara que conseguiu o telefone de um procurador da República — ele diz não se lembrar quem — e chegou a outros nomes no Ministério Público Federal. "Tenho, sim, amigos procuradores em minha agenda telefônica. Não sei qual deles foi hackeado, ele vai ter que esclarecer isso também", afirma Bombardi.

Depois que leu na imprensa o depoimento de Delgatti Neto, o promotor conta ter tentando restabelecer sua conta no Telegram. "Mas estava bloqueada por uma senha. E não recordo ter colocado senha nem de verificação em duas etapas. Lá dá uma opção de resgate da senha, mas não tem nenhum e-mail cadastrado", relata. Por outro lado, o Telegram afirma que depois de seis meses a conta do usuário fica inativa e o conteúdo é apagado. A empresa não deixou claro até agora se ela pode ser reativada depois, mesmo depois de muito tempo inativa. Além disso, em nenhum momento o rapaz entrou em contato com Bombardi — algo que aparentemente aconteceu com o procurador regional José Robalinho Cavalcanti, outra autoridade hackeada, segundo relatou à revista Época. Até o dia 1 de junho não havia sinais de um possível hackeamento. "De repente ele me hackeou depois para legitimar uma versão", especula. "Não sei, não posso afirmar absolutamente nada com certeza", acrescenta.

Também garante não ter trocado de linha de telefone nem apagado arquivos do celular nem alterado qualquer aplicativo ou rede social. "Comuniquei meus superiores e a corregedoria e estou aguardando uma comunicação oficial. Estou à disposição da PF e do MPF para contribuir com as investigações, para realmente buscar a responsabilização desse cidadão nessa ação criminosa", afirma.

Primeiro processo

O contato inicial do promotor Bombardi com Delgatti Neto ocorreu anos atrás. Em 2015, a Polícia Civil encontrou 220 comprimidos de remédios controlados. Dois anos depois, o inquérito policial caiu nas mãos do promotor, que então apresentou uma denúncia por tráfico de drogas e falsificação de documento. "Os policiais tinham informações de que estaria vendendo medicamentos e receituário para compra desses medicamentos. Também foram encontrados uma guilhotina e uma resma de papel azul, da mesma cor das receitas, além de uma carteirinha de estudante de medicina da USP falsificada em nome dele", explica o promotor. Em seu depoimento à PF, o rapaz disse que era ele quem tomava os remédios. Uma versão que Bombardi também contesta: "Ele não apresentou prova alguma de que tomava medicamentos. E a quantidade encontrada chamava atenção, principalmente por ser medicamento controlado e ministrado por médicos em quantidades reduzidas".

Em janeiro 2018 ele foi considerado inocente pelo juiz, que não encontrou provas suficientes para condená-lo por tráfico de drogas. Bombardi recorreu, sem sucesso. No final, Delgatti Neto acabou sendo condenado a dois anos em regime semi-aberto apenas por causa da falsificação de documento. Segundo o promotor, o mandado de prisão foi expedido neste ano, mas em maio veio a informação de que estava foragido.

Agora, Bombardi aguarda a conclusão das investigações sobre o possível hackeamento de seu telefone. Sobre o conteúdo das mensagens entre Moro e Dallagnol reveladas pelo The Intercept, se limita em dizer que "são provas ilícitas", "produto de um crime". Diz não saber como Araraquara, uma cidade de 220.000 habitantes a pouco mais de 200 quilômetros de São Paulo capital, está lidando com a repentina atenção do noticiário nacional. "Mas as pessoas com quem converso se surpreenderam com essa situação. Todos esperavam que [o hackeamento] fosse algo de especialistas de países da Rússia ou Israel, de algum lugar com muita tecnologia. Virou até motivo de piada".