Chile

Vazamento de 40.000 litros de diesel contamina Patagônia chilena

Incidente aconteceu na Ilha de Guarello, parte do território ancestral da comunidade indígena Kawésqar, uma das culturas milenares do território

Foto distribuída pela Marinha chilena mostra funcionários trabalhando para conter o vazamento de diesel na Patagônia.
Foto distribuída pela Marinha chilena mostra funcionários trabalhando para conter o vazamento de diesel na Patagônia.Armada chilena (AP)

Cerca de 40.000 litros de diesel foram derramados na Patagônia chilena pela companhia Siderúrgica Huachipato, subsidiária do grupo CAP, por razões que não foram esclarecidas mais de 24 horas depois do incidente deste sábado no terminal da Ilha de Guarello, a 250 quilômetros a noroeste de Puerto Natales. A Marinha informou que hoje conseguiu recuperar cerca de 15.000 litros de água contaminada e que “as condições meteorológicas de ventos fortes, de mais de 100 quilômetros por hora, contribuíram para a contenção no setor sul da baía”. A respeito das repercussões na fauna local, o representante do Ministério do Meio Ambiente na região de Magallanes, Eduardo Shiappacasse, afirmou que “ainda não foi encontrado nenhum espécime afetado”, embora a organização ambientalista Greenpeace tenha alertado sobre consequências “devastadoras”.

“É uma situação extremamente grave, pensando nas águas cristalinas em que esta emergência ambiental aconteceu”, disse em um comunicado Matías Asun, diretor nacional do Greenpeace. “Devemos pensar que a região é de acesso extremamente difícil e que é uma área de grande riqueza de mamíferos marinhos, como baleias e golfinhos, que poderiam ser seriamente afetados em seu habitat devido ao desenvolvimento de atividades de mineração em lugares de equilíbrio ambiental extremamente delicado”.

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A Ilha de Guarello faz parte do território ancestral da comunidade indígena Kawéscar, uma das culturas milenares do território. De acordo com informações divulgadas pela Marinha do Chile, o incidente ocorreu nas instalações de um dos principais grupos mineiros-siderúrgicos do Chile durante a realização de uma operação de transferência de combustível. Embora tenha sido inicialmente relatado que se tratava de petróleo bruto, horas mais tarde as autoridades especificaram que havia vazado diesel, um produto refinado que “tende a desaparecer muito mais rápido”, disse Shiappacasse. Diante dessa emergência, a autoridade marítima dispôs o envio imediato de unidades ao local, “para controlar e mitigar os possíveis danos causados pela emergência na área”, informou o contra-almirante Ronald Baasch à Radio Cooperativa. Neste domingo, tanto a barcaça Elicura quanto o navio patrulheiro Marinero Fuentealba trabalharam na área para recolher a água contaminada.

Representantes da comunidade indígena de Kawésqar da cidade de Puerto Éden detalharam as características da área afetada pelo vazamento: “O arquipélago Madre de Dios, do qual faz parte a Ilha de Guarello, é lugar de nascimento de nossos anciãos nela estão lugares de grande significado para nossa comunidade de canoeiros, para quem o mar e seus recursos são constitutivos de sua cultura. Nele se encontram pinturas rupestres de nossos antepassados, de alto significado cultural e arqueológico”, disseram por meio de uma declaração pública. Acrescentam que se trata de uma área geográfica onde existem “sítios-tabu”, lugares especialmente protegidos por sua cultura, onde não se pode comer, fazer barulho e muito menos poluir, como explicou ao EL PAÍS Juan Carlos Tonko, membro de uma das famílias Kawésqar de maior tradição. “Sua transgressão se revela neste tipo de acontecimento”, continua a declaração. “Muitos desses locais protegem recursos marinhos ancestrais que resguardamos há milhares de anos. A área, além disso, é de trânsito de grandes cetáceos e lugar de colônias de leões marinhos e aves marinhas, com os quais nossa comunidade tem um estreito vínculo biocultural”.

Além de fazer um chamamento a que a autoridade marítima contenha com urgência os efeitos desse evento e à maior transparência na investigação e perseguição das responsabilidades, os representantes da comunidade indígena Kawésqar de Puerto Edén denunciam que “o derramamento de petróleo na Ilha de Guarello mostra a necessidade de que se disponha de instrumentos específicos para a realização de atividades que apresentem riscos intrínsecos em áreas do arquipélago patagônico”. “Reclamamos há anos que esses instrumentos sejam arbitrados, sem que os Governos de qualquer tendência tenham sido capazes de dispor de sua vontade política para isso”, dizem em seu comunicado, acrescentando que as consequências da poluição são “ainda imprevisíveis”. “Isso afeta nossos direitos bioculturais no território e ameaça a sobrevivência de bancos naturais, colônias de recursos e áreas de trânsito de mamíferos e aves marinhas, bases de nossa cultura e meios de subsistência ancestrais”.

Como é habitual nestes casos, o Ministério Público deve investigar o que aconteceu e a Justiça determinará as responsabilidades pelo derramamento que, entre outras consequências, afetará o trabalho dos pescadores desta região de extração.