Investidura parlamentar
Análise
Exposição educativa de ideias, suposições ou hipóteses, baseada em fatos comprovados (que não precisam ser estritamente atualidades) referidos no texto. Se excluem os juízos de valor e o texto se aproxima a um artigo de opinião, sem julgar ou fazer previsões, simplesmente formulando hipóteses, dando explicações justificadas e reunindo vários dados

A incerta sessão para a escolha do presidente do Governo espanhol

Sentar-se em uma mesa para discutir um programa de Governo se tornou arcaico

Pedro Sánchez recebe no Palácio da Moncloa o líder da aliança Unidas Podemos, Pablo Iglesias.
Pedro Sánchez recebe no Palácio da Moncloa o líder da aliança Unidas Podemos, Pablo Iglesias.Samuel Sanchez

Entrada nos 40, a idade da maturidade, a democracia espanhola não para de enfrentar novos fenômenos. Se em 2016 foi a primeira investidura frustrada e em 2018 a primeira moção de censura triunfante, agora chega a primeira sessão parlamentar para eleger presidente de Governo [primeiro-ministro] que começa sem a certeza de seu resultado final. Nesta altura, a aposta mais confiável aponta que Pedro Sánchez, do socialista PSOE, deixará a Câmara dos Deputados na próxima quinta-feira novamente no cargo. Mas por ora é só isso, uma aposta, um jogo de adivinhação.

Repetiu-se mil vezes que uma das chaves da gestão política reside em administrar bem os tempos. O caso atual está batendo recordes nesse sentido. Transcorreu quase um trimestre desde as eleições gerais, e as primeiras negociações de verdade começaram a apenas 48 horas da sessão de investidura. Tudo indica que continuarão ao mesmo tempo em que os líderes políticos se medem na arena parlamentar. É verdade que nestes meses houve outra convocação às urnas, e que as campanhas despertam tantas paixões que não são o melhor período para buscar acordos. Mas se passaram oito semanas desde as eleições locais e europeias. E nada aconteceu nesse período que possa parecer longinquamente com um verdadeiro diálogo político.

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Foram três meses de não negociação. Houve muitas reuniões dos líderes e muitas fotos deles se apertando as mãos. Assistimos a centenas de horas de entrevistas e declarações. E tudo o que emergiu é uma discussão em espiral sobre se o esquerdista Podemos deveria entrar no Governo ou, caso contrário, se os partidos de centro-direira PP e Ciudadanos deveriam abster-se.

Essas novas vicissitudes que a democracia espanhola enfrenta costumam ser interpretadas como resultado da fragmentação dos partidos. Além disso, se soma também uma nova forma de ação política em que parece que sentar-se a uma mesa, apresentar documentos e discutir programas se tornou algo arcaico. O que mais se ouve nos dias de hoje são palavras como xadrez e relato, dois dos mantras dos assessores de comunicação. A política entendida como um jogo nu e cru de forças cujo único propósito é construir um discurso de sucesso para o consumo da audiência.

A batalha não é mais jogada em longas reuniões de gente armada de planos e estatísticas. O xadrez político do século XXI se dirime nas redes e nos estúdios de televisão. Um caso exemplar aparece nas versões dadas pelos protagonistas de uma das últimas conversas telefônicas entre Sánchez e Iglesias. Se for para acreditar em ambos –e nenhum desmentiu a versão do outro–, nem Iglesias teria dito a Sánchez que se dispunha a convocar uma consulta de suas bases nem Sánchez teria comentado com Iglesias que estava preparando uma oferta para incluir no Governo ministros do Podemos “com perfil técnico".

O lógico agora seria pensar que o tempo de xadrez acabou e que, na hora limite, é preciso começar a definir a cédula. Mas a votação definitiva não será antes de quinta-feira. Ainda faltam muitos tuítes e muitas tertúlias televisivas para preencher. Muito relato por construir.

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