Eleições municipais e das comunidades autônomas

Socialistas se impõem nas eleições espanholas, mas a direita se fortalece em Madri

O PSOE confirmou seu domínio nas eleições europeias, municipais e regionais deste domingo na Espanha. PP confirmou sua queda, mas evitou ser ultrapassado pelo Cidadãos

Eram as eleições definitivas, pois, somadas às eleições gerais de um mês atrás, colocavam em jogo praticamente todo o poder na Espanha pelos próximos quatro anos, nos quais não haverá nenhuma eleição nacional. E as urnas alteraram mais a situação do que se esperava.

Estas eleições consolidaram a hegemonia do PSOE, o grande vencedor da noite, mas deixaram o PP melhor do que entrou. Não só porque, de surpresa, poderá governar a cidade e a região de Madri, mas sobretudo porque poderá reivindicar a liderança da oposição em detrimento do Cs, que fracassou com clareza em sua tentativa de encabeçar o bloco da direita. Pablo Casado, líder do PP, aproveita assim a divisão da esquerda em Madri para salvar os móveis e frear as críticas. A aposta pessoal de Casado, Isabel Díaz Ayuso, apesar das críticas recebidas durante a campanha, será muito provavelmente a nova presidenta da Comunidade de Madri.

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Casado compareceu eufórico perante seus seguidores. Seu resultado em números é ruim, mas governará Madri e pode salvar praças importantes como Castela e Leão e Múrcia. E a partir delas tentará reconstruir o tradicional partido conservador. De Madri, um lugar com uma enorme influencia midiática, poderá reforçar sua ofensiva contra Sánchez. “PP só há um, e os espanhóis decidiram votar no original. Nossos compatriotas decidiram que lideremos a oposição e sejamos uma alternativa para voltar ao Governo o quanto antes. Somos o grande partido da Espanha. Há PP para muitas décadas”, clamou Casado, num ambiente muito diferente do da funesta noite das eleições gerais.

O giro mais importante da noite não ocorreu na cabeça, que é claramente do PSOE em quase toda a Espanha, a sim na cauda. O Podemos levou uma surra acima das expectativas, e seu líder, Pablo Iglesias, fica exposto às críticas pelo fiasco tanto na Prefeitura como na Comunidade de Madri. E isso debilita claramente sua posição na hora de reivindicar a entrada no Governo de Pedro Sánchez, seu grande objetivo. Mesmo assim, os 42 assentos do Podemos no Congresso dos Deputados continuam sendo imprescindíveis para a posse de Sánchez, e Iglesias se aferrará à ideia de que, apesar do mau resultado, seus deputados serão necessários para governar nas Ilhas Baleares, Astúrias e La Rioja, e podem sê-lo também em Aragão. O Podemos, grande perdedor da noite por sua queda generalizada, superior à das eleições gerais, terá também votos importantes em dezenas de Câmaras Municipais.

A derrota de Manuela Carmena em Madri se agravou pela queda da outra grande referência das chamadas Prefeituras da mudança, Ada Colau, que perdeu por uma diferença mínima para a Esquerda Republicana da Catalunha (ERC) em Barcelona. O bloco da direita também obteve a maioria em outra cidade simbólica, Zaragoza, enquanto a esquerda conservou a primazia em Valência. Os socialistas mantêm suas praças-chaves nas eleições regionais – Castela-La Mancha, Extremadura, Baleares – e aumentam sua vantagem em todas elas. Além disso, obtêm um novo Governo, o de La Rioja, onde também precisarão do Podemos. Mas não está claro ainda se governarão em Aragão.

Carmena, que teve um duro enfrentamento com Iglesias e viu o líder de Podemos apoiar na última hora Carlos Sánchez Mato, o candidato da Esquerda Unida na capital, que não obteve representação – embora nem sequer com todos os seus votos se teria evitado que a prefeitura voltasse às mãos da direita – resignou-se na última hora. “Ganhamos, mas não vamos poder governar. Não é o resultado que esperávamos. Mas esta cidade continuará sendo progressista, solidária”, clamou, entre olhares desolados de seus seguidores. Iglesias foi o único dos grandes líderes que não compareceu publicamente para analisar os resultados.

A batalha pessoal entre o líder de Podemos e Íñigo Errejón, que foi seu amigo íntimo e cofundador dessa agremiação esquerdista, terminou com uma vitória clara deste último – 20 assentos na assembleia da Comunidade de Madri, contra 7 de Isabel Serra, a candidata de Iglesias –, mas foi uma luta inútil e suicida, porque no caminho se perdeu a capital, e Errejón ficará sozinho como líder do segundo partido da oposição na Comunidade.

Sánchez, consciente desses dados ruins do Podemos, apressou-se em fazer um apelo ao outro lado do Parlamento, ao Cs, a formação com a qual somaria 180 deputados e teria claramente a maioria absoluta. Esse acordo parece inviável neste momento, porque Albert Rivera prometeu de todas as maneiras que nunca apoiará o PSOE. Mas Sánchez lhe pediu que aproveite este momento para “romper o cordão de isolamento” e se aproximar de novo dos socialistas.

É um gesto muito evidente, talvez sem consequências reais – o Cs se apressou em anunciar que governará em Madri com o PP e Vox –, mas que marca uma clara guinada no discurso de Sánchez e poderia abrir uma nova onda de pressão sobre o Cs para que reveja essa decisão de se fechar a qualquer acordo com os socialistas.

Sánchez apelou diretamente ao Cs: “O PSOE é de longe a primeira força política do país. Os espanhóis compartilham as receitas que estamos propondo no Governo da Espanha. Onde o PSOE não puder governar será porque a direita pactua com a ultradireita. Será uma responsabilidade do PP e do Cidadãos. Não será entendida na Europa por partidos liberais e conservadores. Apelo à sua responsabilidade. É hora de que se levante o cordão de isolamento em torno do PSOE. Devemos isolar a ultradireita”, clamou o presidente do Governo. Rivera não se deu por aludido, mas a pressão aumentará nos próximos dias.

O PSOE obteve um resultado impensável há apenas um ano, quando ainda não tinha ocorrido a moção de censura a Mariano Rajoy e o partido ocupava a quarta colocação em todas as pesquisas. Ganhou com clareza as eleições europeias, com 32%, uma cifra superior inclusive à das eleições gerais, e abriu 12 pontos de vantagem sobre o PP (20%) que também aqui manteve o segundo lugar sobre o Cs, que ficou nada menos que a oito pontos dos populares (12%), um golpe muito duro para a formação de Rivera. O Podemos também desabou para 10%, muito abaixo de 14,3% que obteve nas eleições gerais de 28 de abril.

O Vox aumenta seu poder

Nas comunidades autonômas, o domínio do PSOE foi muito claro, embora não haverá uma queda de poder significativo se o Cs se mantiver no bloco da direita. Os socialistas conseguiram ser o primeiro partido em todas as regiões que elegeram seus Governos neste domingo, exceto Cantábria e Navarra. Isto quer dizer que ganhou inclusive em lugares emblemáticos da direita, como Castela e Leão e Múrcia, mas o novo cenário poderá não lhe bastar para governar por lá.

O Vox teve um resultado difícil de analisar. Seus dados são medíocres, perdeu a metade dos votos em relação a um mês atrás em praças importantes e se esvaziou nas europeias, mas continuará aumentando seu poder se o PP e o Cs decidem pactuar com eles como fizeram na Andaluzia. A direita não pode governar sem o Vox nem em Madri nem em muitos municípios importantes, o que dará um poder inédito à formação de extrema direita. Enquanto isso, os nacionalistas e independentistas obtiveram excelentes resultados nas europeias e nas municipais, outra das tendências vistas em 28 de abril.

A Espanha deste domingo se parece muito com a de quatro semanas atrás, mas a resistência da direita em Madri mudou o ambiente de uma noite que poderia ter sido histórica para a esquerda e não foi.

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