PM foi deslocada para monitorar pedido de casamento feito por soldado gay

Documento comprova a presença de policiais disfarçados durante pedido. Corporação havia negado que ato fosse feito na Parada LGBT+ e modificou escala do policial

Prior pediu o namorado em casamento no domingo (23/6), perto da base onde trabalha, na região da Luz.
Prior pediu o namorado em casamento no domingo (23/6), perto da base onde trabalha, na região da Luz. Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

Mais informações

Leandro Prior, 28 anos, queria pedir o namorado, Elton da Silva Luiz, 26, em casamento durante a 23ª Parada do Orgulho LGBT+, na Avenida Paulista, em São Paulo. Na semana anterior à Parada, celebrada neste domingo (23/6), o soldado solicitou à corporação do governo de João Doria (PSDB) o uso do fardamento durante o pedido, como outros policiais já fizeram quando pediram às mãos de suas namoradas – conforme fotos postadas pelo próprio Leandro em suas redes sociais. No entanto, para Prior, o uso da farda foi negado. Mais: policiais disfarçados espionaram o policial (leia o documento aqui) para comprovar que ele faria o pedido em seu serviço.

Além da proibição, Leandro teve outra surpresa com alteração de sua escala de trabalho de dias pares para os ímpares nesta semana. Segundo ele, não houve um aviso prévio dos superiores ou explicação específica. Assim, ele estava escalado para trabalhar no dia planejado para fazer o pedido, mesma data em que ocorreria a Parada LGBT+ na Avenida Paulista, local pretendido para o realizar o ato. A alternativa encontrada para seguir com o combinado foi fazer o pedido próximo à base em que trabalha, na região da Luz, centro da capital paulista.

Apesar dos empecilhos, Leandro pediu Elton em casamento. Ele se abaixou, de joelhos, olhou para namorado e começou. Recebeu um tímido sim e ambos, tremendo de nervosismo e ansiedade, colocaram as alianças de noivado. O local não era a Avenida Paulista, em meio a tantos outros LGBT+, mas o Largo Coração de Jesus. Eles recebiam os olhares de quem jogava futebol na quadra da praça, de quem caminhava pelo local e também de outros policiais, mas não os que trabalham junto de Prior na base ali posta. Eram policiais do setor de inteligência da PM que estavam disfarçados para verificar se Leandro concretizaria o pedido, contrariando os movimentos da Polícia Militar.

Nervosismo dos dois não os impediu de trocar as alianças.
Nervosismo dos dois não os impediu de trocar as alianças.Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

Um documento obtido pela Ponte mostra que, de fato, policiais disfarçados acompanhavam o pedido do outro lado da rua, como Leandro suspeitava. Um veículo descaracterizado de placa FLT-2841 acompanhou a ação desde a chegada da imprensa até o pedido em si, gerando a desconfiança de que nele havia policiais P2 (policiais disfarçados com trajes civis) dentro – não foi possível identificar quantos ocupantes. Menos de cinco minutos após Prior pedir Elton em casamento, o veículo partiu. Consultada a placa do carro, de modelo Cobalt, no sistema Denatran, não há informações sobre o veículo, seja sua situação legal (queixa de roubo, por exemplo) ou o proprietário (seja particular ou comercial).

O documento relata a ação de Prior como “fato envolvendo policial militar de serviço”, entregue com fotos e escala em anexo. “Comunico a V. S.ª que por volta das 09h20min de 23JUN19, o Sd PM Leandro Barcellos Prior de serviço, pertencente ao efetivo da Nova Luz, realizou o pedido de casamento ao seu companheiro, próximo à base Largo Coração de Jesus, tal ato foi alvo de registro por alguns fotógrafos descaracterizados”, diz o comunicado, assinado pelo 2º tenente Guilherme Minoru Hakamata de Souza. Ele fora avisado pelo sargento Marcos Lopes de que “o militar [Leandro Prior] convocaria a imprensa e seu companheiro para realização do evento”.

O documento também comprova que a ação foi realizada pela agência de inteligência da PM. O tenente Hakamata explica que ele e o sargento Marcos Lopes informaram a Prior de que ele não estaria autorizado a fazer o pedido “em razão do militar estar em serviço”. “Por volta das 09h26min, a agência de inteligência do 13º BPM/M (Batalhão de Polícia Militar Metropolitano), informou que o Sd PM Prior realizou o ato”, diz o registro, enviado aos superiores da PM, com mensagem de rodapé. “Nós, Policiais Militares, sob a proteção de Deus, estamos compromissados com a defesa da vida, da integridade física e da dignidade da pessoa humana”, consta no arquivo oficial da SSP (Secretaria da Segurança Pública) de São Paulo, comandada pelo general João Camilo Pires de Campos nesta gestão Doria.

As informações foram passadas para às seguintes autoridades policiais: coronel Ronaldo, subcomandante do CPA/M-1 (Comando de Policiamento de Área Metropolitano 1); tenente coronel Vladimir, comandante do 13º BPM/M; capitão Forner, supervisor Regional; capitão Rodrigo, comandante de Cia Tática; 2º tenente Silvio, Coordenador Nova luz; 2º tenente Dagner, oficial PPJMD (Plantão de Polícia Judiciária Militar e Disciplinar), conforme consta no arquivo. “Encaminho a V.S.ª para conhecimento e demais providências”, finaliza o documento.

Em mensagem enviada pelo seu advogado, o soldado disse à Ponte, depois da negativa na quinta-feira (20/6), que se esforça para “acreditar que tal negativa não tenha sido motivada por homofobia". A PM argumentou que a recusa estava baseada nas regras de utilização dos uniformes da corporação, normas que proibiam tal uso em manifestações populares. Exemplificaram a própria Parada LGBT+ e a Marcha para Jesus como eventos de grande porte realizados em São Paulo na última semana.

Ameaçado de morte por ‘irmãos de farda’

Não é a primeira vez que a corporação se mostra contrária à Prior. Há um ano, no dia 21 de junho de 2018, o soldado virou alvo de ataques homofóbicos e ameaças de morte após ser filmado dando beijos em um homem no metro de São Paulo. A reação foi a repreensão e o ódio. O governador do estado na época, Márcio França (PSB), declarou que a farda “deveria ser respeitada”.

O sargento da Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar) Renato Nobile chamou Leandro de “desgraçado, canalha safado. Desonra para a minha corporação. Esse tinha que morrer na pedrada!”, conforme publicou em seu perfil no Facebook – posteriormente, Nobile disse que a página havia sido hackeada. Nas ruas, Prior também ouviu de um homem em um veículo Peugeot 206 preto: ” Seus viados, vão tomar no cu. Vocês vão morrer!”.

O soldado denunciou as ameaças na Ouvidoria da Polícia de São Paulo. Ele permaneceu afastado do serviço por questões psicológicas e, desde o caso, sofre com crises de ansiedade. “A PM vai ter que me engolir. A máscara da homofobia da instituição caiu. Hoje ela mostra a sua verdadeira faceta, a do preconceito, do ódio, a da não aceitação”, declarou o policial, em entrevista à Ponte.

O ouvidor da Polícia, Benedito Mariano, colheu o depoimento de Prior e encaminhou à Corregedoria da PM. “Vou encaminhar e vamos acompanhar. As ameaças são de conotação homofóbica. Penso que a Corregedoria da PM tem que dar atenção e acompanhar especialmente este caso”, disse Mariano à Ponte na oportunidade, explicando ter sido a primeira queixa deste tipo desde que retomou os trabalhos no órgão, em janeiro de 2018.

Segundo Leandro, nenhum procedimento da Polícia Militar (incluindo a Corregedoria), Polícia Civil ou da Ouvidoria resultou em conclusões, seja pelas ameaças sofridas por civis ou pelos próprios policiais militares. O praça move processos pelo que considerou falta de suporte por parte do Estado ao risco que sofreu com as ameaças e a exposição.

A Ponte questionou a PMESP (Polícia Militar do Estado de São Paulo) e a SSP (Secretaria de Segurança Pública) sobre as motivações da presença de policiais disfarçados durante o pedido. Também questionamos a mudança na escala de trabalho do soldado Leandro Prior, mas até o momento de publicação dessa matéria não obtivemos uma resposta oficial.

Esta matéria foi originalmente publicada no site da Ponte Jornalismo