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Rebelião em presídio deixa ao menos 29 mortos e 19 feridos na Venezuela

Armados com granadas, os presos exigiam mais tempo para as visitas familiares

Captura de tela de um video onde aparece um homem que foi parado e duas mulheres que estavam de visita.
Captura de tela de um video onde aparece um homem que foi parado e duas mulheres que estavam de visita.

Pelo menos 29 presos morreram e 19 policiais ficaram feridos nesta sexta-feira, 24, em um confronto numa cadeia da região central da Venezuela. O motim começou de madrugada na sede do Comando Policial de Acarigua, no Estado de Portuguesa, a cerca de 600 quilômetros de Caracas, e durou várias horas. Os detentos enfrentaram policiais do município de Páez e agentes das Forças de Ações Especiais (FAES) da Polícia Nacional Bolivariana, um corpo conhecido pela dureza de seus procedimentos.

No Comando Policial de Acarigua, presos de alta periculosidade convivem, amontoados, com detentos que cometeram crimes leves e aguardam sentença. As primeiras informações indicam que ali se vivia um ambiente de enorme tensão desde o Dia das Mães, semanas atrás, quando as autoridades negaram aos internos uma ampliação das visitas familiares, íntimas e pessoais durante todo o fim de semana.

A tensão entre os carcereiros e os presos aumentou até que um dos líderes do presídio foi assassinado em meio a uma discussão. Houve então um forte tiroteio entre os agentes e os detentos, que estavam armados com granadas.

As crises penitenciária e judicial têm sido o alimento perfeito para o aumento do crime, um problema social que se agravou especialmente na era de Hugo Chávez e Nicolás Maduro. Pelo menos três rebeliões importantes e maciças de presos – com um doloroso saldo de vítimas – ocorreram na Venezuela entre 2017 e 2019. No Estado de Amazonas, 39 pessoas morreram num duro enfrentamento com a Guarda Nacional, em 2017, e 69 perderam a vida em outro protesto contra as condições de reclusão na sede da Polícia Estadual de Carabobo, outra instalação que não pode ser catalogada como um presídio habitual.

Humberto Prado, do Observatório Venezuelano de Prisões, responsabilizou diretamente a ministra de Assuntos Penitenciários, Iris Varela, por “ter transformado calabouços e postos policiais em prisões”. “Até quando os presos continuarão morrendo na Venezuela nas mãos dos que têm responsabilidades de Estado?”, questionou. Varela é membro da Direção Nacional do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) e um de seus porta-vozes mais beligerantes. Sob a sua gestão, algumas cadeias venezuelanas passaram de novo para o controle estatal, já que antes eram tuteladas pelos próprios presos. Também se instalou entre eles uma rígida disciplina militar, com instrução sobre movimentação em situações de combate, uniformes e trabalho ideológico. Durante o Governo de Chávez, a crise dos presídios se agravou rapidamente, até o ponto em que muitos deles acabaram controlados pelos detentos, fortemente armados. Varela foi acusado de manter uma relação ambígua e complacente com o mundo do crime e de uma suposta amizade com alguns dos bandidos mais conhecidos do universo penitenciário venezuelano – os chamados “pranes” –, além de usá-los para formar a última linha de defesa da revolução bolivariana.