Guerra comercial

China responde aos EUA com um aumento de taxas alfandegárias

Resposta na guerra comercial aberta com Washington será aplicada a partir de junho. Reação repercutiu no Brasil, elevando o dólar a quase 4 reais e derrubando a Bolsa

Contêineres com mercadorias da Ásia, na sexta-feira no terminal de carga de Long Beach (Califórnia).
Contêineres com mercadorias da Ásia, na sexta-feira no terminal de carga de Long Beach (Califórnia).MARK RALSTON (afp)

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A China respondeu aos EUA. O Governo do país asiático irá aumentar as taxas alfandegárias de 10% a 25% de 5.140 produtos norte-americanos no valor de 60 bilhões de dólares (240 bilhões de reais). A medida chega como represália porque Washington aumentou na sexta-feira seus impostos a uma lista de produtos da China no valor de 200 bilhões de dólares (795 bilhões de reais). As novas taxas chinesas foram anunciadas 100 minutos após Donald Trump publicar no Twitter que aconselhava a China a não responder ao aumento ativado três dias atrás.

“Só irá piorar as coisas”, afirmou o republicano na segunda-feira. Os EUA aplicam impostos de 25% à metade dos produtos importados chineses, no valor de 250 bilhões de dólares (995 bilhões de reais), e avalia dobrar seu desafio contra Pequim com medidas para taxar bens aos 300 bilhões de dólares (1,20 trilhão de reais) restantes.

O aumento das taxas chinês entrará em vigor em 1º de junho, aproximadamente a mesma data em que começará a ser efetivamente aplicado o norte-americano: quando chegarem a portos dos EUA os produtos chineses incluídos na medida e que zarparam após 10 de maio.

Como indicou na segunda-feira o Ministério das Finanças em seu site, a medida anunciada representa “uma resposta ao unilateralismo e ao protecionismo”. “A China espera que os Estados Unidos voltem ao caminho correto de negociações bilaterais de comércio, colaborem com a China e se encontrem em um ponto intermediário com a China, para que seja alcançado um acordo mutuamente benéfico e que convenha aos dois países, sobre uma base de igualdade e respeito mútuo”.

A China já afirmou no fim de semana, através de seu vice-primeiro-ministro e responsável pelas negociações comerciais com os EUA, Liu He, que não surtirão efeito as medidas de pressão de Washington para tentar obrigá-lo a aceitar um acordo em condições que considera lesivas à sua soberania. Na segunda-feira o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Geng Shuang, reiterou a mensagem na entrevista coletiva diária: Pequim “nunca se renderá à pressão externa”, afirmou. “Temos a determinação e a capacidade de defender nossos interesses legítimos”.

Geng Shuang só repetiu o que vem sendo a mensagem de Pequim desde que Trump anunciou no dia 5 que aumentaria as taxas se não chegassem a um acordo antes de sexta-feira passada. Pequim, ainda que afirme que as conversas continuam de pé e a ideia é tentar chegar a um pacto o quanto antes com os Estados Unidos, frisa que não assinará nenhum documento que ache prejudicial aos seus interesses. Que sua economia pode aguentar os efeitos adversos dos impostos norte-americanos. E que, evidentemente, não fará nenhum gesto que possa dar a impressão de que seu presidente, Xi Jinping, tenha cedido ao presidente norte-americano.

A imprensa oficial chinesa utilizou na segunda-feira uma mensagem de resistência e desafio. O efeito que as novas taxas terão, disse a televisão estatal CCTV, pode ser “perfeitamente encaixado”. “Não há problema; a China saberá transformar a crise em uma oportunidade e utilizá-la para testar suas capacidades, para tornar o país ainda mais forte”.

Provocação

Com essa atitude mental já em andamento, as palavras de Trump no Twitter soaram na segunda-feira como uma provocação aos ouvidos chineses. “Eu digo abertamente ao presidente Xi Jinping e a todos os meus amigos na China que a China será muito prejudicada se não chegarem a um acordo, porque as empresas serão obrigadas a sair de lá”, publicou.

Se em Zhongnanhai, o complexo residencial da cúpula de poder chinesa, alguém ainda defendia continuar calibrando a resposta às taxas norte-americanas antes de anunciá-la, essas declarações significaram o empurrão final para tornar públicas as medidas.

A guerra comercial retornou na semana passada com o anúncio de Trump de que imporia novas taxas alfandegárias, quando os mercados davam como certo que os dois países estavam prestes a fechar um pacto que colocaria fim às suas diferenças comerciais. Mas, de acordo com a agência Reuters, Pequim devolveu a Washington o rascunho do acordo com enormes rasuras. Todas as que falavam sobre mudanças em sua legislação para garantir as reformas exigidas pelos Estados Unidos, sobre assuntos como a proteção da propriedade intelectual e a cessão obrigatória de tecnologia. A China, que considera essas exigências uma ingerência em sua soberania, negou que tenha mudado sua posição no último momento, mas afirma que o que quer é um documento “equilibrado” em relação à “dignidade” dos dois países.

Após a imposição de novas taxas norte-americanas na sexta-feira, a rodada de conversas entre os EUA e a China, a número 11, terminou em Washington sem data para uma próxima reunião. Mas foi acertado que será realizada em Pequim. O assessor econômico da Casa Branca, Larry Kudlow, indicou que Trump e Xi Jinping podem manter uma reunião bilateral em Osaka (Japão), durante a reunião do G20 que ocorrerá na cidade no final de junho.

Questão interna

Trump utiliza o conflito para fazer política interna. “A China se aproveita dos EUA há tantos anos que tem muita vantagem”, repetiu citando o “trabalho” dos presidentes que o precederam na Casa Branca. As mensagens também fazem referência ao ex-vice-presidente Joe Biden, que lidera as pesquisas entre os democratas para as eleições de 2020.

O republicano acha que a tática de Pequim é esperar que os democratas ganhem as eleições. As publicações no Twitter sobre o litígio também se referem constantemente à agricultura, o setor mais afetado até agora pelo aumento nos impostos alfandegários. Trump promete ajuda. E para os consumidores diz que podem “escapar das taxas” se em seu lugar comprarem “produtos dos EUA”.

A incerteza prejudicou Wall Street. O índice Dow Jones iniciou a semana com quedas, com a Apple, Boeing e Caterpillar entre as mais castigadas, pelo efeito da guerra comercial em empresas que fabricam e compram da China. No Brasil, o dólar se aproximou dos 4 reais, com alta de 0,89% (fechou o dia vendido a 3,979 reais) e o índice Ibovespa fechou em queda de 2,69%.

Cronologia da guerra comercial

Janeiro de 2018. Os EUA impõem taxas alfandegárias sobre os painéis solares e lavadoras importadas do mundo inteiro.

Março de 2018. Os EUA impõem taxas alfandegárias às importações de aço e alumínio do mundo inteiro.

Abril de 2018. A China responde com a imposição de taxas alfandegárias a 120 tipos de produtos norte-americanos avaliados em 3 bilhões de dólares (11 bilhões de reais).

Julho de 2018. Washington impõe novas taxas alfandegárias a bens chineses em produtos avaliados em 34 bilhões de dólares (135 bilhões de reais). Pequim responde com tarifas sobre produtos dos EUA equivalentes a outros 34 bilhões de dólares.

Agosto de 2018. Os EUA anunciam taxas alfandegárias sobre mais produtos chineses, avaliados em 16 bilhões de dólares (63 bilhões de reais). Pequim contra-ataca com taxas alfandegárias equivalentes a outros 16 bilhões de dólares sobre bens importados dos EUA.

Setembro de 2018. Washington acrescenta impostos de 10% sobre uma lista de produtos da China no valor de 200 bilhões de dólares (795 bilhões de reais). Pequim responde com taxas alfandegárias sobre bens norte-americanos avaliados em 60 bilhões de dólares (240 bilhões de reais).

Maio de 2019. A Casa Branca decide aumentar para 25% as taxas alfandegárias impostas à lista de produtos aprovada em setembro. Pequim anuncia represálias em 13 de maio, com um aumento de impostos de 10% a 20-25% sobre produtos avaliados em 60 bilhões de dólares e já taxados em setembro.