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México acaba com política de portas abertas e detém quase 400 imigrantes a caminho dos EUA

Presidente López Obrador justifica a necessidade de “ordenar” a mobilidade dos migrantes: “Não queremos que tenham passagem livre, por questões de segurança”

imigrantes EUA
Policiais detêm um grupo de migrantes nesta segunda-feira no sul do México. REUTERS
Cidade do México

O Governo mexicano defendeu nesta terça-feira sua política de contenção frente ao fenômeno migratório, depois da detenção de 371 centro-americanos que se dirigiam aos Estados Unidos. O episódio confirma o endurecimento da postura da Administração e a guinada em relação à política de portas abertas anunciada no começo do ano. Apesar das críticas de certas organizações da sociedade civil, o Executivo do presidente Andrés Manuel López Obrador insistiu na necessidade de “regular” o crescente fluxo de pessoas que cruzam o país em direção ao vizinho do norte – 300.000 nos últimos três meses, segundo dados oficiais. “Não queremos que tenham passagem livre, não só por questões legais, mas também por questões de segurança”, disse o presidente em entrevista coletiva pela manhã.

Agentes da Polícia Federal e do Instituto Nacional de Migração (INM), o organismo encarregado de administrar as entradas, encurralaram na tarde da segunda-feira uma caravana integrada por 3.000 migrantes irregulares, em sua maioria hondurenhos, que caminhavam por uma estrada no município de Pijijiapan, no Estado de Chiapas (sul do México). Algumas pessoas tentaram escapar pelos morros, enquanto outras foram obrigadas a subir nos ônibus governamentais. Os detidos, entre os quais há crianças, foram levados a centros de internamento enquanto esperam a “regularização” da sua permanência.

A operação provocou momentos de tensão. Alguns migrantes denunciaram agressões por parte das forças de segurança, enquanto as autoridades defenderam sua atuação e acusaram alguns centro-americanos de serem os agressores. “Sim, houve agressão com pedras por um grupo destas pessoas, e por isso se solicitou o apoio de mais pessoal da Polícia”, afirmou nesta terça-feira o comissário do INM, Tonatiuh Guillén, que procurou minimizar o episódio, defendendo o caráter cotidiano de operações desse tipo. “Fazemos isso todos os dias. São iniciativas de controle migratório.”

Apesar do discurso de normalidade, essa detenção maciça é a prova mais contundente até agora da mudança de postura do Executivo na matéria. Em janeiro, as autoridades começaram a conceder vistos humanitários aos recém-chegados, uma permissão renovável de um ano que permitia aos migrantes trabalharem em qualquer parte do país e terem acesso aos serviços sociais. A medida foi comemorada pelas ONGs como um avanço em relação à política de pulso firme adotada pelo Governo do ex-presidente Enrique Peña Nieto para conter as caravanas, em outubro passado.

Entretanto, a crescente pressão do Governo dos EUA sobre o México e a recente ameaça de Donald Trump de fechar a fronteira se o fluxo migratório não diminuir obrigaram a uma reviravolta. A secretária do Governo [ministra do Interior], Olga Sánchez Cordero, anunciou no fim de março um “plano de contenção” perante a escalada no número de chegadas. Além disso, anunciou limites à emissão de vistos humanitários, dando prioridade às mulheres, crianças e maiores de 65 anos. Em vez dos vistos, o Governo agora promove o chamado “cartão de visitante regional”, muito mais restrito: limita a mobilidade dos migrantes a quatro Estados do sul do México e os afasta, portanto, de seu objetivo de cruzar a fronteira com os EUA.

A nova política transformou o sul do país em um depósito e superou a capacidade da infraestrutura de acolhida. “Preferimos atender a população da América Central no sul e sudeste [do México]”, defendeu López Obrador. Ramón Verdugo, membro da ONG Todo por Eles, denuncia a lentidão dos procedimentos e a “fechamento” do Governo federal. “Argumentam que os escritórios regularizarão os trâmites, embora depois lhes neguem o atendimento, ou os detenham e deportem”, afirma o ativista.

Há mais de 5.000 migrantes retidos nas instalações do Instituto Nacional de Migração no Estado de Chiapas, segundo cifras do próprio Instituto, à espera da tramitação das autorizações. A Comissão Nacional de Direitos Humanos denunciou as condições de “aglomeração” em que se encontram e pediu garantias de “uma estadia digna”. “Os centros estão superlotados e são insalubres; os migrantes não estão recebendo a assistência médica e alimentar necessária”, concorda Ramón Verdugo.

No frente diplomática, o México tenta aparar arestas com os EUA. Depois de salientar a importância das relações bilaterais, o secretário de Relações Exteriores, Marcelo Ebrard, anunciou nesta terça-feira uma visita a Washington no começo de maio, onde tratará do tema migratório. Além do plano de contenção que o México está pondo em prática, López Obrador insistiu na necessidade de investir na região centro-americana, e o apoio dos EUA é uma peça-chave dessa estratégia: “A proposta de fundo que estamos fazendo ao Governo dos Estados Unidos é que se apoie com urgência o desenvolvimento nos países irmãos da América Central”, declarou.

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