Julian Assange

Assim o Equador perdeu a paciência com Assange

Governo acusa fundador do Wikileaks de descumprir os protocolos e interferir na política externa. “Ultrapassaram um limite muito grave”, afirma a ministra do Interior

A ministra do Interior, María Paula Romo, e o ministro de Exteriores de Equador, José Valência, nesta quinta-feira em Quito.
A ministra do Interior, María Paula Romo, e o ministro de Exteriores de Equador, José Valência, nesta quinta-feira em Quito.

O relato da expulsão de Julian Assange da Embaixada do Equador em Londres é a história de uma quebra de confiança que começou há um ano e meio, e o reflexo de uma profunda guinada política no país andino. O fundador do Wikileaks obteve asilo em 2012, dois meses depois de se refugiar na sede diplomática. Foi concedido no Governo de Rafael Correa, que tinha como vice o atual presidente, Lenín Moreno, hoje seu maior rival. A decisão sobre Assange ocorre depois de meses de tensões, descumprimentos do protocolo combinado com as autoridades e a suspeita de que suas atividades significavam um risco para a segurança do Estado.

“Ultrapassaram um limite muito grave poucos dias atrás”, disse a ministra do Interior, María Paula Romo, em conversa por videoconferência com o EL PAÍS horas antes da detenção dele. A lista de acusações é longa, começando pela intromissão em assuntos de política internacional através dos vazamentos da sua organização. Nesta quinta-feira, 11, acrescentou que “a retirada do asilo é uma competência soberana do Equador e também é a consequência do descumprimento reiterado das normas de asilo e de mínima convivência”. A Assembleia Nacional apoiou a decisão após escutar a relação do chanceler “sobre todas as faltas cometidas por Assange nestes sete anos”. A ministra alega, além disso, que o Executivo conta com “informação de que hackers vinculados ao Wikileaks” vivem no Equador e estão vinculados a ações que não só afetam a segurança do país como também de outros Governos.

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Como pano de fundo deste episódio se situam também os ataques contra Moreno empreendidos por seu antecessor, Correa, alvo de mais de 20 investigações judiciais abertas. Ele reside em Bruxelas e se recusa a voltar ao seu país para ser julgado, pois se considera vítima de uma perseguição. “O Wikileaks incluiu em suas publicações exatamente esses argumentos, essas alegações de Correa, de um suposto escândalo do presidente. Esses vínculos levavam a um site onde se encontram publicadas as fotos pessoais da vida cotidiana do presidente e sua família. Não são uma prova de nada, não são documentos oficiais”, afirmou Romo antes da expulsão.

“Neste momento o Governo equatoriano e o presidente são alvo de uma grande campanha, uma campanha de ataque à reputação que também está orquestrada a partir do Wikileaks”, insiste Romo em referência a um caso, conhecido como Ina Papers, que vincula Moreno a uma conta no Panamá e à compra de bens no exterior, e que o Executivo considera uma “infâmia”. Na opinião dela, “o que está em jogo é muito mais que uma disputa entre um ex-governante e o atual governante, e sim o que implica a presença de um democrata como Moreno na região e a reviravolta em termos de relações internacionais”.

Após ganhar as eleições, dois anos atrás, o mandatário rompeu com boa parte do projeto político de Correa. Recompôs as relações com os Estados Unidos e com organismos como o Fundo Monetário Internacional (FMI) – que acaba de conceder ao país um empréstimo de 4,2 bilhões de dólares – e sobretudo se afastou do eixo bolivariano encabeçado pelo regime de Nicolás Maduro. Há poucas semanas, recebeu Juan Guaidó e o reconheceu como presidente interino da Venezuela, o que, segundo a interpretação do próprio Governo, multiplicou seus adversários em outras frentes e transformou uma desavença legítima entre dois dirigentes em uma disputa geopolítica.

“A paciência do Equador chegou ao seu limite”, deixou claro Moreno em um pronunciamento público, insistindo em que Assange exercia atividades irregulares e defendendo que a suspensão do asilo é uma decisão soberana. “O alerta mais recente se deu em janeiro de 2019, quando o Wikileaks vazou documentos do Vaticano. Membros importantes dessa organização visitaram o senhor Assange antes e depois desse vazamento.” Há outras acusações também: “Instalou equipamentos eletrônicos de distorção não permitidos, bloqueou as câmeras de segurança da missão, agrediu e maltratou guardas da sede diplomática, acessou sem permissão arquivos de segurança. Possui um telefone celular com o qual se comunica com o exterior. Finalmente, o Wikileaks ameaçou há dois dias o Governo do Equador”.

O Governo de Moreno concedeu a nacionalidade a Assange em dezembro de 2017 para regularizar sua situação, mas o proibiu em repetidas ocasiões de interferir em assuntos de política externa. Ele violou a ordem e há um ano ficou incomunicável, embora tenha encontrado formas de burlar os controles. Chegou a processar em três ocasiões o Estado equatoriano por supostos descumprimentos dos protocolos de convivência. Entretanto, as autoridades competentes rejeitaram essas denúncias. Apesar dos enfrentamentos, o presidente afirma que exigiu do Reino Unido um compromisso escrito de que não será extraditado a nenhum país “onde possa sofrer tortura ou a pena de morte”.

Enquanto isso, Correa, que aspira a voltar ao Equador para ocupar de novo a primeira linha da política, acusou novamente Moreno de trair seu legado, simbolizado de certa forma pela proteção a Assange. O que aconteceu nesta quinta-feira em Londres representa também uma ruptura do Equador com seu passado recente.