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TRIBUNA i

Entre o sagrado e o profano, Bolsonaro foi a Israel

Como grupos representativos da nova onda conservadora incorporaram, à sua maneira, elementos do sionismo e do Estado de Israel

Jair Bolsonaro visita o Yad Vashem, em Jerusalém, no dia 2 de abril.
Jair Bolsonaro visita o Yad Vashem, em Jerusalém, no dia 2 de abril. AP

Ao longo do processo de ascensão do atual governo de Jair Bolsonaro ao poder e do campo conservador no Brasil, um fenômeno inédito pode ser observado: o uso de símbolos ligados ao Estado de Israel.

Durante a campanha eleitoral de 2018, a bandeira do país foi erguida em inúmeros comícios de candidatos aos cargos do legislativo e à presidência da república. Viagens de candidatos a Israel, indumentárias aludindo ao seu exército e palavras em hebraico foram, também, muito frequentes. Antes mesmo das eleições, alguns desses símbolos já se faziam presentes em protestos de rua organizados por grupos de direita e extrema-direita contra a presidenta Dilma Rousseff e em manifestações de cunho religioso, tais como a Marcha para Jesus.

Conciliando duas dimensões de ativismo, a política e a religiosa, grupos representativos da nova onda conservadora incorporaram, à sua maneira, elementos do sionismo, o movimento nacional judaico, e do Estado de Israel.

No âmbito religioso, isso se deu principalmente como meio para satisfazer as aspirações de setores evangélicos que têm, de algumas décadas para cá, se aproximado de Israel e feito uso de referências judaicas em sua liturgia. O Templo de Salomão, onde, do lado de fora, vê-se tremular a bandeira israelense e, do lado de dentro, utensílios judaicos integram os rituais, talvez seja o caso mais emblemático nesse sentido.

Essa aproximação de setores evangélicos com o judaísmo e Israel tem como princípio a teologia apocalíptica pentecostal, doutrina segundo a qual o retorno de Jesus depende do cumprimento das profecias bíblicas, incluindo a volta dos judeus a Jerusalém e a toda Terra Santa.

É o que explica o fato de muitos líderes religiosos que compõem a bancada evangélica serem favoráveis ao controle judaico da Palestina histórica e à mudança da embaixada brasileira de Tel-Aviv para Jerusalém. Para eles, assegurar a administração judaica da região significa garantir o cumprimento da profecia do retorno de Cristo.

Junto dessa perspectiva teológica, sagrada, há também o aspecto profano dessa aproximação com o Estado judeu. Grupos conservadores passaram a utilizar o Estado de Israel para alavancar suas agendas no Brasil. A perspectiva de um “pólo avançado da civilização ocidental” em meio à “barbárie” do Oriente Médio, associada à imagem de um Estado militarizado, capaz de lidar com os inimigos em seu entorno, impulsiona o projeto de refundação do Brasil a partir de uma guerra cultural. Adicionalmente, a imagem de Israel como pólo científico e tecnológico se encaixa no ideário econômico liberal que atrai muitas figuras do conservadorismo nacional. Por fim, a adoção de referências ligadas a Israel serve também como marca de uma posição estruturada em contraposição às esquerdas que associam, de maneira sistemática, a Palestina à sua agenda política.

A aproximação de evangélicos com Israel tem como princípio a doutrina segundo a qual o retorno de Jesus depende do cumprimento de profecias como a volta dos judeus a Jerusalém e a Terra Santa

É nesse pano de fundo que Jair Bolsonaro desembarcou em Israel pela segunda vez — a primeira foi 2016, pouco depois de lançar-se candidato à presidência. Simbolicamente, o país acaba personificando interesses dos núcleos ideológico, econômico e militar do novo governo.

Entretanto, símbolos não têm existência em si mesmos e dizem mais respeito àqueles que os utilizam. No caso de Israel chega a surpreender. Bolsonaro e seu chanceler anti-globalista parecem esquecer deliberadamente que o país tem postura progressista em temas como o aborto, direitos LGBTs e legalização da maconha, alvos da onda conservadora brasileira. Além disso, o país não garante o direito à propriedade privada de armas de fogo, rigidamente controladas pelo Estado.

Assim, nessa nova elaboração ideológica sob a qual vivemos, o imaginário sobre Israel e os judeus passa ao largo da pluralidade da comunidade judaica e da complexidade da sociedade israelense.

O que se vê, na verdade, é o uso de uma ideia precária sobre o judaísmo e o Estado de Israel para a moralização, o esvaziamento do debate público e a rejeição ao diferente, transformando a sociedade Israelense e os judeus num grupo monolítico, conservador e “sagrado”, sem a real complexidade e pluralidade. Nessa lógica, alimenta-se o imaginário sobre os judeus, abrindo possibilidades para o desenvolvimento de teorias conspiratórias e crescimento do antissemitismo.

O estreitamento dos laços entre Brasil e Israel pode ser positivo. Mas seria interessante que isso se desse considerando os múltiplos vieses que compõem a sociedade israelense, incluindo aqueles que permitem relativizar as pautas conservadoras que hoje reinam nossos trópicos.

*Rafael Kruchin é coordenador executivo do Instituto Brasil-Israel e mestre em sociologia pela USP.

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