Venezuela

Polícia venezuelana prende o ‘número dois’ de Juan Guaidó

Agentes do serviço de inteligência entraram, durante a madrugada, na casa do chefe de Gabinete do presidente interino e de um deputado da oposição

Roberto Marrero (no centro) com Juan Guaidó (esquerda), em foto divulgada por Marrero em sua conta do Instagram
Roberto Marrero (no centro) com Juan Guaidó (esquerda), em foto divulgada por Marrero em sua conta do Instagram

A polícia política da Venezuela prendeu nesta quinta-feira de madrugada Roberto Marrero, braço direito do presidente interino Juan Guaidó, e revistou a casa do chefe do grupo parlamentar do partido Vontade Popular, Sergio Vergara, outro dos homens mais próximos dele. Mais de 15 agentes uniformizados e encapuzados do Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional (SEBIN) entraram às 2h24 (3h24 em Brasília), arrombaram a porta e revistaram as casas de Marrero e Vergara, que são vizinhos.

"Infelizmente chegaram até a mim, mas a luta continua. Cuidem do presidente e que seja o que Deus quiser", disse Marrero em um áudio em que se escutam no fundo pancadas, antes de ele ser levado algemado. "No momento estão sendo mantidos sequestrados", escreveu Guaidó no Twitter, denunciando a presença do SEBIN na casa de seus colaboradores. Segundo Guaidó, a polícia colocou na casa de Marrero dois fuzis e uma granada para dizer que eram seus e assim prendê-lo.

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Vergara, que não foi preso, explicou mais tarde como foi a revista, em uma declaração feita em sua casa: "Quebraram a porta da minha casa. Quando entraram os primeiros dois funcionários, que me apontaram pistolas, eu lhes disse que sou deputado da Assembleia Nacional e tenho imunidade parlamentar. Eles me jogaram no chão, e lá me mantiveram de cabeça para baixo enquanto vasculhavam a casa e arrombavam um armário. Eu lhes pedi repetidamente que entendessem que o processo que estamos adotando é um processo pacífico que busca libertar toda a Venezuela”. Durante a prisão foram utilizados dez veículos e oficiais uniformizados com armas longas.

"Depois que saíram da minha casa começaram a bater na porta da casa de Roberto Marrero, que fica a poucos metros, até que conseguiram entrar. Quando levavam Roberto, ele me gritou que haviam colocado dois fuzis e uma granada na sua casa, então disseram para ele calar a boca. Eu lhe disse para ter muita força", acrescentou Vergara.

Marrero e Vergara são dois dos principais homens de Guaidó em seu relacionamento com os outros partidos e também os dois deputados mais próximos dele. Ambos militam no Vontade Popular, o partido do preso político Leopoldo López, e acompanharam Guaidó durante sua recente turnê internacional no final de fevereiro. Guaidó deixou o país e retornou a Caracas no início de março pelo aeroporto de Caracas, em claro desafio ao regime de Maduro. Em meados deste mês, o Ministério Público iniciou um segundo processo contra Guaidó por sua suposta conexão com um ataque ao sistema elétrico que causou um blecaute nacional durante quatro dias.

As reações da comunidade internacional à prisão de Marrero não demoraram. O secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, condenou a escalada repressiva, no que ele descreveu como "batidas" do serviço de inteligência (SEBIN), que respondem às ordens de Nicolás Maduro. "Os Estados Unidos condenam os ataques realizados pelos serviços de segurança de Maduro (...) Pedimos a sua libertação imediata, e vamos responsabilizar os envolvidos”, afirmou Pompeo via Twitter.

Danos na casa de Roberto Marrero, em Caracas
Danos na casa de Roberto Marrero, em Caracas

O enviado especial dos Estados Unidos para a Venezuela, Elliott Abrams, exigiu a libertação imediata de Marrero e disse que haverá consequências diretas para os responsáveis por sua detenção. Para o senador republicano Marco Rubio, a prisão de Marrero é uma escalada da repressão e "pode indicar o início dos esforços para prender o próprio Guaidó", escreveu no Twitter.

Em nome do Governo da Colômbia, o chanceler Carlos Holmes Trujillo condenou a prisão do colaborador de Guaidó e fez um chamado à comunidade internacional para exigir o respeito à liberdade, a vida e à integridade dos opositores.

Do exílio, Luisa Ortega Díaz, ex-procuradora da República, disse que o sequestro de Roberto Marrero é a resposta do regime de Nicolás Maduro ao relatório da ONU sobre a situação dos direitos humanos na Venezuela.

A detenção do colaborador de Guaidó ocorreu poucas horas depois de o Alto Comissariado para os Direitos Humanos das Nações Unidas e a Organização dos Estados Americanos fazerem uma dura denúncia sobre as prisões ilegais e torturas como método de repressão contra opositores e dissidentes empregadas pelo Governo de Maduro.

Michelle Bachelet disse em Genebra que as forças de segurança venezuelanas, apoiadas pelos "coletivos armados" e grupos paramilitares aliados ao Governo, vêm reprimido a dissidência pacífica com uso excessivo da força, mortes e tortura documentados por seu gabinete. Em paralelo, a ex-presidenta do Chile citou denúncias de que a Força de Ações Especiais da Polícia Nacional (FAES) executou 37 pessoas em janeiro, em Caracas, em batidas ilegais em casas em áreas pobres que apoiavam a oposição.