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“Só recordo a emoção das coisas”

O exemplo, perdido numa escola do Texas, da professora que corta seu cabelo para se parecer com sua aluna vítima do bullying é mais que uma simples curiosidade

A professora Shannon Grimm e sua aluna Priscilla Perez.
A professora Shannon Grimm e sua aluna Priscilla Perez.Reprodução (Willis ISD)

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Estava lendo Vento da Lua (Companhia das Letras), do escritor andaluz Antonio Muñoz Molina, membro da Academia da Língua Espanhola, quando numa interrupção encontrei no Facebook uma pequena notícia que me conectou com a frase que abre o livro. A ela o autor lhe dedica, para ressaltá-la, toda uma página em branco. Escreve: “Só recordo a emoção das coisas”.

A notícia, do site Pais&Filhos, tinha relação justamente com o mundo das emoções: “Professora corta seu cabelo igual ao da aluna que sofria bullying”. A jovem professora é Shannon Grim, de uma escola primária de Willis, no Texas (EUA). A menina, que sofria bullying dos colegas de classe, é Priscila Pérez, certamente hispânica, de cinco anos. Era alvo de zombaria por parte de seus colegas porque “usava o cabelo curto como os meninos”. A professora notou que a menina tinha começado a entrar em depressão. Era às vésperas do Natal. Refletiu sobre como ajudá-la a superar seu problema e teve uma ideia que, embora lhe custasse, achou que poderia resgatar a autoestima da aluna. Decidiu cortar seu longo cabelo como o de Priscila. Retomadas as aulas, a chegada de Shannon com o cabelo curto agradou aos alunos, mas quem mais se emocionou foi a pequena Priscila ao se ver igual à sua professora, que aproveitou a ocasião para explicar aos seus alunos “que os meninos podem ter o cabelo comprido como as meninas, e as meninas o cabelo curto como os meninos”. Assim de simples e assim de contundente.

A notícia me lembrou também a iniciativa da artista brasileira Fernanda Candeias, que teve a ideia de criar, com suas mãos, bonecas de trapo sem cabelo para dar de presente a crianças que sofrem de câncer nos hospitais. Contou-me a emoção de uma menina que, ao receber a boneca, se abraçou a ela sorridente e exclamou: “Não tem cabelo como eu!”.

A menina Priscila, do Texas, que recuperou sua alegria e autoestima quando sua professora cortou o cabelo como o seu, confidenciou-lhe, segundo contou a professora em uma entrevista ao Today Style: “Quando crescer vou ter amigos que serão maus comigo, mas vou querer ser boa com eles como você”. Sim, são apenas gestos como milhares de outros, mas que, num mundo que se apresenta cruel com as crianças, vítimas precoces da violência que persegue os diferentes, despertam emoção.

Não é possível esquecer que a questão do bullying nas escolas é um drama mundial que afeta 43% dos alunos de 10 a 14 anos, segundo um estudo do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância). E o Brasil é, tristemente, o quarto país com maiores índices desse fenômeno.

A psicóloga Danielle Zeotti acredita que o bullying já pode ser considerado como uma doença de quem o pratica, a ser tratada como um “desvio grave de conduta”. Ao mesmo tempo, o fenômeno do bullying está estreitamente unido às tentativas de suicídio das crianças, que estão crescendo perigosamente. A zombaria desses alunos contra seus colegas acaba levando as vítimas à depressão. Hoje, 20% dos adolescentes sofrem dela no mundo.

Numa entrevista recente a Pablo Gimón neste jornal, Marc Brackett, diretor do Centro de Inteligência Emocional da Universidade de Yale, onde nasceu o conceito de inteligência emocional, lamenta o preconceito que faz a expressão das emoções ser vista como sinal de fraqueza. Pelo contrário, diz Brackett, já que “são as emoções que nos tornam mais inteligentes”. Reprimi-las só cria maus alunos.

Na verdade, segundo a psicologia, quem mais sofre em nossa sociedade invadida pelos símbolos da força, virilidade e violência são os incapazes de entender suas próprias emoções. Não é só a racionalidade, segundo a psicologia emocional, que nos faz ser mais criativos e inovadores, mas também a força de nossas emoções represadas para completar nossa personalidade.

Quando hoje se pergunta nas escolas aos jovens estudantes quais são seus principais sentimentos, eles costumam mencionar que se sentem “cansados, estressados, entediados”. Não é difícil concluir, dizem os psicanalistas, que com esses preâmbulos dificilmente estarão preparados para a aventura de uma vida criativa e feliz.

Em tempos nos quais se tentam impor na educação experiências reacionárias como a escola sem partido no Brasil, ou a caça aos professores que abordem os temas do sexo e identidade de gênero; em tempos em que os valores passam pelos símbolos da força e os gestos guerreiros e do desprezo, e até pela perseguição aos fracos e diferentes, o exemplo, perdido numa escola rural do Texas, da professora que corta seu cabelo para se parecer com sua aluna vítima do bullying é mais do que uma simples curiosidade.

Certamente, quando a pequena Priscila, já adulta, se jogar no rio perigoso da vida, o que recordará, e o que provavelmente a salvará, terá sido, como escreve Muñoz Molina, a força de uma emoção que a impediu de sucumbir no abismo ainda antes de crescer. Apenas isso. Ou você acha pouco?

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