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Três anos depois, vítimas de Mariana ainda esperam ter casas reconstruídas

Tragédia da barragem do Fundão, em Mariana, deixou 19 mortos e danos socioambientais incalculáveis

O mato já tomou conta das ruínas de Bento Rodrigues.
O mato já tomou conta das ruínas de Bento Rodrigues.AFP
Gil Alessi

O rompimento da barragem de resíduos da mineradora Vale S.A. em Brumadinho, Minas Gerais, trouxe uma triste sensação de déjà vu para os brasileiros. Em 5 de novembro de 2015 uma tragédia semelhante em Mariana, no mesmo Estado, deixou 19 mortos e um rastro de devastação no ecossistema e nas vilas da região. Parte da lama que arrasou casas e plantações foi parar no oceano Atlântico depois de envenenar o rio Doce, naquele que até hoje é considerado o pior desastre ambiental do país. Estima-se que 39 milhões de metros cúbicos de lama tenham vazado após o colapso da barragem de Fundão. Os dois casos têm em comum um nome: Vale S.A., multinacional brasileira que operava a barragem de Brumadinho e a de Mariana - esta última via Samarco Mineração S.A., uma joint venture com a BHP Biliton, anglo-australiana.

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A barragem do Fundão havia sido construída para abrigar os rejeitos da extração de minério de ferro da mina Germano. De acordo com a Samarco, ela passava por obras para aumentar a altura do aterro de contenção, tendo em vista que o reservatório já estava perto de sua capacidade máxima. Foi então que ele começou a vazar por volta das 15h, rompendo-se de vez pouco depois das 16h. O bairro de Bento Rodrigues, localizado a pouco mais de 2 km da barragem, foi praticamente varrido do mapa pelo fluxo de lama. Cerca de 400 famílias perderam seu lar. O trabalho de reconstrução das residências em um novo distrito por parte da Samarco está atrasado, com prazo de conclusão somente para 2020 - mais de cinco anos após a tragédia. “Essa é a estimativa para entregar todo o Bento, com todas as obras de infraestrutura, as casas, escola, igreja, todo o processo completamente terminado. Em 2019, já começam as casas", afirmou Roberto Waak, presidente da Fundação Renova, criada pelas mineradoras envolvidas para pagar indenizações e realizar obras de recuperação.

A relação entre a Renova e os moradores atingidos se deteriorou este ano, quando ela anunciou que irá descontar o valor pago de forma emergencial às vítimas do total da indenização, de acordo com o jornal Estado de Minas. A Fundação se comprometeu a pagar, em até 10 anos, mais de 4 bilhões de reais.

Mas não foram apenas casas e pessoas que estavam no caminho do mar de lama da barragem. Horas depois do rompimento os rejeitos chegavam ao rio Doce, cuja baía hidrográfica se estende por mais de 200 municípios. Vários municípios sofreram com o desabastecimento de água, e tiveram que decretar estado de calamidade pública. Sem oxigênio nas águas, mais de 10 toneladas de peixes morreram em Minas Gerais e Espírito Santo. Algumas praias no norte do Espírito Santo tiveram que ser interditadas quando as águas turvas chegaram ao litoral. A Samarco sempre alegou que a lama que vazou da barragem não era tóxica.

Dias depois do desastre veio à tona a informação de que a Samarco havia encomendado em 2009 um plano de estratégico emergência para uma situação como o rompimento da barragem, que previa o treinamento de moradores, monitoramento constante, sistema de alarmes e evacuação de comunidades. A iniciativa, no entanto, nunca saiu do papel. Sem um bom plano de emergência, coube à empresa comunicar os moradores que estavam no caminho do fluxo de lama por telefone. De acordo com o promotor de Justiça do Meio Ambiente do MP, Carlos Eduardo Ferreira Pinto, o que ocorreu em Mariana não pode ser chamado de acidente: "Não foi um acidente, tampouco fatalidade. O que houve foi um erro na operação e negligência no monitoramento".

O julgamento de 21 diretores e ex-diretores da Samarco, Vale e BHP BIliton, iniciado em 2016, chegou a ser suspenso em julho de 2017. Os defensores disseram que foram cometidos excessos na investigação, como por exemplo o monitoramento telefônico de seus clientes por um prazo maior do que o autorizado pela Justiça. O juiz Jacques de Queiroz Ferreira, no entanto, não encampou a tese, e retomou o caso em novembro daquele ano. Além de uma série de multas ambientais, as três empresas também fecharam acordo com o Ministério Público de Minas Gerais com relação ao pagamento de indenizações para familiares das vítimas e dos que perderam casas. A Samarco também precisou se comprometer a pagar indenizações para os pescadores que viram seu sustento desaparecer com os danos à bacia hidrográfica da região.

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