Nazismo

Ninho de amor de Goebbels vira ‘elefante branco’ para Alemanha

Autoridades alemãs estudam o que fazer com a mansão do Bogensee, onde o ministro nazista da Propaganda seduzia atrizes e escreveu vários de seus discursos

O ministro nazista de Propaganda Joseph Goebbels saúda à atriz italiana Elli Parvo, em 1941. No vídeo, a história da vila de Bogensee (legendas em espanhol). Getty Images / EPV

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A prefeitura de Berlim tem uma batata quente nas mãos: o ninho de amor de Joseph Goebbels, a casa campestre aonde o ministro nazista da Propaganda levava suas conquistas amorosas pour consommer e onde, nas horas vagas, escreveu alguns de seus mais famosos discursos, como o da guerra total.

A propriedade, pertencente ao Governo da capital alemã, mas abandonada desde a reunificação do país, há duas décadas, custa uma dinheirama ao erário (um milhão de euros por ano em manutenção, mais de quatro milhões de reais), e ninguém sabe o que fazer com ela. Entre as propostas estão vendê-la, transformá-la em museu ou demoli-la. A primeira ideia esbarra no risco de, dependendo do comprador, o local virar um santuário neonazista ou um bordel disfarçado. Reabilitá-la e transformá-la em museu exige, além do investimento (100 milhões de euros), agir com muita sutileza e reviver um passado muito incômodo na Alemanha. Já derrubar a casa – que é um dos poucos imóveis que sobreviveram à Segunda Guerra Mundial na Grande Berlim – certamente resolveria o problema, mas parece um pouco drástico, como sugeriu um membro do partido social-democrata.

A mansão, no suntuoso conceito de cottage ou manor house, muito compatível com um líder do III Reich com gostos caros e vontade de impressionar as visitas (sobretudo as jovens atrizes que eram a especialidade do predador Dr. Goebbels), é um dos poucos edifícios dos nazistas que permanecem intactos (o equivalente de Hermann Goering, o famoso Carinhall, foi implodido), com todas as lembranças desagradáveis que isso acarreta.

A vila de Bogensee, a 15 quilômetros de Berlim.
A vila de Bogensee, a 15 quilômetros de Berlim.

Ergue-se a quinhentos metros do pequeno e belo lago Bogensee, perto de Wandlitz, no Estado de Brandeburgo, 15 quilômetros ao norte da cidade de Berlim. Lá Goebbels decidiu ter um local de refúgio, um retiro e, falando claramente, uma garçonnière para o luxurioso ministro, que podia ser baixinho (metro e meio) e manco, mas agia como se fosse o próprio Casanova. Fazia isso usando o poder decorrente de ser um dos grandes líderes nazistas e o responsável pelo cinema alemão: isso lhe permitia fazer testes do sofá dignos de um Harvey Weinstein com suástica. Dava para armar um belo #MeToo para cima do Goebbels: não é que ele acabasse com a carreira da moça; ele a fazia ir parar no campo de concentração de Ravensbrück.

Para não deixar dúvidas, a Haus am Bogensee contava não só com amplas instalações, incluindo 700 quartos (com cama grande, imagino), cinema privado e um impressionante refeitório (embora Goebbels não estivesse nem aí para a comida, vide a biografia de referência de Peter Longerich), mas também com um barracão anexo para acolher uma unidade da SS, o que já é incitação ao romance.

A casa foi presenteada a Goebbels para seu uso pela Administração de Berlim em 1936, por ocasião do 39º. aniversário do dirigente, que também era o Gauleiter, ou chefe regional do partido nazista. A célebre UFA, os estúdios cinematográficos Universum Film Ag, transformados pelos nazistas em uma empresa estatal, encarregava-se de financiar parte dos gastos, que também corriam por conta do Ministério da Propaganda.

Joseph Goebbels rodeado de mulheres em Nuremberg, em 1938.
Joseph Goebbels rodeado de mulheres em Nuremberg, em 1938.

Depois da guerra, a administração militar soviética se encarregou da casa, que depois cedeu à Associação da Juventude Livre da Alemanha Oriental, embora aparentemente não fosse um local muito edificante.

Goebbels foi muito feliz por lá, à sua maneira de nazista. A casa lhe permitia escapar por elevação (!) da sua rotina familiar com a esposa, Magda, e os seis filhos, garotos sem muito futuro, na mansão que tinham em Schwanenwerder ou na de Berlim. O ministro, que possuía outras casas, além de iates e carros de luxo, era um ás do setor imobiliário, o que fica fácil quando se tem à sua disposição muito patrimônio judeu a preço de liquidação. E era um namorador profissional. Ele, que padecia de um transtorno narcisista compulsivo, segundo Longerich (“Não tenho tempo para me entregar totalmente às mulheres, missões maiores esperam por mim”, escreveu em seu diário), atribuía seu sucesso a seus dotes de sedutor, mas tinha mais a ver com ser difícil resistir a um amigo de Hitler, embora fosse feioso e as funcionárias do ministério o apelidassem (pelas costas, claro) de “cabra tarada”.

A carreira de mulherengo de Goebbels se freou um pouco com a guerra – uma das poucas coisas boas que o confronto provocou - e já havia se desacelerado em 1938, quando o próprio Hitler lhe chamou a atenção por seu romance excessivamente entusiasmado com a atriz tcheca Lída Baarová, de 21 anos. Em plena crise da Tchecoslováquia, parecia pouco refinado que um ministro alemão anexasse seus próprios Sudetos.

Além disso, Magda, que tinha uma relação tão intensa com Hitler até onde o livro Mein Kampf permitia, disse “chega” e ameaçou se divorciar, o que teria sido um enorme escândalo.

Goebbels continuou frequentando o Bogensee até que decidiu fixar sua residência definitiva (e chamuscada) no Bunker da Chancelaria. Hoje também se fala em transformar a antiga mansão do ministro em um hotel ou spa. Seja como for, caso o lugar sobreviva, não seria má ideia, ao visitar a mansão, fazer como o delegado Bernie Gunther, o personagem dos romances de Philip Kerr, quando Goebbels o convoca à sua casa: ir ao banheiro e sair sem dar descarga.