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Matar Hitler

Livro de seus anos em Barcelona e uma nova biografia trazem ao presente Dietrich Bonhoeffer, teólogo alemão executado por tentar assassinar o Führer

Dietrich Bonhoeffer, fotografado em 1935.
Dietrich Bonhoeffer, fotografado em 1935.

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Hegel dizia que os grandes homens são aqueles que em sua época tiveram consciência do que era necessário. Dietrich Bonhoeffer (Breslau, 1906), além de um dos teólogos mais importante do século XX, foi um homem que teve essa consciência, que ele chamou de “teologia do concreto” e que levou às últimas consequências: morrer por tentar salvar o restante. Rompeu a distância entre o pensamento e ação, e isso o destinou a ser um professor que em classe ensinava que Cristo significava liberdade, a ser pastor para criar comunidade e, por fim, acabar enforcado no campo de concentração de Flossenbürg, acusado de estar por trás da conspiração que tentou assassinar Hitler.

Apesar de sua morte prematura, deixou uma obra que marcou o pensamento teológico contemporâneo, e que hoje continua suscitando um profundo interesse. Boa prova disso é a publicação recente da biografia Extraña gloria. Vida de Dietrich Bonhoeffer, (Estranha gloria. A vida de Dietrich Bonhoeffer), escrita pelo professor Charles Marsh e publicada pela Trotta, editora espanhola que em 2018 também editou as cartas e textos escritos durante a temporada que o pensador alemão passou em Barcelona, na Comunidade Evangélica da capital catalã, reunidos sob o título Comunidad e promesa (Comunidade e promessa).

Em 1939, Hitler anunciou seu objetivo de destruição da raça judaica. E o teólogo decidiu passar à ação

Filho de uma família numerosa, culta, comprometida e rica —sua mãe era condessa e seu pai foi um dos psiquiatras mais importantes da Alemanha—, espiritual sem chegar a ser estritamente religiosa, o jovem Dietrich sentiu bem cedo o chamado da fé: ainda criança, brincava de batizar no jardim de sua casa, e com 13 anos sentenciou em uma refeição familiar que ele sozinho se encarregaria de reformar a Igreja. Pouco depois da morte de seu irmão mais velho, atingido por um projétil na Primeira Guerra Mundial, Dietrich anunciou a sua família que havia decidido se tornar teólogo. Suas primeiras viagens, a Roma, onde viveu apaixonado a Semana Santa, e depois a Trípoli e à Espanha, foram moldando sua fé. Em Barcelona viveu meses alegres e teve tempo para percorrer o país, do Rastro de Madri (mercado popular famoso da capital espanhola), onde comprou um óleo “que para mim é muito bom e interessante, assinado por Picasso”, até Sevilha, onde ficou embevecido com “a quantidade de jovens bem-vestidas e de notável beleza que se vê pela cidade”. Já durante esses anos de juventude comprovou como sua vocação espiritual se tornava cada vez mais humanista, mais consciente do que acabaria chamando de “cristianismo arreligioso”, que se centrava na linguagem do amor, e não nas outras perversões das quais se aproximava o religioso.

Como diz Charles Marsh nessa talvez definitiva biografia, já na primeira frase de sua tese de doutorado alertava: “Nesse estudo, a filosofia social e a sociologia serão utilizadas a serviço da teologia”. Mas na verdade era ele que se colocava a serviço dos outros, à atenção dos demais. E esse sentimento se solidificou durante sua primeira viagem aos Estados Unidos, em setembro de 1930, onde conheceu o professor Reinhold Niebuhr, um teólogo que defendia que “a pergunta sobre como analisar a situação social para responder às necessidades era mais relevante à teologia do que toda a análise morfossintática a que as sagradas escrituras eram submetidas”. A coragem e a honradez do professor acabaram contagiando o jovem alemão, cuja visão da teologia mudou definitivamente quando rezou com os negros do Harlem na Igreja Abissínia. A partir desse momento sua teologia passou a ser mais acessível, para não dizer evidente, e, como diz Marsh, começou a procurar nas religiões cristã e judaica a inspiração à paz e aos valores da cidadania.

Mas enquanto Dietrich crescia como pessoa nos Estados Unidos, seu país afundava no fascismo. Em uma carta recebida, seu irmão Klaus lhe avisou do crescimento da extrema direita, e alertava que se esses sentimentos conseguissem captar também as classes cultas, logo seria “o fim dessa nação de poetas e pensadores”. Não se enganou. Pouco tempo depois, em 30 de janeiro de 1933, Hitler foi nomeado novo chanceler do Reich. O nazismo chegou ao poder, às faculdades e aos grupos eclesiásticos que acabaram formando os Cristãos Alemães (CA), que afirmavam que “Deus escolheu um novo Israel, o volk alemão. Chegaram até mesmo a se convencer de que Jesus não havia sido judeu”. A barbárie se consolidou em 7 de abril, quando o Reichstag aprovou o parágrafo ariano. Bonhoeffer, já quase na qualidade de dissidente teológico, dizia aos seus alunos que “a única esperança estava no bebê nascido de pais judeus, não casados, no afastado povoado de Belém”. Expulso pouco a pouco da Universidade, continuou dando seu curso no seminário da Igreja Confessional em Finkenwalde, um espaço livre do nazismo a noroeste de Berlim. Entre seus discípulos conheceu Eberhard Bethge, que acabou sendo seu fiel companheiro até o final, e talvez o grande amor —não consumado— de sua vida.

No começo de 1939, Hitler anunciou seu objetivo de destruição total da raça judaica. E o teólogo decidiu que havia chegado a hora de passar à ação. Entrou na resistência clandestina com um único objetivo: matar Hitler. Enquanto isso não parava de escrever. Em seu livro Ética dizia que “a Igreja ficou em silêncio quando deveria ter gritado, porque o sangue dos inocentes clamava aos céus”. Durou na resistência até 13 de março de 1943. Nesse dia um colega colocou uma bomba-relógio em um avião em que Hitler deviria subir. Mas o detonador falhou.

Quando bateram na porta de sua casa, na noite de 4 de abril de 1943, Bonhoeffer estava sentado no escritório de carvalho onde tantas horas havia passado desde sua infância. Antes de o levarem, teve tempo de esconder o manuscrito de Ética entre uma viga. Durante seu duro cativeiro, apesar da quantidade limitada de papel, continuou escrevendo cartas e textos que Bethge depois reuniu no famoso livro Resistência e Submissão: Cartas e Anotações Escritas na Prisão, transformado hoje em um clássico da literatura teológica.

Em Barcelona viveu meses alegres e pôde percorrer a Espanha, do Rastro de Madri até Sevilha

Na noite de 8 de abril foi declarado culpado e condenado à morte. Na manhã seguinte, ele e outros colegas foram conduzidos nus à forca. O médico do campo que o acompanhou em suas últimas horas afirmou que viu o pastor “ajoelhado e rezando fervorosamente a Deus”. Acrescentou que, novamente, no local da execução, pronunciou uma breve plegária, antes de subir os últimos degraus “corajoso e sereno”. Talvez fossem os versículos 19-20 do salmo 119, o mais longo de todos os salmos, que tanto o acompanhou: “Minha alma se consome desejando teus julgamentos o tempo todo”. Mas suas possíveis últimas palavras que passaram à História foram: “Isso não é o fim para mim; é o começo da vida”. Tinha 39 anos.