Brexit

Derrota esmagadora de May no Parlamento britânico aprofunda a crise do Brexit

Líder trabalhista Jeremy Corbyn apresenta moção de censura contra a primeira-ministra. A expectativa é de que ela sobreviva, mas o prazo de 29 de março para a saída da UE segue

A primeira-ministra Theresa May depois de perder a votação do Brexit na terça-feira.
A primeira-ministra Theresa May depois de perder a votação do Brexit na terça-feira. (REUTERS)

Theresa May sofreu nesta terça-feira a derrota parlamentar anunciada há semanas. Westminster rejeitou de maneira categórica o acordo do Brexit alcançado com a UE por 432 votos contra e 202 a favor. O trabalhista Jeremy Corbyn, líder da oposição, anunciou a apresentação de uma moção de censura contra a primeira-ministra que será discutida e votada nesta quarta-feira. As primeiras reações parlamentares indicam que provavelmente May conseguirá superar a moção.

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Nesse caso, o Governo terá três dias úteis para apresentar um plano alternativo, de acordo com a exigência colocada por uma votação em Westminster. A aniquiladora rejeição do Parlamento abre um cenário cheio de incógnitas a apenas dois meses e meio do Brexit, previsto para 29 de março.

“Esta é a votação mais importante de que muitos de nós participaremos em toda a nossa carreira política”, disse May em seu último pronunciamento perante a Câmara. “E depois de todo esse tempo de debate, de acordos e de desacordos, chegou a hora de tomar uma decisão que definirá nosso país por muitos anos e que cada um, vote no que votar, deverá justificar durante muito tempo.”

Foi o discurso mais apaixonado de uma primeira-ministra, consciente de que o Parlamento iria infligir-lhe um duro golpe. E mesmo assim May repetiu uma após a outra, numa tentativa desesperada de desmontá-las, todas as alternativas ao seu plano do Brexit. Um novo referendo traria a vontade manifestada nas urnas em 2016, romperia a confiança dos cidadãos na democracia e não garantiria o fim da divisão gerada nos últimos anos. A renegociação de um novo acordo com a UE é impossível a esta altura. E uma nova eleição geral implicaria em apenas dois meses de paralisia para enfrentar, independentemente de quem chegasse ao Governo, o mesmo problema.

Esta última mensagem foi dirigida a Corbyn, ao qual May jogou na cara sua ambiguidade e inconsistência durante todo o debate do Brexit e o acusou de estar mais preocupado com seus próprios interesses partidários do que com o bem geral do país. “Seu cinismo levou à deslealdade de muitos deputados do seu próprio grupo parlamentar”, disse May, tocando assim na ferida que mais machuca o líder da oposição.

Corbyn fez uma dura intervenção na qual anunciou a intenção de seu partido de votar contra o acordo e exigiu novamente a antecipação das eleições gerais. “Os cidadãos precisam recuperar o controle da situação e novas eleições lhes permitirão escolher novos deputados, um novo Governo e um novo mandato para voltar a negociar o acordo com a UE.” Corbyn se dirigiu expressamente a Bruxelas para pedir aos líderes comunitários que não descartassem um retorno à mesa de negociações.

As últimas horas de debate antes da votação foram a encenação de uma derrota anunciada. A maioria dos deputados de ambos os grupos usou os três minutos a que o presidente da Câmara, John Bercow, limitou suas intervenções para repetir as razões pelas quais votariam contra o plano do Governo. O recorde ficou com o conservador eurocético Julian Lewis, que fez uso de 18 segundos: “Porque o Brexit deveria significar Brexit e porque uma falta de acordo será sempre melhor do que um acordo ruim, votarei não, não e não”, disse, em uma clara referência ao lendário discurso de Margaret Thatcher em que a “dama de ferro” rejeitou as pretensões de Bruxelas de ampliar seus poderes.

O Governo de May enviou à Câmara seu membro mais duro e astuto, o procurador-geral Geoffrey Cox, que durante uma hora tentou defender a qualidade e a idoneidade do plano de May enquanto procurava desmontar a legalidade de possíveis alternativas. “Se não dermos esse primeiro passo, a história nos julgará severamente porque acabaremos mergulhando na incerteza”, advertiu Cox, “e aqueles que com a derrota de hoje pretendem evitar a saída da UE tentarão em seguida que se realize um novo referendo”. Essa é a possibilidade que mais aterroriza os eurocéticos, mas no momento em que estava o jogo, não produziu efeito algum. O acordo do Governo, argumentou Cox, seria uma “câmara de descompressão” que facilitaria a saída organizada da UE.

A resposta mais dura veio do deputado conservador Dominic Grieve, ex-procurador-geral, firme defensor da permanência na UE e promotor da campanha por um segundo referendo. Ele não só ironizou a ideia da “câmara de descompressão” ao sugerir que o acordo significaria que o Reino Unido morreria “asfixiado”, como colocou um toque de humor negro no fato de Cox ter sido obrigado a intervir. “Apesar de ter sido divertido”, disse, “me deixa uma sensação sombria ver que o Governo recorreu ao talento de um advogado criminalista para tentar sair do atoleiro”, afirmou.

O Parlamento queria pôr fim a essa agonia e entrar na próxima fase do longo processo. Por isso grande parte das emendas introduzidas na última hora, que colocavam sobre a mesa alternativas ao acordo de May e tentavam evitar a todo custo a possibilidade de um Brexit sem acordo, foram finalmente retiradas por seus autores e não foi necessário votá-las. A única a ser submetida à votação, a apresentada pelo conservador John Baron, obteve um resultado catastrófico: 600 votos contra e 24 a favor. Sugeria que o Parlamento poderia decidir a saída unilateral do Reino Unido da união aduaneira, ao contrário do que foi acordado com a UE. Nem sequer o Governo apoiou essa iniciativa, devido à sua ilegalidade e à falta de realismo que demonstrava. E deixou claro que todos os grupos deste debate já adquiriram um grau de cinismo e de dureza que já são capazes até de votar contra seus próprios desejos.

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