Bolsonaro e o custo inevitável do experimento brasileiro

Presidente inaugura Governo exibindo sua inclinação reacionária

Adriano Machado (REUTERS)

As ações de Jair Bolsonaro desde que se instalou no Palácio do Planalto indicam que suas primeiras oferendas para quem o apoia serão ideológicas. No campo econômico, prevalece uma impressionante improvisação. Somente a passagem dos meses nos permitirá saber se é verdade o que alguns analistas apontam: que durante esse ciclo histórico muitas sociedades sacrificarão expectativas materiais no altar dos impulsos emocionais e dos slogans doutrinários.

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Bolsonaro inaugurou sua presidência exibindo sua inclinação reacionária. Excluiu lésbicas, gays, bissexuais e transexuais dos programas do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos. Transferiu para esse ministério as reparações às vítimas da última ditadura, que estavam a cargo da Justiça. Encarregou a Secretaria de Governo do controle das atividades das ONGs. E decidiu expurgar dos planos educacionais qualquer influência do célebre pedagogo Paulo Freire. Uma medida de misteriosa implementação.

Educação e política externa são os dois campos do Governo de Bolsonaro em que a influência de Olavo de Carvalho é mais visível. Trata-se de um ideólogo ultraconservador, radicado há anos nos Estados Unidos, onde ministra um seminário on-line no qual promove as ideias do inglês Roger Scrutton e do norte-americano Roger Kimball. Sempre foi considerado um pensador marginal, até que, nas manifestações contra Dilma Rousseff em 2013, apareceram cartazes com a inscrição de que Olavo tinha razão.

Agora se descobre que seus discípulos eram mais do que os que lhe atribuíam. Entre eles, o filho mais velho de Bolsonaro, Eduardo. Por sugestão de Carvalho, um católico pré-conciliar, chegaram ao Governo os ministros das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, e da Educação, o colombiano Ricardo Vélez. O professor Vélez vem de academias militares. Araújo é um profissional do Itamaraty que soube ocultar durante toda sua vida o fervor nacionalista que manifestou nos últimos meses. Seu principal mentor havia sido, até então, seu sogro: Luiz Felipe de Seixas Corrêa, um embaixador tão destacado como convencional.

Carvalho inspira um conceito central em Araújo: a existência de uma elite repugnante que, enraizada em organizações internacionais, impõe suas preferências ideológicas em detrimento da soberania dos Estados nacionais. Para explicar o fenômeno, os seguidores do novo presidente citam dois exemplos. A crítica de dois funcionários da Comissão Interamericana de Direitos Humanos à prisão de Luiz Inácio Lula da Silva e a admoestação à política de segurança de Bolsonaro por parte de dirigentes da OEA. Esta globalofobia irmana o Governo Bolsonaro ao de Donald Trump.

Não é o único vínculo familiar. O presidente brasileiro insistiu na semana passada em transferir a embaixada de seu país em Israel de Tel Aviv para Jerusalém. Ele também admitiu que, num futuro indefinido, sua aliança política com os Estados Unidos poderia passar ao plano bélico. Quando lhe perguntaram se ofereceria bases militares às forças dos EUA, como a Venezuela fez com a Rússia, respondeu que isso não poderia ser descartado. O secretário de Estado, Mike Pompeo, agradeceu a oferta, com a mesma imprecisão com que foi formulada. Os observadores regionais dessas demonstrações não se preocupam muito. Eles as tomam como sinais de um flerte simbólico. Estão mais preocupados com uma afirmação que Bolsonaro lançou quase de passagem: “Nós não queremos aqui ter um superpoder na América do Sul, mas devemos ter, ao meu entender, a supremacia" [militar na região].

Algumas das afinidades do novo Governo brasileiro com o dos Estados Unidos começam a afetar a política internacional. Quando Bolsonaro disse que iria rever os compromissos assumidos por seu país no acordo climático de Paris, deu de presente a Emmanuel Macron a oportunidade de se opor ao Acordo de Livre Comércio que o Mercosul negocia com a União Europeia. O liberal Macron contesta este acordo para proteger o setor agropecuário francês. Agora pode se desculpar usando razões ambientais, mais simpáticas.

Bolsonaro vai alimentar esses debates, com os quais o Brasil abandona uma diplomacia independente de mais de meio século, enquanto demorarem as soluções econômicas. O mercado financeiro continua entusiasmado com ele, aguardando o grande ajuste fiscal que prometeu, baseado em uma drástica reforma do sistema previdenciário. Mas o presidente começou a se mostrar moderado nesse campo. Essa cautela provocou as primeiras rusgas com seu ministro da Economia, o ultraliberal Paulo Guedes.

Bolsonaro também se aventurou, sem falar antes com sua equipe, a anunciar um aumento de impostos. Isso desencadeou inesperadas desautorizações. O secretário especial da Receita Federal, Marcos Cintra, disse que “deve ter sido alguma confusão. Ele não assinou nada”. "o presidente pode ter-se equivocado”. E o chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, declarou que "o presidente se equivocou".

É um enigma quanto tempo durará esse sistema de erro-teste. É um custo inevitável do experimento que o eleitorado brasileiro decidiu fazer. Nas palavras do sagaz economista Fabio Giambiagi: "Está se passando o que aconteceria com um banco que troca seu software na sexta-feira. Na segunda-feira, quando as agências abrem, se descobre se funciona ou não. A política brasileira decidiu trocar de software".

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