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Outros tempos?

Se alguns intelectuais comparam o período atual com o momento que antecedeu o período militar, o contexto agora é outro

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Estudantes e militares entram em confronto durante passeata na época da ditadura.

Uma coisa é certa: os próximos meses serão tão agitados quanto imprevisíveis para jornalistas que trabalham no Brasil. Espera-se que a liberdade de imprensa constituída e vigente no pós-ditadura se mantenha sólida e sadia para exercer suas atividades numa democracia. Cabe aos profissionais investigar abusos, denunciar irregularidades e proporcionar acesso à informação de qualidade. Quais transformações a prática do jornalismo sofrerá no próximo Governo? Se prever parece difícil, especular é muito mais fácil.

Espelhado no padrão Trump, o futuro presidente brasileiro Jair Bolsonaro vem bloqueando veículos de comunicação que lhe desagradam em suas recentes coletivas de imprensa, evitando assim ser questionado sobre temas importantes para o país como a fusão dos ministérios do Meio Ambiente e Agricultura ou o encerramento do Ministério do Trabalho, dentre tantos assuntos polêmicos com que trata com rigidez e inflexibilidade. Jovens da imprensa alternativa estarão ainda mais expostos e fragilizados no exercício da profissão na rua ou nas redes sociais.

Se alguns intelectuais comparam o período atual com o momento que antecedeu o período militar, dadas as afinidades ideológicas, o contexto agora é outro. “São tempos diferentes, não da para comparar. O que nos resta é aguardar na torcida que ele faça um bom governo. O Brasil precisa sair dessa crise”, afirma o fotógrafo Evandro Teixeira, cujas imagens produzidas durante o regime militar brasileiro são icônicas e inesquecíveis. É sem dúvida alguma o fotógrafo que documentou de maneira mais intensa o período militar no Brasil.

Se hoje parece inimaginável dividir sua mesa nas redações com oficiais do departamento de censura, vale lembrar que até 30 anos atrás a rotina era essa. Controle e vigilância sobre toda informação produzida e veiculada era a praxe. Afinal, quem se beneficia com a omissão das informações? “A passeata dos 100.000 foi um dos momentos mais marcantes da minha vida. A foto que o Jornal do Brasil escolheu para a capa era uma imagem minha com os dizeres “abaixo a ditadura” numa faixa e, por isso, estávamos eufóricos na redação”, relembra Evandro, que viu sua foto ser rasgada por um dos oficiais de plantão daquele dia.

Se no Brasil a preservação da memória nunca teve força e nem interesse, no período militar essa condição ficou ainda mais acentuada. “Muita coisa se perdeu, filmes e negativos foram confiscados e queimados. Conseguimos salvar uma pequena parte das fotografias que nos ajudam hoje a relembrar aquele passado tão obscuro”, conta o fotógrafo, que passou alguns dias preso durante o regime. “Tínhamos que ser sagazes, não deixar ser pego de jeito nenhum, porque era uma questão de sobrevivência. Equipamentos confiscados e quebrados eram os menores dos problemas. Os rolos de filme a gente mandava escondido, dava um jeito”, relembra Teixeira com saudosismo de uma categoria cuja função política era derrubar o sistema estabelecido pelos militares. “Era uma tensão permanente, um clima nervoso e de medo”.

Sim, os tempos são outros, fato, mas o jornalismo sério feito com tempo e dedicação, apuração e investigação há de sobreviver para documentar as transformações de uma agenda conservadora que devem acontecer nos próximos anos. Segundo dados da ONG Repórteres Sem Fronteiras, cerca de 2/3 da população brasileira têm o aplicativo WhatsApp como principal fonte de informação. Nos EUA de Trump o acesso ao aplicativo é baixo, visto que os serviços de mensagens de texto são gratuitos. Não à toa, jornais americanos comprometidos com jornalismo de qualidade viram seu público digital subir nos últimos anos.

No Brasil, os grandes veículos ainda patinam para se adaptar à dinâmica online. “Naquela época era diferente. Tínhamos 18 publicações só no Rio de Janeiro. Hoje tem apenas um único jornal”, lamenta Evandro Teixeira, que viveu o período romântico e saudosista do jornalismo nacional descrito na música Valdomiro Pena, de Jorge Ben Jor. “Eu fazia com o coração e com a alma. Minha maneira de lutar era com minha câmera”, conta o fotógrafo cujas imagens feitas durante a ditadura militar integram coleções de fotografia dos principais museus brasileiros como MASP, MAC-SP e MAM-RJ.

A dinâmica do consumo da informação foi alterada para sempre na era digital. A queda de leitores dos grandes jornais brasileiros nocauteou os investimentos nas grandes reportagens investigativas feitas com meses de apuração. Núcleos de reportagem exclusivamente investigativos são uma realidade para jornais tradicionais como o EL PAÍS, que desenvolve anualmente uma série de reportagens de longo prazo. “O Jornal do Brasil prestigiava muito a fotografia. Editores como o Roberto Pires tinham muita coragem para peitar o Estado com uma imagem impactante mesmo com as violentas consequências”, sintetiza Evandro Teixeira. É preciso ter coragem e compromisso com a informação. Fazer jornalismo com alma, como diz Evandro, onde canetas e câmeras fotográficas possam ser armas poderosas na documentação histórica deste novo e complexo período.

A dita crise do jornalismo é na verdade uma crise social de valores que se agrava em meio à onda de intolerância que avança pelos continentes. Na era das fake news o exercício do jornalismo é de suma importância para que a democracia respire sem ajuda de aparelhos. Para problemas complexos como os nossos é preciso questionar, averiguar, checar, analisar, investigar e publicar fatos relevantes para a democracia. Em 1967, o então presidente Marechal Arthur da Costa e Silva participava de evento militar no Rio de Janeiro quando Evandro Teixeira registrou a célebre imagem de uma libélula pousada na ponta de uma baioneta. “A foto foi publicada na primeira página. No dia seguinte, ele mandou me chamar, me xingou, me esculhambou e fui mandado para a solitária debaixo de porrada, onde fiquei uma noite preso. Fazer jornalismo incomodava, e nós gostávamos disso”. Em tempos conservadores, o jornalismo há de sobreviver para documentar a história. Nós, fotojornalistas, temos a missão de produzir imagens tão poderosas quanto as feitas no período militar por Evandro e seus colegas. Conseguiremos? O tempo dirá.

 Victor Moriyama é fotógrafo e colabora com os mais importantes jornais do mundo. (www.victormoriyama.com.br)

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