Nadando num mar sem oxigênio

Para fazer uma documentação fotográfica condizente com tamanha importância destas eleições polarizadas, é necessário muito mais do que temos produzido

Manifestação do #EleNão no Largo da Batata, em São Paulo.
Manifestação do #EleNão no Largo da Batata, em São Paulo.MIGUEL SCHINCARIOL (AFP)

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Se posicionar politicamente é fundamental para o avanço dos debates mais urgentes de qualquer sociedade. Todos os atos que fazemos diariamente são políticos, dotados de intenções. Desde a escolha por uma pasta de dente até o consumo de carne bovina. Comparecer as manifestações de rua que condizem com as convicções pessoais é um dever cívico que boa parte da população brasileira ainda ignora. Muitos preferem assistir as pífias partidas de futebol ou tomar cerveja enquanto ignoram momentos históricos essenciais para debater os rumos da sociedade brasileira. Compreensível se levarmos em conta a fragilidade e imaturidade da ainda embrionária democracia canarinha somada a precarização secular da educação no país. É papel do jornalismo documentar essas manifestações, como a das mulheres contra o candidato da extrema direita Jair Bolsonaro ocorridos no último sábado em diversas cidades do país. Quanto a fotografia produzida nestes atos, o que há de novo?

A já óbvia e esperada imagem aérea da multidão manifestante, feita com drones ou do topo de um edifício alto, já são ultrapassadas embora necessárias para termos dimensão da grandeza do protesto. Não há nada de novo sendo feito por aqui, nenhuma grande imagem que chame a atenção. A crença de que o drone vai resolver a pobreza estética é uma ilusão mas que alimenta o feed das mídias sociais com chuvas de like. As pequenas aeronaves revolucionaram a fotografia porque democratizaram o acesso às tomadas aéreas, antes alcançadas apenas por helicópteros dos grandes veículos de imprensa cujo arsenal financeiro custeava as expansivas horas de vôo. Entretanto, para fazer uma documentação fotográfica condizente com tamanha importância destas eleições presidenciais polarizadas, é necessário muito mais do que temos produzido. As fotos que estampam as capas dos principais jornais brasileiros neste domingo 30 de Setembro apenas repetem a mesma fórmula utilizada nos grandes atos desde 2013: imagens aéreas das ruas tomadas pela multidão. Jovens fotojornalistas devem ir na contramão desta corrente de pensamento que defende a “grande imagem da capa” e partir para um aprofundamento de pesquisa capaz de pensar formas criativas para documentar os impactos do momento político que vivemos. A foto óbvia não é um problema, mas deveria integrar um corpo de trabalho mais consistente.

Manifestação do #EleNão em Brasília.
Manifestação do #EleNão em Brasília. (Silvia Izquierdo)

Acompanhados do mar de gente, uma onda de jovens fotojornalistas se espremem na passarela da Av. Rebouças enquanto a multidão sobe a avenida entoando coros contra o candidato de extrema direita com a ilusão de que farão a tal grande imagem. Na verdade não, serão fotos que já foram tiradas milhares de vezes em todos os protestos paulistanos nas últimas décadas. “Nos protestos de 2013 houve um boom de coletivos fotográficos que se propunham a documentar os protestos contra a Copa do Mundo. A maior deles sumiu no ano seguinte. Tomara que este jovens fotojornalistas de hoje entendam a complexidade em que vivemos e possam produzir boas histórias” diz o fotógrafo Jardiel Carvalho, do R.U.A fotocoletivo. Há uma carência na formação destes fotojornalistas que traduzem a falta de narrativas visuais mais imersivas. As editorias de fotografia dos grandes jornais e revistas nacionais há muito já não formam novos e bons profissionais. Pelo contrário, em muitos casos insistem em publicar imagens manipuladas e burocráticas. Essa lacuna existente tampouco é preenchida nas universidades. “É muito difícil fazer o que fazemos. Espero que no futuro vejamos os jovens fotojornalistas que cobrem os protestos hoje produzindo grandes histórias pelo país a fora” comenta Jardiel. Num país de proporções continentais e realidades tão distintas quanto complexas a possibilidade de histórias é infinita.

A vivência de inúmeras guerras moldou a produção fotográfica nos jornalismos europeu e americano, que se destacam pela execução de grandes reportagens visuais. Editores de fotografia dos grandes veículos mundiais estão interessados em narrativas de fôlego e imersão na complexidade dos temas trabalhados. Não se trata aqui de um complexo do colonizado mas sim a busca por novas narrativas visuais interligadas as transformações sofridas pela imprensa. Imagens que “tampem o buraco da página”, expressão largamente utilizada nas redações brasileiras, não sobreviverão por muito tempo na era digital. “O Brasil é um país emergente também no fotojornalismo. Os editores internacionais não confiam no nosso trabalho, existem poucos profissionais atuando lá fora. Para eles somos peixes nadando num mar sem oxigênio, como se estivéssemos nos debatendo” comenta Jardiel Carvalho. Cabe a cada peixe encontrar seu próprio oceano.

Protestos do #EleNão na Cinelândia, no Rio de Janeiro.
Protestos do #EleNão na Cinelândia, no Rio de Janeiro. Silvia Izquierdo (AP )

 Victor Moriyama é fotógrafo e colabora com os mais importantes jornais do mundo. (www.victormoriyama.com.br)

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