Mariano Jabonero: “Escola sem partido é uma coisa insólita”

Secretário-geral da Organização dos Estados Ibero-americanos defende maior debate nas escolas e é contra políticas extremas

O secretário-geral da OEI, Mariano Jabonero.
O secretário-geral da OEI, Mariano Jabonero.Divulgação (OEI)

Trabalhando com educação há 45 anos, o professor espanhol Mariano Jabonero se diz surpreso com o projeto “Escola Sem Partido”, que prega o "fim da doutrinação" nos colégios e é uma das bandeiras do Governo do presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL). “Nunca vi algo como isso. Escola sem partido é uma coisa insólita”, sentencia. Ocupando o cargo de secretário-geral da Organização dos Estados Ibero-americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI), Jabonero esteve na última semana no Brasil para lançar um estudo da entidade que aponta diretrizes para a educação brasileira, além de um projeto que pretende ampliar o ensino de espanhol e português nas fronteiras dos países latino-americanos. Entre um e outro evento ele concedeu uma entrevista ao EL PAÍS.

Pergunta. Qual é a sua avaliação sobre a educação no Brasil?

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Resposta. A educação no Brasil é muito parecida com a dos demais países da América Latina. Alcançou níveis importantes, como que quase toda criança pequena esteja na escola, mas há uma série de carências. Uma é a de que a educação na primeira infância ainda é de baixa qualidade. A segunda é que no Brasil, assim como em toda a América Latina, há uma série de desigualdades sociais e econômicas. Aí temos um problema familiar, socioeconômico. Os filhos de famílias mais pobres abandonam a escola com maior facilidade, nas zonas rurais também temos o mesmo problema e os indígenas também apresentam altas taxas de evasão escolar. Esse conjunto de ações mostram que a educação no Brasil não cumpre com o que foi previsto no Objetivo do Desenvolvimento Sustentável 4, da Organização das Nações Unidas. Um outro ponto que falta evoluir no Brasil é investir na educação para as áreas de maior competitividade do país. Toda a América Latina se volta para a economia primária, para a economia extrativa, para as commodities. E esse é um tipo de economia que não investe tanto no conhecimento.

P. Como se muda esse cenário?

R. Fundamentalmente com uma aposta muito firme em educação de maneira geral. Tem de buscar modelos novos de educação nas quais se valoriza as competências básicas. Não é tanto um debate curricular clássico, mas pelas competências que direcionam para os postos de trabalho em diversas áreas, da comunicação da matemática, da tecnologia, da ciência. E a sociedade precisa também investir em tecnologia e inovação.

P. Alguns estudiosos dizem que a educação no Brasil é do século XIX ou XX, mas estamos no século XXI. Por que isso ocorre?

R. Isso ocorre em quase toda a América Latina. Acredito que há vários motivos. O continente está com um pé no século XX e outro no XXI. Os investimentos em educação são sempre abaixo do que deveriam ser. Se deparou com décadas de muito baixo investimento. Além disso, nos últimos anos ocorreu uma coisa que antes se falava bem dela, a construção de colégios. Isso foi importante. Construiu-se escolas por centenas de milhares, porque não havia escolas, e recrutaram professores aos milhões, porque não havia professores. Mas contratou-se professores que estavam disponíveis, mas que seu nível de formação e qualificação era muito baixo. É um sistema que preferiu aumentar sua cobertura, ante a qualidade. A escola de hoje tem de fazer um esforço de melhorar a qualificação de seus professores. E temos de trabalhar na governança da educação. Temos de ter um investimento mais eficiente. A América Latina investe cerca de 5,2% de seu Orçamento em educação, quando o resto do mundo está de 3,5% a 4,3%. Mas o investimento não é suficiente.

P. Esse investimento não é suficiente por que? Por causa da corrupção?

R. Não. Acredito que tem de investir nos professores mesmo. Eles têm de estar mais bem formados, motivados e avaliados. E também nos diretores das escolas. Eles têm de ser pessoas com melhor formação. A gestão da educação costuma ser oferecida a pessoas com muito boa vontade, e nada mais. Dirigir uma escola de 1.000 alunos com um quadro de 80 professores é uma tarefa muito complexa. Tem de ser qualificado para isso. E nem todos os diretores de colégios são pessoas que têm qualificação para isso nem conhecimento. Apesar de terem um grande apoio.

P. Esse cenário é apenas da educação pública?

R. Não. Da privada também. Elas são muito parecidas, de maneira geral. A pública padecia de um baixo investimento que vem de anos passados por causa de um baixo interesse político. Agora, isso mudou, por sorte. Mas a privada também sofreu com a baixa qualificação dos professores. E dentro da privada temos um leque diferente. Há a privada de elite e a mais simples. Elas não são uniformes. São muito diferentes.

P. Qual sua opinião sobre esse projeto Escola Sem Partido, que tem sido encampado por políticos conservadores e pelo futuro presidente Jair Bolsonaro (PSL)?

R. Eu trabalho com educação por toda a minha vida. Trabalhei em todos os âmbitos da educação. E eu nunca vi algo como isso. Escola sem partido é uma coisa insólita. Não há partido em escolas em qualquer escola do mundo. A escola é uma instituição social, construída por séculos, que sempre foi aberta, clara, e que debate ideias, compartilha conhecimentos, ensina a confrontar. Uma escola neutra, sem opiniões, não existe. A escola obedece sempre a dois ou três ministérios. A escola brasileira segue a cultura brasileira e as propostas formuladas por seu Ministério da Educação. Ela é feita pelos políticos para se construir um país melhor. É o que se espera que ocorra em todas as partes do mundo. Na escola não estão os partidos, nelas, está a sociedade.

P. Como analisa esse movimento revisionista, que tenta reescrever parte da história brasileira, principalmente no período que se refere à ditadura militar (1964-1985)?

R. São tipos históricos que ocorrem em todos os países. É comum ver historiadores tentando contar a história porque entendem que ela estaria mal contada. São processos naturais, que fazem parte da dialética social. Em alguns países europeus ocorreu todo um revisionismo. Por exemplo, na Itália, no Reino Unido. O Brexit foi um desses movimentos de reescrever a história. Eu não daria maior importância a esse processo.

P. De que maneira as posturas políticas extremas podem interferir no ensino de crianças e jovens?

R. As posturas políticas extremas que sejam excludentes e negacionistas podem influenciar. O que mais quer a educação é abertura, debate e, claro, diversidade. Outra influência é adotar posturas que sejam demagógicas, populistas. A ideia é complexa. E a escola é uma entidade complexa. Quando há uma proposta complexa, extrema, as soluções nunca são simples. Educação tem de ser construída dividindo com todos, debatendo.

P. Hoje está otimista ou pessimista com a educação brasileira?

R. Estou mais otimista do que antes. Quem trabalha com educação tem de ter esperança. Nós queremos ter esperança, sempre. Quem não a tem, não pode trabalhar com educação. Nos últimos 30 anos, no Brasil, a taxa de analfabetismo tem caído nos últimos, a taxa de matrículas na escola tem crescido, há uma melhora na avaliação nas provas internacionais.

P. Uma discussão política que tem sido feita agora é sobre a unificação do Ministério da Educação com a Cultura e, talvez também com o do Esporte. De que maneira isso interfere nestas áreas?

R. Em princípio não há porque influenciar. É uma questão frequente em vários países. São decisões mais administrativas, mais burocráticas. Te dou um exemplo. O Ministério da Educação da Espanha, trocou de nome cinco vezes em 30 anos.

P. E nada se alterou de fato?

R. Não. Os professores seguem ensinando, o sistema segue funcionando normalmente. O Ministério continua dando as diretrizes, apesar de já ter se juntado com a ciência, ou com a cultura, ou com assuntos sociais, ou esportes. Todo mundo sabe que o ministro da Educação é responsável por tratar da educação em todo o país.

P. E nunca houve uma oposição, uma crítica a essas trocas?

R. De maneira geral, não. Apenas dos que são de sindicatos de funcionários de educação que reclamavam que gostavam ou não de determinado nome. Nunca gerou um debate social.

P. Uma outra proposta do futuro Governo Bolsonaro é implantar pelo menos uma escola militar nas capitais dos Estados. Como você vê essa militarização do ensino? É algo positivo?

R. Não sei. Tem de ver como são essas escolas. O que posso dizer é que essa é uma prática que não é comum. Só existe em algumas exceções pelo mundo. Creio que as escolas devem ser formadas por educadores, ela é uma comunidade de conhecimento que deve ser participativa. Tem de formar os alunos nas competências básicas e com os conceitos morais que sejam levados para toda a vida. Para que sejam bons cidadãos, competentes, responsáveis e solidários. Acredito que essa é a fórmula que mais ou menos funciona desde a Grécia Antiga.

P. Quando analisamos os países da América Latina não notamos tanta integração no quesito idiomas. Por que não há tanta integração entre esses países paro o ensino de português e espanhol?

R. A agenda ibero-americana de educação está construída de maneira bastante potente nos últimos anos. Um dos elementos mais fortes na região é a língua. Temos elementos comuns muito fortes. Os currículos escolares da América Latina se parecem muito. O que uma criança aprende no Peru é parecido com o que aprende uma criança na Colômbia, no México ou na Argentina. Esse tem sido um trabalho intenso que temos feito nos fóruns internacionais nos últimos anos. Hoje, a agenda da OEI é assinada pelos 23 ministros da região. O português é o espanhol são duas línguas próximas e estão entre as mais emergentes do mundo. Lançamos agora um projeto para atuar nas áreas fronteiriças do Brasil. São regiões onde milhares de pessoas vão a um lugar para o outro e não sabem falar o idioma desse lugar. O que queremos é que essas pessoas não falem portunhol. Que falem português e espanhol.