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Eleições 2018 COLUNA i

O que Bolsonaro poderia aprender com Lula

Lula pode ser acusado de muitos erros cometidos durante seus dois mandatos, mas nunca de não ter sabido escolher ministros de indiscutível competência

Bolsonaro e sua mulher, Michelle, durante culto evangélico no domingo.
Bolsonaro e sua mulher, Michelle, durante culto evangélico no domingo. EFE

Não é uma provocação. Jair Bolsonaro, o capitão reformado recém-eleito presidente do Brasil, começa a ser acusado de algo que foi, em grande parte, responsável pelo sucesso do popular ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Estou me referindo ao fato de que o novo presidente de extrema direita pretenderia limitar-se a "presidir" o Governo, deixando os ministros livres para decidir. Essa característica, no entanto, foi um dos maiores êxitos de Lula, que soube estar rodeado, em seus dois mandatos, de ministros preparados aos quais deu liberdade de ação. Lula reservou-se o papel de presidir a República, de representar o Brasil dentro e fora do país, de ser o árbitro de sua equipe que, em seus dois mandatos, foi de primeira divisão.

Lula, o ex-torneiro mecânico que chegou à presidência gerando medo e apreensão devido ao seu passado, levando a uma disparada do dólar, entendeu, graças ao seu faro político aguçado — como fazem grandes empresas de sucesso —, que era melhor estar rodeado de pessoas de conhecimento inquestionável em suas áreas e dar-lhes campo de ação, sem tentar querer saber de tudo. Não foi um gesto de humildade, e sim de sabedoria de governo.

Hoje Lula pode ser acusado de muitos erros cometidos durante seus dois mandatos e à frente do PT, que continua dominando com mão de ferro da prisão, mas nunca de não ter sabido escolher, em seus dois mandatos, ministros de indiscutível competência. Basta consultar o Google e revisar a lista de ministros de seus dois governos.

Apenas os medíocres têm medo de estarem cercados de pessoas mais competentes que eles. Os verdadeiros líderes, por outro lado, estão sempre procurando por aqueles que estão mais bem preparados. Nas grandes empresas, há pessoas que buscam talentos em todo o mundo, à procura dos melhores em suas áreas.

Talvez o PT tenha começado sua queda quando, ao contrário de Lula, começou a cercar-se, nos governos que se seguiram e nos quadros do partido, de figuras talvez de segundo escalão, ou quando tentou reduzi-las a meros capachos do chefe. Isso nunca leva ao sucesso, e sim ao fracasso.

Lembro-me a este respeito, quando, há mais de 40 anos, a ditadura havia acabado e a democracia era inaugurada, o diretor e fundador deste jornal, Juan Luis Cebrián, no momento de recrutar jornalistas para formar a nova equipe, deu uma missão: "Quero os melhores do mercado". O general Franco, ditador e caudilho, acabava de falecer. Os 40 anos de ditadura, os tempos de censura e uma Espanha fechada ao exterior não deixaram muitas possibilidades para a formação de novos quadros de jornalistas. No entanto, a resistência havia forjado um grupo de profissionais com garra e vontade de poder agir em liberdade. E foi entre estes que Cebrián os escolheu. A história dos mais de 40 anos de vida deste jornal e hoje sua dimensão e reputação globais revelam, melhor do que nada, que aquele jovem diretor de 31 anos estava certo ao querer estar rodeado dos melhores.

Analisem a história do governo brasileiro no último meio século e vejam que os momentos de maior êxito, em que os horizontes se abriram na economia, nas relações exteriores, na cultura e na defesa dos direitos humanos, foram aqueles em que os responsáveis pela liderança da República não temeram estar rodeados dos melhores e mais preparados.

Todos os grandes líderes mundiais, em todas as áreas, aqueles que fizeram história, estiveram abrigados pelo melhor de seu tempo e nunca temeram ser ofuscados. Somente os medíocres têm medo de estarem rodeados daqueles que possam saber mais do que eles.

Quando soubermos os nomes e biografias de todos os ministros do novo Governo de extrema direita, saberemos se Bolsonaro não teve medo de ter por perto personagens inquestionáveis em seu conhecimento na área que irão comandar, ou se retomará a velha prática de não nomear os melhores, e sim atender às demandas de compromissos espúrios. Quem serão, por exemplo, os ministros da Educação, da Cultura e de Relações Exteriores, três cargos-chave de qualquer Governo que pense mais na sociedade do que em seus pequenos interesses de poder ou ideológicos? Em breve saberemos.

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