Erdogan aponta premeditação no “selvagem” assassinato de Khashoggi

Presidente turco diz confiar no rei Salman, a quem pede que extradite os 18 detidos para que sejam julgados na Turquia

Recep Tayyip Erdogan durante seu pronunciamento no Parlamento turco
Recep Tayyip Erdogan durante seu pronunciamento no Parlamento turcoREUTERS

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O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, relatou ao Parlamento turco as conclusões da investigação sobre o assassinato do jornalista saudita Jamal Khashoggi, visto pela última vez há três semanas entrando no consulado do seu país em Istambul para cumprir um trâmite, em 2 de outubro. Khashoggi, de 59 anos, caíra em desgraça no Reino do Deserto após criticar o regime de Riad.

“Temos a certeza de que Khashoggi foi assassinado no consulado saudita”, sentenciou Erdogan que, contrariando a versão oficial de Riad, disse que esse “selvagem” crime foi planejado. “Houve um plano que começou a ser gerado em 28 de setembro, na primeira visita de Khashoggi ao consulado”, disse o presidente.

Em 1º de outubro, véspera da “operação”, equipes sauditas fizeram “explorações” no Bosque de Belgrado e em Yalova. Erdogan contou que a Arábia Saudita lhe informou sobre a detenção de 18 pessoas, incluindo os 15 participantes da equipe que perpetrou o assassinato. “Essas 15 pessoas, por que chegaram a Istambul no dia do crime? Essas pessoas, de quem receberam ordens para vir? No consulado, porque não deixaram investigar imediatamente, só dias depois? Por que não aparece o cadáver de alguém que reconhecidamente foi assassinado?”, perguntou-se Erdogan.

“As provas indicam que Khashoggi foi assassinado de maneira selvagem e que se tentou acobertar o crime. As provas indicam, sem lugar a dúvida, que o crime foi planejado”, reiterou o presidente turco, que exigiu saber onde está o corpo do jornalista, ao mesmo tempo que pediu uma “comissão de investigação independente” sobre o caso.

“Faço um apelo à Arábia Saudita, ao rei Salman, custódio das duas mesquitas. O lugar onde se cometeu o crime é Istambul. Peço-lhe que envie esses 18 detidos para que sejam julgados em Istambul. A decisão é dele, mas esta é minha proposta, minha solicitação”, concluiu Erdogan, que expressou sua confiança no monarca.

O comparecimento do presidente atrasou porque primeiro discursou Devlet Bahçeli, líder do partido ultradireitista MHP e aliado de Erdogan no Governo. E soltou uma bomba: depois de semanas de debate, anunciou que desta vez não estarão coligados com Erdogan nas eleições municipais de março, o que põe em perigo o controle do presidente e de seu partido sobre várias prefeituras importantes.

Erdogan prometeu nesta segunda-feira, 22, anunciar “toda a verdade” sobre o caso. “Desde o início, a linha do nosso presidente foi clara: não haverá nenhum segredo sobre este caso”, declarou o porta-voz da presidência turca, Ibrahim Kalin, que insistiu, entretanto, na necessidade de preservar as relações entre Ancara e Riad. “A Arábia Saudita é um país importante para nós. É um país irmão e amigo. Temos muitos vínculos e não gostaríamos que estes se danificassem”, declarou.

Em um novo vazamento, do jornal turco Sabah, próximo do Governo, informou que um alto funcionário diplomático da Arábia Saudita em Istambul foi o “cérebro” da operação que matou o jornalista. Esse veículo relata que Ahmed Abdulah al Muzaini, um adido diplomático que trabalha desde 2015 em Istambul e é apontado como chefe local da inteligência saudita, viajou a Riad em 29 de setembro e retornou em 1º de outubro, véspera do desaparecimento de Khashoggi. O Sabah, que não identifica nenhuma fonte, diz que essa pessoa foi quem recebeu e executou a ordem de matar o jornalista.

Horas antes do pronunciamento de Erdogan, o Governo turco declarou que graças à reação da comunidade internacional e da Turquia a Arábia Saudita reconheceu a morte do jornalista crítico. “O mundo falou com uma voz forte. Isso, junto com a nossa reação, forçou a Arábia Saudita a reconhecer a morte [de Khashoggi]”, afirmou o ministro turco de Relações Exteriores, Mevlüt Çavusoglu, à agência Anadolu. “Há um assassinato, e a questão é esclarecê-lo”, acrescentou o chanceler.

À margem do que foi dito por Erdogan, o mais importante do dia é que a polícia científica espera autorização do consulado saudita para vistoriar um automóvel com placas diplomáticas no qual há três bolsas suspeitas, duas delas grandes. Enquanto isso, a diretora da Agência Central de Inteligência (CIA) norte-americana, Gina Haspel, embarcou nesta segunda-feira para a Turquia, segundo o The Washington Post. A chegada de Haspel ao país coincidiria com a revelação dos detalhes sobre a investigação.

 

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