Eleições legislativas nos EUA: o plebiscito de Trump?

Presidente usa o pleito de 6 de novembro como um tudo ou nada sobre si mesmo. Uma derrota republicana o colocaria à beira do abismo; uma vitória afundaria os democratas sem remédio

Donald Trump em um comício em 4 de outubro, em Minnesota
Donald Trump em um comício em 4 de outubro, em MinnesotaJim Mone (AP)

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Donald Trump não aparecerá em nenhuma cédula eleitoral no próximo dia 6, quando os Estados Unidos fazem suas eleições legislativas bienais, mas, como se fosse o verdadeiro candidato, encheu sua agenda de comícios e intensificou sua atividade midiática para atiçar as massas contra a imigração e uma possível vitória dos “radicais” democratas. Só entre 6 e 17 de outubro, improvisou seis encontros com a imprensa, concedeu oito entrevistas a diferentes veículos e participou de 18 atos públicos nos quais atendeu os repórteres. Ao todo, respondeu a 300 perguntas de jornalistas em apenas 11 dias, segundo uma contagem da rede ABC, mais do que nenhum outro presidente na história no mesmo período de tempo.

Trump aposta no tudo ou nada. Neste momento de polarização extrema, os consensos são difíceis e, se os republicanos perderem o controle de uma ou de ambas as câmaras do Legislativo, ficará de mãos atadas no resto do seu mandato. Foi assim depois de 2014, quando o descontentamento com Barack Obama e a apatia dos democratas levou os conservadores a reconquistarem o Senado e ampliarem sua maioria na Câmara de Representantes. Para o nova-iorquino, as consequências tendem a ser muito piores: se vencerem, os democratas poderiam promover investigações sobre suas finanças e supostos crimes relativos à trama russa, abrindo a porta a um possível impeachment.

As eleições legislativas no meio do mandato presidencial costumam servir de castigo ao partido que ocupa a Casa Branca: a maioria dos presidentes, desde Franklin D. Roosevelt, viu sua bancada encolher, embora o atual presidente tenha algumas cartadas evidentes, como a extraordinária saúde da economia, a euforia pela grande redução de impostos e a vitória política de ter nomeado dois juízes conservadores para a Suprema Corte em menos de dois anos. As coisas que vão bem, entretanto, mobilizam pouco o ser humano, e por isso Trump está estimulando o medo contra a imigração e alerta para uma onda esquerdista nos EUA se os democratas ganharem terreno. “Os democratas querem caravanas [de imigrantes, como a que se desloca atualmente da América Central na direção dos EUA]”, disse neste sábado, 20. Repetirá o mesmo raciocínio nesta quarta-feira, no Winsconsin; na sexta, na Carolina do Norte; no sábado que vem, em Illinois. E assim, sucessivamente, a cada comício.

Essa agenda frenética deixa claro que o magnata vê as midterm elections (eleições no meio do mandato presidencial) como um plebiscito sobre sua pessoa. E os democratas, para inflamar suas bases, também as apresentam como um voto sobre Trump. A questão é se os eleitores encaram da mesma forma, ou seja, se irão às urnas pensando no presidente, e se as centenas de candidatos republicanos que lutam por votos em todo o país veem o mandatário como um ativo ou como um lastro. Quantos conservadores votam nos republicanos apesar de Trump? Quantos o fazem estimulados por Trump?

Uma pesquisa da Universidade Quinnipiac, muito reconhecida no âmbito dos levantamentos de opinião pública, revelava algumas pistas semanas atrás. Entre os republicanos, 39% melhoraram sua opinião sobre o partido graças a Donald Trump, 18% passaram a ter uma imagem pior dos republicanos devido ao magnata nova-iorquino, e uma maioria relativa, 42%, não alteraram o que sentem pelo GOP devido ao fenômeno trumpista. Sua popularidade continua periclitante: subiu quatro pontos em dois meses, chegando a discretos 44%, segundo o Gallup.

As crônicas dos comícios de Trump retratam verdadeiros fiéis do presidente, entusiastas do seu discurso belicoso, que largaram o que estavam fazendo para ir ouvi-lo num estádio qualquer do Meio-Oeste. Mas o magnata não teria vencido a eleição presidencial só com eles: Trump teve o voto de 80% dos republicanos, seja aqueles que usam com orgulho o boné vermelho com o lema “Make America Great Again” e os que se envergonham dele.

“Há republicanos que certamente não estão de acordo com ele em muitas coisas, mas mantêm seu apoio, ao redor de 80% estão com ele”, recorda Tim Malloy, diretor-assistente do departamento de pesquisas da Quinnipiac. “Muita gente votará pensando no seu bolso, muitos republicanos deixarão Trump de lado, e outras pedras do caminho, porque a economia vai de vento em popa. Em nossa última pesquisa havia 70% de norte-americanos que diziam que a economia ia muito bem e que sua vida tinha melhorado, isso é muito difícil de combater nas urnas”, acrescenta.

E, mesmo assim, tanto Malloy como a maior parte de analistas da política norte-americana concordam que poucas eleições legislativas até hoje foram disputadas num contexto tão nacional e tão presidencial. Para o Russell Riley, da Universidade da Virgínia, seria preciso remontar a um século atrás, em 1918, com Woodrow Wilson na Casa Branca, para encontrar um presidente tão entregue à campanha como se de um plebiscito se tratasse. “E isso é um erro”, alerta. No caso de Wilson, diz, o ego o impediu de ver que o público estava cansado da sua presidência. E com Trump pode ocorrer o mesmo. “Andou alimentando os impulsos da oposição dizendo ‘Um voto para [Martha] McSally [congressista republicana do Arizona] é um voto para mim’. E essa estratégia pode ser terrível se você pensar que seu índice de aprovação está em torno de 40%”, argumenta por correio eletrônico.

Uma das grandes diferenças da batalha democrata radica em que seus eleitores não têm hoje em dia uma figura clara para amar ou odiar, para se inspirar ou abominar. Uma onda de novos candidatos, com uma participação feminina sem precedentes e nítida agenda progressista, está monopolizando as atenções. O partido que vem de perder a última eleição nunca tem, logicamente, um líder único, mas no caso democrata é mais chamativa a ausência de referências. Barack Obama ainda não se envolveu a fundo na campanha, e a atividade pública de Hillary e Bill Clinton, que começaram uma viagem por vários Estados, desperta receios. Enquanto isso, começam a circular os nomes para possíveis aspirantes presidenciais em 2020, como a senadora por Massachusetts Elizabeth Warren e o ex-vice-presidente Joe Biden, ambos com mais de 70 anos.

Mas se, apesar das dificuldades eleitorais – o bom momento econômico e a falta de um líder de referência –, os democratas não conseguirem mobilizar suas bases contra Trump, que é um dos presidentes mais impopulares da história, e se não obtiverem a reação dos seus militantes depois da guinada conservadora na Suprema Corte e da onda de políticas regressivas contra mulheres e direitos LGTBs, a derrota será tamanha que o trauma pela derrota de 2016 poderá parecer brincadeira. A votação de 6 de novembro será também o grande plebiscito dos democratas. Malloy, da Quinnipiac, conclui: “É claramente um referendo sobre Trump. Bom, é um referendo sobre tudo”.

Entenda as eleições legislativas

SENADO

– Há 35 assentos em disputa, dos quais apenas 9 são republicanos. Isso torna mais difíceis as coisas para os democratas: precisam reafirmar os 26 que já possuem e, além disso, roubar outros 2 de algum republicano.

-Onde? Nevada, Arizona e Tennessee representam as melhores oportunidades para a oposição a Trump. O Texas, em menor medida, também.

- Assentos em risco para os democratas: ao mesmo tempo, há seis assentos atualmente democratas que correm risco, na maior parte dos casos porque se encontram em territórios trumpistas: Missouri, Indiana, Virgínia Ocidental, Montana, Wisconsin e Flórida.

CÂMARA DE REPRESENTANTES

- Todos os 435 assentos estão em disputa, mas só 48, aproximadamente, são considerados “disputáveis”, ou seja, não estão historicamente garantidos para determinado partido.

- Os democratas precisam manter os 194 deputados que já têm e roubar 24 dos republicanos.

- A vantagem para eles é que, desses 48 considerados “disputáveis”, a imensa maioria é republicana.

-Onde? Está mais distribuído por todo o território. Os democratas estabeleceram como estratégia atacar esses territórios onde Clinton ganhou a disputa presidencial ou onde consideram que seus candidatos estão recebendo mais doações que o rival republicano. Vários distritos Califórnia, assim como o 19º. distrito de Nova York (Antonio Delgado) e o 2º. do Arizona (Martha McSally), são alguns exemplos conhecidos.

GOVERNOS ESTADUAIS

-36 Estados elegerão seu novo governador. Destaca-se a batalha pela Flórida, onde o democrata Andrew Gillum pode se tornar o primeiro afro-americano no cargo, se derrotar um trumpista de proa, o congressista Ron DeSantis.

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