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COLUNA

Cresce o clima de fanatismo religioso em torno do atentado a Bolsonaro

Nunca fui capaz de entender por que Deus deveria salvar milagrosamente a vida de alguém enquanto deixava outros morrerem

Ato em apoio ao candidato Jair Bolsonaro em frente ao hospital onde ele está internado, em São Paulo, no dia 16 de setembro
Ato em apoio ao candidato Jair Bolsonaro em frente ao hospital onde ele está internado, em São Paulo, no dia 16 de setembro EFE

Flávio, o filho de Bolsonaro, foi o primeiro a afirmar que Deus “havia desviado a faca do autor do atentado” para salvar a vida de seu pai. Por sua vez, o carrasco, Adélio Bispo de Oliveira, confessou à polícia que “foi Deus quem mandou matar” o político e candidato de ultradireita à presidência. Curioso esse Deus que ordena a morte de uma pessoa e logo depois desvia a mão do autor para evitar a morte. Alguém pode me explicar quem é esse Deus obscuro que está sendo metido a empurrões nas eleições?

Cresce, de fato, a menos de 15 dias do encontro com as urnas, um clima de fanatismo religioso em torno do atentado ao capitão reformado Bolsonaro. De acordo com informações do jornalista Lauro Jardim em sua página no Facebook, existe um consenso entre os pastores das igrejas evangélicas de que o político se salvou do atentado graças a uma “decisão divina”. E começam a ser organizados grupos de orações para comemorar o milagre. Está em andamento sua canonização em vida.

Segundo essa teoria salvacionista, a facada que o autor infligiu ao candidato à presidência era dirigida ao coração da vítima. Pretendia ser mortal. Alguém, entretanto, teria empurrado o braço do autor e a faca acabou cravada no abdômen da vítima e não em seu coração. Deus teria feito a Bolsonaro o milagre de salvar sua vida.

Alguns até estão desenterrando, com esse motivo, o atentado sofrido em Roma pelo papa católico João Paulo II em 13 de maio de 1981, durante uma audiência pública na praça de São Pedro, realizado pelo jovem turco Ali Agca, que teria militado em grupos da extrema direita e da extrema esquerda. Quiseram comparar aquele atentado que abalou o mundo com o sofrido pelo político brasileiro de ultradireita.

É verdade que também naquele momento muitos católicos consideraram como um milagre de Deus que o Papa polonês tenha saído a salvo do atentado como hoje tantos evangélicos brasileiros veem outro milagre no que ocorreu a Bolsonaro. Na época do atentado ao Papa polonês foi dito que Deus havia “desviado os tiros da pistola” do autor do atentado para salvar-lhe a vida, como hoje teria desviado a faca contra Bolsonaro. Também à época se divulgou que uma pessoa que estava ao lado do autor, supostamente uma freira, havia movido o braço de Ali Agca no momento em que atirava no Papa. Dessa forma os tiros, em vez de atingir seu coração, acabaram ferindo-o somente no ventre. Foi operado em situação de emergência e se salvou. Acabou canonizado.

Eu me perguntei, entretanto, naquele momento em que precisei informar sobre o atentado a este jornal como correspondente em Roma, como me pergunto hoje no caso de Bolsonaro, que Deus é esse que escolhe de quem salvar a vida e de quem tirá-la. Como já havia escrito em meu livro “El Dios en quien no creo” (O Deus em quem não acredito), nunca fui capaz de entender por que Deus deveria salvar milagrosamente a vida de alguém enquanto deixava os outros morrerem. Que salva um Papa dos tiros e de uma facada um político importante, enquanto deixa crianças morrerem de câncer e fome e parece incapaz de desviar as balas perdidas que, no Brasil, acabam todos os dias com a vida de tantos inocentes? Que Deus injusto seria esse?

Às vezes, os agnósticos e os ateus criticam a nós crentes pelo fato de usar Deus como instrumento de nossos interesses pessoais. Têm alguma razão. Todos somos iguais perante Deus que não intervém em nosso cotidiano. Somos somente nós os donos absolutos de nosso destino. Deus não vai às urnas votar, não faz campanha por ninguém. Habita em outros lugares da alma, de onde fala, com seu silêncio, aos puros de coração.

Entre os dez mandamentos das tábuas da Lei, que Deus entregou a Moisés, o terceiro diz: “Não invocarás o nome de Deus em vão”. E é invocado em vão quando fazemos dele um instrumento de cálculos políticos empobrecendo-o e transformando-o no curinga de um baralho. A História está cheia de páginas sangrentas e de injustiças perpetradas em nome de Deus. Não é ele, entretanto, que cria a dor do mundo, e não é o senhor absoluto de nossas vidas. Ele não desvia as facas e as balas dos autores de atentados porque respeita nossa liberdade. Somos nós os únicos responsáveis por nossos atos, não Deus.

É significativo que os milagres que Deus faz às pessoas importantes nunca cheguem aos mais pobres. Ninguém se preocupa em desviar as facas e as balas perdidas endereçadas a esses pobres. Não deveriam votar nesse Deus. Não é seu Deus. Os evangélicos fiéis aos ensinamentos de Jesus têm hoje problemas muito mais graves diante deles nesse país que parece crucificado pela intransigência, a intolerância e o desprezo aos mais vulneráveis, do que ficar discutindo sobre o Deus que salvou Bolsonaro. Estão correndo atrás dos fantasmas de uma miragem que pode acabar cegando a todos nós.

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