Guerra comercial

Trump anuncia novas taxas alfandegárias para China, que promete represália

Imposto na fronteira será inicialmente de 10%, mas o presidente norte-americano ameaça aumentá-lo a 25% em janeiro. Pequim considera que o anúncio de Trump prejudica as negociações bilaterais

Um navio de carga navega perto da cidade chinesa de Qingdao.
Um navio de carga navega perto da cidade chinesa de Qingdao. (AP)

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Donald Trump deixou de disparar balas de borracha para utilizar munição real no litígio comercial com a China. O escritório de Comércio Exterior dos Estados Unidos formalizou na segunda-feira, a menos de dois meses das eleições legislativas, a entrada em vigor de uma taxa alfandegária de 10% a uma lista de 5.745 produtos chineses avaliados em 200 bilhões de dólares (825 bilhões de reais). Junto com as tarifas que já estão em vigor, as sanções afetam metade das importações anuais da China. E a Casa Branca ameaça com mais, até cobri-las em sua totalidade.

Esse 10%, que entra em vigor no próximo dia 24, será elevado a 25% em 1 de janeiro se o gigante asiático se recusar a modificar suas práticas, criticadas por Trump antes até de chegar à presidência da maior potência mundial. “E mais, se a China adotar represálias sobre nossos agricultores e nossas indústrias, colocaremos imediatamente em andamento a fase três, que significa sanções adicionais sobre outros 267 bilhões de dólares (1,10 trilhão de reais) em importações”, alertou a Casa Branca em um comunicado atribuído ao presidente.

Na terça-feira Pequim prometeu contra-atacar. As autoridades não especificaram quais ações tomarão, ainda que no começo de agosto ameaçaram taxar produtos norte-americanos no valor de 60 bilhões de dólares (247 bilhões de reais) se Donald Trump continuasse com a jogada. Esse novo lance complica muito uma nova rodada de negociações que estava no forno e afasta a possibilidade de um acordo a curto prazo entre os dois países que acabe com essa dura guerra comercial.

“Lamentamos profundamente”, disse o Ministério do Comércio em um comunicado, horas depois do anúncio da Administração Trump. “Os Estados Unidos insistem na imposição de taxas alfandegárias, o que trouxe nova incerteza às negociações bilaterais. Esperamos que os EUA reconheçam as consequências de tais atos e tomem medidas para corrigi-los de maneira oportuna”. O órgão prometeu responder de maneira “simultânea”, ou seja, no próximo dia 24, quando as taxas recém-anunciadas por Trump que taxam os produtos chineses entrarão em vigor.

A resposta por parte da China ainda não está clara, mas se continuar com o prometido em agosto acabará taxando praticamente 85% do valor total de suas compras dos Estados Unidos. A proposta à época estava em colocar taxas de 5% a 25% em mais de 5.200 produtos. O valor mais baixo afeta bens como aviões e computadores, enquanto o mais alto inclui o trigo, o vinho e o gás natural liquefeito. Até agora Pequim havia optado por responder aos Estados Unidos com exatamente o mesmo volume de taxas, mas já não pode continuar com essa estratégia simplesmente porque não compra mercadorias suficientes. Trump já disse que se a China adotar novas represálias, como parece que acontecerá, será iniciada uma terceira fase que terminaria com taxas alfandegárias a todos os produtos procedentes do país asiático.

Guerra

Com a aplicação dessas novas sanções comerciais, Washington coloca em andamento a segunda fase de sua guerra comercial com a China. Na primeira etapa, os EUA impuseram taxas adicionais a produtos chineses no valor de 50 bilhões de dólares (206 bilhões de reais), uma medida respondida na mesma proporção por Pequim. Quando Trump anunciou em agosto que estudava novas sanções no valor de 200 bilhões de dólares (825 bilhões de reais) que concretizou na segunda-feira, a China anunciou represálias no valor de somente 60 bilhões de dólares (247 bilhões de reais), por importar menos em volume.

A verdade é que os EUA contam com muito mais margem do ponto de vista da balança comercial. O país norte-americano importou no ano passado produtos da China no valor de 505,6 bilhões de dólares (2,08 trilhões de reais), enquanto seu parceiro asiático importou produtos no valor de 130 bilhões de dólares (536 bilhões de reais), e com as sanções anunciadas já havia colocado impostos em 110 bilhões de dólares (453 bilhões de reais). Mas pode utilizar outros mecanismos alternativos de resposta.

Os EUA, como a China, dependem em grande medida do comércio internacional. Mas Trump se sente nesse momento com força para utilizar as taxas alfandegárias —um instrumento criticado por anos— como tática negociadora. Primeiro, porque sua economia cresce com solidez enquanto a de seu rival se desacelera.

Segundo, porque os investidores parecem estar relativamente calmos enquanto o mercado asiático mostra muito mais nervosismo.

O maior reflexo da confiança do presidente dos EUA é o tom da mensagem que enviou no começo da manhã de segunda-feira no Twitter, seu meio favorito. Afirmou que as taxas alfandegárias estão dando a ele uma nova posição de força na negociação. E também introduziu um novo termo em seu vocabulário, ao dizer que os países que não realizarem acordos justos serão “tariffed”, em um jogo de palavras entre impostos e aterrorizar.

A combinação das duas rodadas de taxas pode ter um impacto significativo e perigoso se a reação chinesa afetar a rede de fornecimento e produção. De fato, empresas como a Apple já anunciaram que a guerra comercial encarecerá seus produtos e empresas de tecnologia como a Intel alertaram o presidente de que os EUA podem perder a corrida do 5G se levarem adiante o confronto comercial. A lista final exclui 297 linhas de produtos previamente contemplados.

Trump, entretanto, considera que o custo ao consumidor é “insignificante” e afirma que sua estratégia já está criando mais empregos nos EUA. “Estão sendo gastos bilhões de dólares em novas fábricas por todo o país”, alardeou em referência à maneira que as empresas dedicadas ao aço e ao alumínio respondem às taxas alfandegárias. “É o assunto de conversas global”, acrescentou.

Oficialmente Pequim continua aberta ao diálogo para resolver essa guerra comercial, mas pelos precedentes os líderes chineses se perguntam se vale a pena negociar com Trump antes das eleições legislativas de novembro. Nas rodadas de diálogo anteriores, a delegação chinesa voltou a Pequim pensando que tinha um acordo nas mãos para depois ver como Trump o dinamitava via Twitter horas depois. De acordo com o jornal South China Morning Post, a China está reconsiderando sua participação na próxima, agendada para a próxima semana em Washington.

Larry Kudlow, o principal assessor econômico do presidente, disse horas antes do anúncio que o presidente “não está satisfeito” com o que está conseguindo com a China. As empresas e os grandes financistas norte-americanos, entretanto, acham que a Casa Branca não tem um objetivo concreto em um assunto que consideram complexo e que não se resolve com uma simples manchete. Por isso acham que a intenção de Donald Trump é de política doméstica visando as eleições legislativas de novembro.

Trump afirma que foram dadas “muitas oportunidades” à China para mudar e responder às suas preocupações. Por esse motivo, voltou a pedir a Pequim que tome medidas para “acabar com suas práticas comerciais injustas”. “Espero que a situação se resolva”, disse o presidente dos EUA, ao mesmo tempo em que reitera que sua obrigação é “proteger os interesses” dos trabalhadores norte-americanos, de suas empresas e do país em seu conjunto. “Não ficaremos de braços cruzados enquanto nossos interesses são atacados”, afirmou.

As tarifas impostas até o momento pouco afetaram o volume do comércio bilateral. De fato, o superávit da China em relação aos Estados Unidos na compra e venda de mercadorias aumentou nesse ano. Além disso, a nova taxa alfandegária de Trump sobre produtos avaliados em 200 bilhões de dólares (825 bilhões de reais), fixada em 10%, pode ser parcialmente compensada pela queda do valor do yuan em relação ao dólar, de 6% desde junho. Mas ainda que o impacto não seja significativo, a China se incomoda especialmente com a incerteza que esse conflito comercial provoca em um momento em que o crescimento do país continua desacelerando. Os mercados financeiros mostram esse nervosismo: em 2018 o índice de referência da Bolsa de Xangai caiu 21%.

As cifras da guerra comercial

Intercâmbio comercial (2017)

  • · EUA importou de Chinesa produtos por 505.600 milhões de dólares
    • ou Impostos impostos por 250.000 milhões.
  • · China importou de EUA bens por 130.000 milhões de dólares
    • ou Multas anunciados por 110.000 milhões.
Multas
  • · Primeira ronda (junho)

Estados Unidos anuncia multas por 50.000 milhões de dólares. Chinesa iguala-as. Aplicam-se em dois turnos

  • ou 34.000 milhões, em julho
  • ou 16.000 milhões, em agosto
  • · Segunda ronda (agosto)

Estados Unidos anuncia impostos por 200.000 milhões. China antecipa multas em represália por 60.000 milhões de dólares.

     · Terceira ronda (setembro)

Donald Trump adverte que EUA pode impor multas por outros 267.000 milhões. Pequim anuncia os novos impostos por valor de 60.000 milhões.

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