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Desvalorização do peso faz inflação disparar na Argentina

IPC de agosto sobe 3,9%, e as previsões de consultorias privadas para dezembro já superam 40%

Uma mulher prepara comida em uma manifestação.
Uma mulher prepara comida em uma manifestação. Reuters

Os argentinos, doutores em crise, acabam de incorporar um novo conceito ao vocabulário popular: pass through. Assim os economistas chamam o impacto da taxa de câmbio sobre os preços. O pass through é, portanto, o novo pesadelo da Argentina, que vê o Governo perder diariamente a batalha contra a inflação. O órgão estatístico nacional anunciou nesta quinta-feira o índice de preços ao consumidor (IPC) com os primeiros efeitos da desvalorização da moeda registrada no mês passado: 3,9% em relação ao mês anterior. O dado eleva a 24,3% a inflação acumulada desde janeiro, e a 34,4% o índice dos últimos 12 meses. Setembro será ainda pior, porque registrará em toda sua dimensão o impacto do pass through.

Que os poupadores argentinos “pensam em verde” (a cor do dólar) já é um lugar comum que busca explicar a dependência em relação à moeda norte-americana. Diante de qualquer turbulência, compram dólares para se proteger. E a cotação sobe: em 1º. de agosto, bastavam 28 pesos para adquirir um dólar; hoje são necessários quase 40. O peso perdeu 28% de seu valor desde agosto, e mais de 50% desde janeiro. A queda do peso se traduz imediatamente numa maior inflação, em parte por razões técnicas, e em parte por medo.

Os empresários sobem seus preços “por via das dúvidas”, temerosos de que a taxa de câmbio faça a inflação subir. É a profecia autorrealizada. A tempestade é completada por exportadores, que tentam igualar no mercado local os lucros extraordinários que agora obtêm em pesos ao vender produtos em dólares no exterior, e todos aqueles que produzem com insumos importados.

Agosto, por enquanto, não dará trégua na guerra que Mauricio Macri trava contra a inflação desde que chegou ao poder, em dezembro de 2015. O ano passado fechou com uma alta de 24,7% no IPC, 46% acima das previsões oficiais. Para este ano, o Governo estimou a inflação em 15%, mas depois teve que abandonar a meta, por ser inalcançável. Em junho, Macri aceitou um resgate financeiro do FMI que previa, no pior dos cenários possíveis, uma inflação de 32% em todo o ano de 2018. Essa cifra, muito pessimista, foi pelos ares em poucas semanas. A inflação deste ano rondará os 44%, se nada de mau voltar a acontecer no mercado cambial.

O afundamento do peso se concentrou na última semana de agosto, mas seu efeito inflacionário se potencializou com altas nos combustíveis, eletricidade e alimentos. A soma de fatores terminou por fechar o mês com maior inflação do ano. Se agosto foi ruim, setembro será pior. Consultorias privadas como a Ecolatina preveem que a inflação deste mês seja de pelo menos 6%, reflexo de todo o efeito negativo do pass through. Esse rastro chegará até outubro, com uma alta de pelo menos 4% no IPC. Este ano está perdido na batalha contra a inflação, e Macri prometeu que todas as esperanças ficam para o ano que vem. Os argentinos terão que esperar.

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