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Tom Wolfe contra Chomsky

Em seu último ensaio, o jornalista e escritor, que morreu em maio, ataca o revolucionário linguista

Noam Chomsky fuma um cachimbo em seu escritório do MIT, em 1969.
Noam Chomsky fuma um cachimbo em seu escritório do MIT, em 1969. LIFE collention / Getty

Ninguém na academia jamais tinha visto ou mesmo ouvido falar de um desempenho como esse. Em apenas cinco anos, no começo da década de cinquenta, um aluno de pós-graduação da Universidade da Pensilvânia – um aluno, na faixa dos 20 anos – havia se apoderado de todo um campo de estudos, a linguística, a revirou de ponta-cabeça e a endureceu, transformando essa suposta ciência social tão esponjosa em uma ciência de verdade, uma ciência dura, à qual deu seu nome: Noam Chomsky.

Na época, Chomsky ainda estava concluindo sua tese de doutorado na Universidade da Pensilvânia, onde havia feito os créditos da sua pós-graduação. Mas de noite, na cama, e no fundo do seu coração, ele estava morando em Boston e era membro recém-admitido da Harvard’s Society of Fellows, forjando para si um nome digno de Harvard.

Era o auge da “cientificalização” que havia entrado na moda logo depois da Segunda Guerra Mundial. Endureça! Não importa o que você faça, tem que soar científico! Livre-se do estigma de estudar uma “ciência social”! Até então, “social” significava “de miolo-mole”. Os sociólogos, por exemplo, estavam dispostos a qualquer coisa para evitar esse estigma. Eles tentavam observar e registrar cada hora das conversas, reuniões, correspondências e até trajetos feitos pelos indivíduos, e endureciam essa informação transformando-a em algoritmos cheios de símbolos de cálculo, que lhe davam a aparência de exatidão matemática. E fracassaram totalmente. Só Chomsky conseguiu, na linguística, transformar todos – ou quase todos – os miolos-moles em cientistas puros e duros.

Mesmo antes de concluir o doutorado, Chomsky foi convidado a proferir uma conferência em Yale e na Universidade de Chicago. Ele apresentou uma teoria da linguagem radicalmente nova. A linguagem não era algo que se aprende. Já se nasce dotado de um “órgão da linguagem”, que funciona desde a hora em que se vem ao mundo, assim como o coração e os rins já pulsam, filtram e excretam.

Para Chomsky, não importava qual era a língua materna de uma criança. Qualquer que fosse ela, o órgão da linguagem de cada criança seria capaz de utilizar a “estrutura profunda”, a “gramática universal” e o “dispositivo de aquisição da linguagem” com os quais nascera para expressar o que tivesse a dizer, sendo irrelevante se da sua boca saía inglês, urdu ou naga. Por isso – dizia Chomsky repetidamente – as crianças começavam a falar tão cedo… e tão corretamente em termos gramaticais. Nasciam com o órgão da linguagem pronto e já ligado. Em geral, aos dois anos de idade eram capazes de articular frases inteiras e criar orações completamente originais. O “órgão”… a “estrutura profunda”… a “gramática universal”… o “dispositivo”… – do jeito que Chomsky falava, o sistema era físico, empírico, orgânico, biológico. O órgão da linguagem impulsionava a gramática universal a percorrer os dutos linguais da estrutura profunda a fim de alimentar o LAD, a forma [sigla em inglês] como todos nesse campo se referiam agora ao “dispositivo de aquisição da linguagem” que Chomsky havia descoberto.

Não havia nada de elegante no carisma de Chomsky. Falava em tom monocórdico e nunca erguia a voz, mas seus olhos fulminavam qualquer desafiante

Dois anos depois, em 1957, aos 28 anos, Chomsky reuniu tudo isso num livro com o opaco título de "Estruturas Sintáticas" – e assim estava a caminho de se tornar o maior nome na história da linguística. Deu um teto para a disciplina e a virou de cabeça para baixo. Havia milhares de línguas na Terra, o que para os terráqueos soava como uma impossível Babel de proporções bíblicas.

Aí que entra o linguista marciano de Chomsky, que logo ficaria famoso. Um linguista marciano que chegasse à Terra, dizia ele muitas vezes…, muitas…, muitas…, imediatamente compreenderia que todas as línguas do planeta eram a mesma, apenas com ligeiros sotaques locais. E esse marciano chegava à Terra em quase todas as palestras de Chomsky sobre a linguagem.

Só a contragosto Chomsky tolerava os linguistas tradicionais que consideravam o trabalho de campo essencial e iam parar em lugares primitivos, saindo do meio do mato enquanto subiam o zíper da calça. Eram como os papa-moscas comuns da época de Darwin, voltando do meio do nada com sacolas cheias de fatos insignificantes e alardeando sua adorada fluidez poliglota. [...]

Chomsky tinha uma personalidade e um carisma semelhantes aos do Georges Cuvier na França do começo do século XIX. Cuvier orquestrava sua beligerância a partir de raciocínios meigos para chegar à fúria no momento calculado e com elegância retórica. Por outro lado, não havia nada de elegante no carisma de Chomsky. Falava em tom monocórdio e nunca erguia a voz, mas de seus olhos fulminavam qualquer desafiante com um olhar de autoridade absoluta. […]

A ideia chomskiana do “órgão da linguagem” gerou grande excitação entre os jovens linguistas. Com ele, a disciplina parecia mais nobre, mais rigorosamente estruturada, mais científica, mais conceitual, mais platônica, e não só uma enorme pilha de páginas com dados que os estudiosos de campo traziam de lugares dos quais necessariamente ninguém nunca tinha ouvido falar... A linguística já não significava mais fazer trabalho de campo entre raças nat... – ops – povos indígenas... cuja existência ninguém nem sequer imaginava. […]

Noam Chomsky se tornou uma autoridade que, em seu âmbito científico, ninguém se atrevia a levar na brincadeira. Num raro caso registrado de alguém que o confrontou sobre essa questão do órgão da linguagem, Chomsky deu um jeito de sair brioso. O escritor John Gliedman lhe formulou A Pergunta. Estava ele dizendo que havia encontrado uma parte da anatomia humana sobre a qual nenhum anatomista, clínico geral, cirurgião ou patologista do mundo tinha jamais posto os olhos?

Não se tratava de pôr os olhos, respondeu Chomsky, porque o órgão da linguagem ficava dentro do cérebro.

Estava ele então dizendo que um órgão, o da linguagem, ficava dentro de outro órgão, o cérebro? Mas os órgãos são por definição entidades separadas. “Há um lugar especial no cérebro e uma espécie peculiar de estrutura neurológica que inclua o órgão da linguagem?”, questionou Gliedman.

“Pouco se sabe sobre os sistemas cognitivos e sua base neurológica”, disse Chomsky. “Mas, ao que parece, a representação e o uso da linguagem implicam estruturas neurológicas específicas, embora sua natureza ainda não seja bem compreendida”.

Extrato de “O Reino da Fala” (Rocco).

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