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O longo e incerto caminho para a reconstrução do Museu Nacional

Ainda não se sabe ao certo o que se pode recuperar e nem as causas imediatas da tragédia. Ministério da Educação promete 10 milhões emergenciais para reconstrução

Manifestação em repúdio ao incêndio no Museu Nacional, no Rio.

Um dia depois do mega incêndio que destruiu o Museu Nacional, no Rio de Janeiro, as autoridades e os pesquisadores ainda não têm respostas sobre o tamanho exato das perdas e muito menos as causas da tragédia — para além do descaso de sucessivos governos com a instituição. O momento agora é de espera: o Ministério Público Federal pediu a abertura de um inquérito para apurar as causas e eventuais responsabilidades pelo incêndio, e a Polícia Federal deverá fazer durante os próximos dias uma perícia no imenso palácio imperial, na Quinta da Boa Vista, juntamente com a escola de engenharia da UFRJ. Até que isso aconteça, o que existem são promessas das principais autoridades políticas. Nesta segunda-feira, o ministro da Educação, Rossieli Soares da Silva, anunciou que irá destinar imediatamente 10 milhões de reais para um plano de emergência — desde 2014, contudo, o museu vem recebendo menos de 500.000 reais por ano do Governo Federal.

"O Governo vai criar um comitê Executivo para acelerar a recuperação", anunciou o ministro da educação, juntamente com o ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão, e do reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Roberto Leher. Eles realizaram uma entrevista coletiva, inicialmente marcada para 14h30, apenas no final da tarde, após uma reunião. As três autoridades representam os três organismos responsáveis da instituição: a UFRJ, proprietária e mantenedora do museu, recebe suas verbas via repasses do Ministério da Educação, enquanto que o Ministério da Cultura, a partir do IPHAN e do IBRAM, órgãos nacionais de patrimônio e de museu, possuem responsabilidades normativas e de conservação. Os 10 milhões, que virão exclusivamente da pasta de Educação, deverão garantir de forma urgente a segurança do patrimônio, o cercamento do local e o reforço das estruturas, explicou da Silva. Uma empresa deverá ser contratada e, juntamente com os funcionários do Museu, começará a ser feito o trabalho de procura do que sobrou. "O que nós fizemos hoje foi dar o ponta pé inicial na reconstrução", disse Sá Leitão.

Depois, cinco milhões de reais deverão ser destinados para um projeto básico e um executivo, que Sá Leitão estima que ficará pronto até o início de 2020. A partir de então começa o trabalho efetivo de reconstrução. "Um projeto executivo leva de seis meses a um ano. Queremos dar a maior celeridade, por isso estamos fazendo uma parceria com a UNESCO, para fazer as contratações via este órgão", explicou o ministro da Cultura. Além desses 15 milhões de recursos, ele garantiu que o financiamento de 21,7 milhões do BNDES, aprovado anos antes da tragédia deste domingo, está mantido. Sá Leitão também garantiu ter colocado "a Lei Rouanet à disposição" da reconstrução do museu. "Recebi contatos da TIM, do Banco Icatu... O presidente Michel Temer conversou com a Febraban, com o Itaú, o Santander e o Bradesco. E também vai falar com as estatais, como o Banco do Brasil, a Caixa e o BNDES", completou.

A última etapa desse projeto, detalhou Sá Leitão, é a aquisição de "novos acervos que possam de alguma forma substituir o que se perdeu". O ministro da Educação falou por sua vez em "parcerias internacionais" para recompor o acervo.

Responsabilidades

O reitor da UFRJ, instituição responsável por repassar os recursos que chegam através do Ministério da Educação, evitou fazer qualquer tipo de especulação sobre eventuais causas e culpados. Não se pode, argumentou, trabalhar de forma "especulativa" em um momento "delicado". Demonstrou confiança no trabalho da Polícia Federal, mas defendeu que a UFRJ também faça seu parecer para que haja um "refinamento" maior dos laudos sobre o incêndio. Ele disse que a instituição não possuía recursos suficientes para manter uma brigada de incêndio 24 horas no local.

Já Sá Leitão não poupou críticas ao que considera um modelo ineficaz de gestão dos museus universitários. Ele retirou a culpa do Governo Federal pela falta de financiamento e mirou às próprias instituições. "Esses museus estão em condições muito precárias. Acho que falta, sobretudo, que os gestores das universidades, responsáveis pelos museus, empreendam ações no sentido de aumentar a base de recursos. Ficar apenas com recursos orçamentários não dá mais", defendeu o ministro da Cultura, que quer uma mudança no modelo. "Esse modelo 100% estatal está falido no Brasil. É preciso mudar o modelo de gestão desses museus e buscar outras fontes de recursos. Eu tenho colocado a Lei Rouanet à disposição, tenho procurado prefeitos e governadores para que se envolvam nesse processo. Mas isso é uma questão de postura desses gestores das universidades".

Luto e protestos

Além das promessas das autoridades, esta segunda-feira foi de luto, lágrimas e protestos pela tragédia que destruiu uma instituição com 200 anos e 20 milhões de itens, o principal centro de pesquisa da América Latina, o maior museu de história natural e antropologia da região e o quinto maior acervo do mundo. "Eu estava em casa quando recebi uma mensagem via rede social de uma professora da UERJ que mora aqui do lado avisando do incêndio", conta o professor Renato Rodriguez Cabral Ramos, do departamento de geologia e paleontologia. "Eu peguei o carro e voei para cá, na esperança de que fosse algo localizado. Mas quando eu vi, comecei a chorar dentro do carro", completa o pesquisador, que há 13 anos trabalha no Museu Nacional. Ele lembra que a parte elétrica do palácio imperial foi reformada há alguns anos. Com os 21 milhões do BNDES previstos, a instituição se blindaria contra incêndios.

No meio da tarde, Ramos e alguns colegas puderam entrar rapidamente em algumas salas do primeiro andar para resgatar alguns minerais raros da coleção Werner, trazida pela família real ao Brasil, além de um quadro do Marechal Rondon. Algumas cerâmicas também foram resgatadas pelos bombeiros.

Alguns setores, contudo, foram totalmente destruídos. Como a parte de memória e arquivo, composta principalmente de papel. Ou a múmia egípcia comprada por Dom Pedro I, além de outros artefatos do Egito Antigo. Ou ainda o setor de insetos, que contava com exemplares únicos de espécies extintas. "Felizmente nossa produção é muito intensa, então nem tudo está perdido em termo de ciência, porque muitas peças foram estudadas. As análises estão publicadas em artigos e livros", explica o professor. "Mas tínhamos inúmeras peças de culturas indígenas brasileiras coletadas desde o século XIX. São povos que não existem mais, ou que existem e não fazem mais aquilo", completa. Outro setor que reportava perda total era o de linguística, em especial o acervo único de línguas indígenas. No caso do departamento de Ramos, os estragos serão avaliados com o tempo. Ele tem esperança de que alguns itens guardados ainda possam ser recuperados. "Nossos armários de aço estão em pé, mas tem muito ferro e entulho em cima. Vai demorar alguns meses para acessar os fósseis e minerais ali dentro. Se a gente recuperar 25%, vai ser uma alegria total".

Já Cristiana Serejo, vice-diretora do Museu Nacional, acredita que, além da carcaça do palácio imperial, apenas 10% do do acervo se salvou — ainda que só se saiba exatamente quando a perícia da Polícia Federal terminar e os pesquisadores puderem entrar, destaca. Entre os itens mais conhecidos e mais importantes está o crânio de Luzia, o fóssil humano com mais de 12.000 anos e o mais antigo do Brasil. Esta e outras peças valiosas estavam em armários e cofres especiais, o que nutre esperança de que podem ser recuperados. "As pessoas foram de manhã tentar achar a Luzia, mas parece que ela estava em uma caixa e tem muito escombro. A gente não sabe se dentro dessa caixa ela possa ter resistido", explica Serejo. "A parte lá de trás, do departamento de geologia e paleontologia, parece que sobrou alguma coisa", acrescenta ela, coincidindo com a avaliação do professor Ramos. Ela lembra ainda que alguns departamentos fora do palácio, como de vertebrados e o de botânica, além de uma biblioteca, localizada no Horto, ficaram intactos. Também permaneceu o meteorito Bendegó, um dos maiores do mundo e, agora, símbolo da resistência do museu. 

"Mas a coleção de entomologia, de insetos, que ficava no terceiro andar, não resistiu. Isto foi uma perda gravíssima. Estava em armários compactadores, mas como desabaram, foi um impacto muito grande", lamenta Serejo. O desafio agora é manter as pesquisas e remanejar os pesquisadores para para outros espaços da UFRJ. E, com o que sobrou, construir outro museu. "Desde ontem eu choro bastante, mas a gente vai conseguir", disse, emocionada, a pesquisadora, que no dia no incêndio foi uma das pessoas que entraram no palácio para salvar equipamentos.

Diante dos portões da Quinta da Boa Vista, estudantes vestidos de preto protestavam em repúdio ao incêndio. Em determinado momento, forçaram a entrada no parque municipal e foram contidos por policiais, que usaram bombas de gás e cassetetes. Por volta de 14h finalmente os portões foram abertos e eles puderam se aproximar mais do palácio incendiado. Não houve mais tumulto. Na parte da noite, uma manifestação foi convocada no centro da cidade, na Cinelândia, com o mesmo intuito: protestar contra o descaso das autoridades brasileiras que, acredita-se, resultou na tragédia. Milhares ocuparam por completo um dos locais mais emblemáticos do centro, incluindo a escadaria da Câmara dos Vereadores, e marcharam em direção a Assembleia Legislativa do Estado. Nas redes chegou-se a falar em 20.000 pessoas presentes, mas não há estimativas oficiais. Segundo análise da FGV, a tragédia provocou grande mobilização no Twitter — semelhante à do assassinato de Marielle Franco ou do julgamento do ex-presidente Lula no Supremo Tribunal Federal: foram 1,6 milhão de tuítes em 18 horas.

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